Entre partituras, amizades e batalhas musicais, a memória de um grande compositor paranaense permanece viva no coração de quem teve o privilégio de caminhar ao seu lado.
Hoje, 19/09/ seria mais um aniversário do meu querido compadre, amigo e parceiro de tantas jornadas musicais, Homero Réboli. Mas a vida, com seus caprichos e silêncios, já não me permite abraçá-lo, ouvir sua voz ou dividir com ele uma conversa sobre música, futebol e as tantas histórias que o samba nos proporcionou.
Resta a saudade. E, com ela, a certeza de que algumas amizades não terminam quando a vida se interrompe. Elas apenas mudam de lugar. Passam a morar na memória, nas canções, nos gestos que o tempo não apaga e nas emoções que insistem em voltar sempre que um samba começa a tocar.
Homero foi um homem de muitos talentos e de uma sensibilidade rara. Arquiteto talentoso, professor dedicado e compositor extraordinário, deixou sua assinatura na história cultural do Paraná. Mais de 40 sambas de enredo nasceram de sua inspiração e continuam ecoando nas escolas de samba de Curitiba, Antonina e Paranaguá.
Mas, para mim, Homero foi muito mais do que tudo isso. Foi um irmão de caminhada. Um parceiro de sonhos. Um companheiro de batalhas musicais, daqueles que dividem não apenas a autoria de um samba, mas também as esperanças, as incertezas, as alegrias e os desafios que existem por trás de cada verso.
E foi ao lado dele que vivi alguns dos momentos mais marcantes da minha trajetória como compositor.
Quando o samba nos levou à Mangueira
Entre tantas lembranças, uma ocupa um lugar especial no coração: a nossa vitória, em 1977, na Ala de Compositores da Estação Primeira de Mangueira, com o samba “Não vou subir”.
Ainda hoje, quando volto àquela memória, consigo sentir a emoção daquele momento. Nosso samba sendo defendido pelo Partido Alto Colorado, sob a batuta do mestre Maé da Cuíca (também foi meu parceiro), diante de nomes que pertencem à própria história do samba, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Leci Brandão e Carlos Cachaça.
Era mais do que uma disputa musical. Era a oportunidade de colocar nossos sonhos diante de mestres que ajudaram a construir a identidade do samba brasileiro.
E nós vencemos.
Superamos grandes concorrentes, entre eles o talentoso Mauro Duarte, e conquistamos um lugar naquela história. Mais do que um resultado, aquela vitória representou a confirmação de que a música, quando nasce da alma, pode atravessar fronteiras, aproximar mundos e eternizar encontros.
Homero estava ali. Ao meu lado. Como sempre.
Parcerias que o tempo não apaga
Nossa caminhada musical ainda nos proporcionou encontros que pareciam grandes demais para caber em uma só vida.
Homero dividiu comigo a honra de compor com o mestre Cartola entre outros o samba “Um perdão para mim”, uma experiência que guardo com profundo respeito e carinho. Também tivemos a oportunidade de trabalhar ao lado do genial Claudionor Cruz, outro nome fundamental da música brasileira.
E, entre tantas realizações, há ainda um motivo de orgulho que carrego com especial afeto: a criação do Hino Oficial do Coritiba Football Club, uma obra que uniu nossa paixão pela música ao amor pelo futebol.
Cada parceria, cada melodia e cada verso trazem um pouco daquilo que fomos. E talvez seja essa a verdadeira grandeza de um compositor: continuar vivendo naquilo que ajudou a criar.
A música como forma de eternidade
Hoje, no dia em que Homero completaria mais um ano de vida, não quero que a saudade seja apenas tristeza. Quero que ela também seja celebração.
Celebração do amigo generoso. Do arquiteto que desenhava espaços, do professor que compartilhava conhecimento e do compositor que construía pontes com palavras, ritmos e melodias.
A morte pode silenciar uma voz, mas não consegue calar tudo aquilo que essa voz ensinou ao mundo.
Os sambas de Homero continuam por aí. Nas quadras, nas ruas, nas rodas de conversa e na lembrança de quem um dia cantou suas composições. E, enquanto houver alguém disposto a cantar, haverá um pouco dele entre nós.
Meu querido compadre, a vida nos separou fisicamente, mas não conseguiu desfazer a parceria que construímos.
As batucadas continuam ecoando. Os versos ainda encontram caminhos. E a nossa história, escrita em forma de samba, permanece viva.
Que os céus recebam hoje a música que você tanto amou. E que, de algum lugar, você possa ouvir os sambas que fizemos juntos e reconhecer, em cada nota, a amizade que nunca deixou de existir.
Homero, você continua presente na minha música, na minha memória e na minha vida.
A saudade é imensa. Mas a gratidão por ter caminhado ao seu lado é ainda maior.
Feliz aniversário, meu amigo. Onde quer que você esteja, que nunca lhe falte um bom samba.
Cláudio Ribeiro
Jornalista, escritor e compositor
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