Este texto (senta que lá vem textão) nasceu de uma conversa e de uma provocação do meu amigo, parceiro, professor e músico Daniel Faria, que me convidou a pensar sobre o Brasil que aparece na televisão — e sobre aquele que ainda espera ser visto.
A morte de Preta Gil nos entristece.
É sempre doloroso perder uma pessoa, uma mulher, uma artista — sobretudo quando a vida é interrompida antes do tempo que imaginávamos necessário para que sua trajetória se completasse. A dor da família, dos amigos e de todos aqueles que a admiravam merece respeito. Preta Gil teve sua história, sua personalidade, sua presença pública e sua importância. Deixou marcas na música, na televisão e na cultura brasileira.
Por isso, esta reflexão não pretende diminuir sua trajetória, questionar o mérito de sua homenagem ou negar a importância de sua memória.
A questão é outra.
Quando uma grande emissora de televisão dedica um especial à vida e à obra de uma artista depois de sua morte, inevitavelmente surge uma pergunta que ultrapassa a própria pessoa homenageada: quais são os critérios que determinam quem ocupará um lugar privilegiado na memória coletiva de um país?
Quem decide quem será lembrado?
Quem decide quem se transforma em símbolo nacional?
Quem determina quais trajetórias merecem um documentário, uma retrospectiva, uma noite inteira de televisão?
E, sobretudo, quem decide quais artistas serão apresentados às novas gerações como parte indispensável da história cultural do Brasil?
Essas perguntas não dizem respeito apenas a Preta Gil. Elas nos conduzem a uma reflexão maior sobre a maneira como uma sociedade constrói seus ídolos, organiza suas memórias e distribui sua visibilidade.
Porque memória também é poder.
E, em uma sociedade profundamente marcada pelos meios de comunicação, aquilo que aparece na televisão tende a adquirir uma dimensão que ultrapassa a simples exposição. A televisão não apenas informa ou entretém. Ela participa da construção do imaginário social. Ela seleciona personagens, histórias, lugares, sotaques, músicas e acontecimentos que passam a representar aquilo que entendemos como “Brasil”.
Nesse sentido, a televisão não é apenas um espelho da sociedade.
Ela também é uma instituição que ajuda a produzir a imagem que a sociedade faz de si mesma.
Quando uma emissora escolhe contar a história de alguém, essa escolha produz um efeito simbólico. Não se trata apenas de homenagear uma pessoa. Trata-se também de inscrevê-la na memória coletiva.
E o contrário também pode acontecer.
Aquilo que não é mostrado corre o risco de desaparecer do campo da visibilidade pública.
Talvez seja esse o ponto mais importante desta reflexão: não devemos questionar por que determinados artistas recebem homenagens, mas por que tantos outros, igualmente importantes, permanecem invisíveis.
Não é preciso retirar espaço de ninguém.
É preciso ampliar o espaço.
O Brasil possui uma quantidade extraordinária de artistas, escritores, compositoras, cantoras, atores, atrizes, cineastas, pesquisadores e produtores culturais. Mas o país não conhece todos eles.
Alguns conseguem ultrapassar as fronteiras de sua região, de sua classe social e de seu circuito cultural. Tornam-se conhecidos nacionalmente e, em alguns casos, internacionalmente.
Outros permanecem confinados ao território onde nasceram ou construíram suas carreiras.
Não necessariamente porque sejam menos talentosos.
Muitas vezes, porque os mecanismos de circulação cultural são desiguais.
A questão, portanto, não é apenas talento.
É também acesso.
É infraestrutura.
É mercado.
É concentração dos meios de comunicação.
É poder econômico.
É localização geográfica.
É pertencimento social.
É a possibilidade de entrar em determinados circuitos de produção e reconhecimento.
Em outras palavras, a consagração de um artista nunca depende exclusivamente de sua qualidade artística. Ela também está relacionada às estruturas sociais que permitem que determinada obra circule, seja vista, seja legitimada e, finalmente, seja transformada em patrimônio simbólico.
É nesse ponto que a discussão sobre a televisão nos leva a uma questão antropológica fundamental: quem tem o direito de representar o Brasil?
E mais: quem tem o direito de definir o que é cultura brasileira?
A televisão e a invenção de um Brasil possível
Durante décadas, a televisão brasileira ocupou uma posição central na construção de uma identidade nacional.
Em um país continental, marcado por desigualdades profundas e por uma enorme diversidade cultural, a televisão teve — e ainda tem — a capacidade de criar uma sensação de pertencimento comum.
Ela coloca pessoas de diferentes regiões diante das mesmas imagens.
Faz com que milhões de brasileiros conheçam determinadas músicas, artistas, festas, sotaques e paisagens.
Mas essa capacidade de unificar também produz um problema.
Ao escolher o que mostrar, a televisão também escolhe o que deixar de fora.
Toda representação é, de alguma maneira, uma seleção.
E toda seleção produz visibilidade para alguns e invisibilidade para outros.
Por isso, quando pensamos na televisão brasileira, precisamos pensar também naquilo que poderíamos chamar de geografia simbólica do país.
Há regiões que aparecem constantemente.
Há outras que aparecem apenas em momentos específicos.
Há culturas que são apresentadas como expressões da identidade nacional.
E há culturas que são apresentadas como particularidades regionais.
Essa diferença pode parecer pequena.
Mas não é.
Ela revela uma hierarquia simbólica.
A Bahia: quando o regional se transforma em nacional
Penso na Bahia.
Quando penso em Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Ivete Sangalo, Olodum, Carnaval, capoeira, candomblé, acarajé e Pelourinho, não penso apenas na Bahia.
Penso no Brasil.
Esse talvez seja um dos maiores triunfos culturais da Bahia: a capacidade de transformar referências regionais em elementos constitutivos do imaginário nacional.
A Bahia conseguiu ocupar um lugar singular na representação simbólica do país.
Mas essa conquista também contém uma contradição.
Quando uma cultura se torna muito visível, existe o risco de que ela seja reduzida justamente às imagens que melhor funcionam no mercado cultural e na televisão.
A Bahia pode acabar transformada em um conjunto de signos facilmente reconhecíveis: Carnaval, música, festa, praia, alegria, religiosidade, sensualidade, ancestralidade.
Tudo isso faz parte da Bahia.
Mas a Bahia não se resume a isso.
Existe uma Bahia universitária, científica, tecnológica e industrial.
Existe uma Bahia rural e urbana.
Existe uma Bahia pobre e rica.
Conservadora e progressista.
Negra, indígena, mestiça.
Existe uma Bahia de conflitos, desigualdades, disputas políticas e transformações sociais.
Existe uma Bahia cotidiana.
Uma Bahia que não cabe em um cartão-postal.
Esse é um dos paradoxos da representação cultural: ser visto pode ser uma forma de reconhecimento, mas também pode ser uma forma de redução.
Quando uma sociedade é representada apenas por seus símbolos mais vendáveis, sua complexidade desaparece.
A cultura passa a ser transformada em produto.
A identidade passa a ser transformada em marca.
E o território passa a ser transformado em cenário.
O Rio Grande do Sul e a força da identidade regional
Penso também no Rio Grande do Sul.
É uma das regiões brasileiras que construiu uma identidade cultural regional particularmente forte.
O imaginário gaúcho possui símbolos facilmente reconhecíveis: o chimarrão, o cavalo, a música, a dança, a tradição, o campo, o CTG, a culinária e a memória histórica.
Há uma forte capacidade de preservação e transmissão de identidade.
Mas existe uma diferença importante.
A cultura gaúcha costuma ser reconhecida como cultura regional.
Já determinadas expressões culturais de outras regiões são frequentemente apresentadas como cultura brasileira.
Quando a televisão mostra um CTG, muitas vezes a mensagem implícita é:
“Esta é uma tradição do Rio Grande do Sul.”
Quando mostra o Carnaval da Bahia, frequentemente a mensagem parece ser:
“Esta é uma manifestação da cultura brasileira.”
Essa diferença é sutil.
Mas revela uma questão importante sobre a construção da identidade nacional.
Por que algumas culturas são percebidas como parte do centro simbólico do Brasil enquanto outras permanecem identificadas como expressões particulares de seus estados?
A resposta não é simples.
Ela envolve história, relações de poder, mercado, indústria cultural, concentração dos meios de comunicação e processos históricos de formação da identidade nacional.
Não se trata de dizer que uma cultura é mais brasileira do que outra.
Trata-se de perceber que algumas culturas tiveram maior capacidade de transformar seus símbolos em referências nacionais.
O Paraná e o desafio da complexidade
E então penso no Paraná.
Talvez o Paraná apresente um problema diferente.
O Paraná é um território de encontros.
Tem litoral e interior.
Tem o fandango caiçara, o tropeirismo, os povos indígenas, a presença cabocla e uma multiplicidade de tradições trazidas por diferentes fluxos migratórios.
O Paraná é o maior produtor de erva-mate do Brasil, e por muitos anos a economia do estado teve na erva-mate uma de suas principais bases. Por isso, é fundamental reconhecer a importância histórica e cultural do chimarrão para os paranaenses, valorizando essa tradição também no Paraná, e não apenas no Rio Grande do Sul.
Há influências portuguesas, polonesas, ucranianas, italianas, alemãs, japonesas e de muitos outros grupos.
Há Curitiba.
Há as cidades médias.
Há o interior.
Há o chamado “Paraná profundo”.
Há as araucárias, as Cataratas, o barreado, as festas populares, a literatura, o teatro, o cinema, as universidades e a música.
O Paraná é um mosaico.
E talvez justamente aí esteja parte de sua dificuldade de representação.
A televisão gosta de símbolos rápidos.
Imagens que possam ser reconhecidas em poucos segundos.
O Carnaval da Bahia é uma imagem.
O gaúcho com seu chimarrão é uma imagem.
Mas qual é a imagem que representa o Paraná inteiro?
A resposta é muito mais difícil.
Talvez porque não exista uma única imagem capaz de representar uma sociedade tão diversa.
E talvez seja justamente aí que esteja a riqueza do Paraná.
A questão é que a televisão, historicamente, nem sempre soube lidar bem com a complexidade.
Ela prefere a síntese.
Prefere o símbolo.
Prefere o estereótipo.
A diversidade, quando é muito complexa, exige tempo.
E tempo é justamente aquilo que a lógica comercial da televisão costuma considerar caro.
O perigo do estereótipo e o perigo da invisibilidade
Existe, portanto, um paradoxo.
Quando uma cultura se torna muito conhecida, corre o risco de ser reduzida aos seus estereótipos.
Quando uma cultura não recebe visibilidade, corre o risco de desaparecer do imaginário nacional.
Entre esses dois extremos está o verdadeiro desafio da representação cultural.
Não basta aparecer.
É preciso aparecer com complexidade.
Não basta ser lembrado.
É preciso ser compreendido.
Não basta transformar uma cultura em símbolo.
É preciso permitir que ela também revele suas contradições.
Talvez seja isso que esteja em jogo quando pensamos na televisão e na memória cultural brasileira.
O problema não é que determinadas regiões apareçam demais.
O problema é quando o Brasil aparece de menos.
A memória também é uma disputa
É nesse ponto que volto à música brasileira.
Quantas grandes cantoras morreram sem receber uma homenagem proporcional à importância de suas trajetórias?
Quantas compositoras tiveram suas obras esquecidas?
Quantos artistas extraordinários jamais alcançaram uma audiência nacional porque nasceram longe dos grandes centros de produção cultural?
Quantas histórias permaneceram restritas às cidades onde foram construídas?
Quantas carreiras foram interrompidas não apenas pela morte, mas pela ausência de memória?
A memória coletiva não é neutra.
Ela é construída.
É selecionada.
É disputada.
E, muitas vezes, é atravessada por relações de poder.
A sociedade lembra algumas pessoas mais do que outras.
Algumas obras entram para o patrimônio cultural.
Outras desaparecem.
Alguns artistas se tornam referência obrigatória.
Outros precisam ser redescobertos por pesquisadores, jornalistas, produtores culturais e novas gerações.
Por isso, a questão que devemos fazer talvez não seja:
“Por que Preta Gil recebeu uma homenagem?”
Mas:
“Por que tantos outros artistas não tiveram a mesma oportunidade de serem conhecidos?”
Essa mudança de pergunta é fundamental.
Porque ela abandona a lógica da competição pela memória e nos conduz à discussão sobre a democratização da memória.
Não se trata de escolher quem merece mais.
Trata-se de perguntar por que o espaço é tão limitado.
Cultura não é apenas aquilo que dá audiência
A televisão possui uma responsabilidade que ultrapassa a lógica do entretenimento.
Ela participa da formação cultural de um país.
Por isso, talvez seja necessário repensar a ideia de que somente aquilo que produz audiência imediata merece espaço.
Cultura não é apenas aquilo que vende.
Cultura também é aquilo que precisa de tempo para ser descoberto.
Alguns artistas não são imediatamente populares.
Algumas histórias não possuem apelo comercial instantâneo.
Algumas culturas exigem contexto.
Algumas obras precisam ser apresentadas antes de serem compreendidas.
Se esperarmos que tudo tenha audiência antes de receber visibilidade, estaremos condenados a repetir eternamente aquilo que já conhecemos.
E, nesse processo, continuaremos confundindo popularidade com importância.
Mas essas duas coisas não são necessariamente iguais.
O que é popular pode ser importante.
Mas aquilo que não é popular também pode ter enorme importância.
Essa diferença precisa ser preservada.
A descentralização como política cultural
Talvez uma das grandes transformações necessárias seja a descentralização da produção cultural brasileira.
Não basta transmitir histórias sobre o Paraná, a Bahia, o Rio Grande do Sul ou qualquer outra região.
É necessário criar condições para que essas histórias sejam produzidas pelos próprios sujeitos que vivem nesses lugares.
A representação cultural precisa ser acompanhada de autonomia.
Não basta que o centro olhe para a periferia.
É necessário que a periferia também possa produzir suas próprias narrativas.
Isso significa investir em produtores locais, cinema regional, música, teatro, literatura, documentários, universidades, emissoras públicas e plataformas digitais.
Significa fortalecer políticas culturais que não dependam exclusivamente da lógica comercial.
Significa criar mecanismos para que artistas fora dos grandes centros tenham condições reais de produzir e circular.
E significa também exigir das grandes emissoras uma disposição maior para correr riscos.
Porque, se tudo precisa provar sua audiência antes de receber espaço, o novo nunca terá oportunidade de nascer.
Um Brasil que não precise escolher uma única identidade
Talvez o futuro da cultura brasileira esteja justamente na multiplicidade.
Em vez de perguntar qual região representa melhor o Brasil, deveríamos perguntar:
Por que ainda precisamos escolher uma?
O Brasil não é a Bahia.
Não é o Rio Grande do Sul.
Não é o Paraná.
O Brasil é justamente a soma — muitas vezes impossível, contraditória e conflituosa — dessas diferenças.
Existe uma cultura brasileira.
Mas ela não é uma cultura única.
Ela é formada por muitas culturas que se encontram, se misturam, se transformam, se contradizem e, em alguns momentos, também entram em conflito.
A Bahia nos lembra a força da ancestralidade e a capacidade de uma cultura regional transformar-se em linguagem nacional.
O Rio Grande do Sul nos mostra a força da memória e da preservação de uma identidade.
O Paraná nos revela que a diversidade pode ser tão grande que nenhuma imagem única é capaz de representá-la.
E a música brasileira nos lembra que talento não deveria depender exclusivamente de localização geográfica, fama prévia, poder econômico ou espaço concedido pelos meios de comunicação.
Talvez a televisão brasileira precise aprender uma nova maneira de olhar.
Em vez de perguntar apenas:
“O que dá audiência?”
Perguntar também:
“O que ainda não conhecemos?”
Em vez de mostrar apenas aquilo que já sabemos que funciona, abrir espaço para aquilo que pode nos surpreender.
Em vez de reproduzir continuamente as mesmas imagens do Brasil, permitir que o país descubra a si mesmo em sua multiplicidade.
O Brasil que ainda não aprendemos a enxergar
No fim, não quero tirar de Preta Gil o direito à homenagem.
Ao contrário.
Quero que sua homenagem possa também nos provocar uma reflexão maior.
Que sua memória não seja apenas uma celebração individual, mas uma oportunidade de pensarmos sobre a maneira como construímos nossos ídolos e organizamos nossa memória coletiva.
Porque talvez o verdadeiro problema não seja quem está no palco.
Talvez seja quem nunca teve a oportunidade de chegar até ele.
Não precisamos diminuir ninguém para ampliar o Brasil.
Não precisamos apagar uma região para que outra apareça.
Não precisamos escolher entre Bahia, Rio Grande do Sul ou Paraná.
Precisamos compreender que um país continental não pode ser representado por um único imaginário.
A verdadeira democratização cultural começa quando reconhecemos que visibilidade também é uma forma de poder.
E que o direito de ser visto é, em alguma medida, o direito de existir na memória coletiva.
Talvez a cultura brasileira só possa ser verdadeiramente nacional quando suas diferenças tiverem o direito de ocupar o mesmo palco.
Não para serem iguais.
Mas para poderem ser diferentes sem serem invisíveis.
Talvez esse seja o Brasil que eu gostaria de ver na televisão:
um Brasil onde a Bahia não precise diminuir para que o Paraná apareça;
onde o Rio Grande do Sul não precise abandonar suas tradições para ser reconhecido como moderno;
onde o Paraná não precise escolher uma única identidade para ser compreendido;
onde as culturas indígenas, negras, caboclas, migrantes e populares não sejam apenas elementos decorativos de uma narrativa nacional, mas sujeitos legítimos de sua própria história;
e onde nenhum artista precise morrer, desaparecer ou ser esquecido para que finalmente descubramos o tamanho de sua importância.
Um Brasil em que a televisão não seja apenas um espelho daquilo que já conhecemos.
Mas uma janela para tudo aquilo que ainda não aprendemos a enxergar.
Porque, talvez, a grande questão não seja perguntar quem merece ocupar o centro da memória nacional.
Talvez devêssemos perguntar:
quantas pessoas, quantas culturas, quantas histórias e quantos talentos ainda permanecem fora do campo de visão do Brasil?
E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro desafio de uma televisão pública, culturalmente responsável e verdadeiramente nacional:
não apenas mostrar o Brasil que já aprendemos a reconhecer,
mas ajudar o Brasil a descobrir o Brasil que ainda não conhece.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Escritor – Compositor
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