Como elites econômicas mantiveram poder e influência da escravidão ao regime autoritário
Um levantamento baseado em documentos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) revelou que, entre os empresários citados como apoiadores da ditadura militar brasileira (1964-1985), pelo menos dois em cada três descendiam de famílias escravistas. Dos 62 nomes mencionados no capítulo Civis que Colaboraram com a Ditadura, foi possível reconstruir a árvore genealógica de 40 deles, identificando vínculos diretos com antigos senhores de escravos.
A pesquisa foi desenvolvida para o episódio Como Nossos Pais, da segunda temporada do podcast Perdas e Danos, que investiga a relação entre grandes empresas e o regime militar. O estudo evidencia como grupos familiares tradicionais conservaram poder econômico e político ao longo de séculos, desde o período colonial até os anos da repressão.
Segundo o pesquisador Ricardo Oliveira, especialista em genealogia do poder no Brasil, existe um “núcleo duro” das elites nacionais que se perpetua historicamente. Ao analisar poucas gerações anteriores, muitos empresários nascidos no século XX já estavam ligados ao antigo sistema escravista regional.
Ditadura e interesses econômicos
Empresas, repressão e ataque aos trabalhadores
Durante o regime militar, empresários nacionais e multinacionais financiaram o governo autoritário de diversas formas: apoio político ao golpe de 1964, recursos para órgãos repressivos, contratos privilegiados e participação em projetos econômicos estratégicos.
Para o professor Edson Teles, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o modelo econômico da ditadura baseava-se na lógica da extração. Não apenas da terra, do minério e das riquezas naturais, mas também da força de trabalho humana.
Essa lógica, segundo ele, dialoga com a tradição escravista brasileira, marcada pela exploração extrema da mão de obra e pela negação de direitos básicos aos trabalhadores. O objetivo central da aliança entre empresas e regime militar seria enfraquecer sindicatos e movimentos operários.
Logo após o golpe de 1964, cerca de 20 mil pessoas foram presas em apenas um mês. Grande parte delas era formada por trabalhadores sindicalizados e lideranças populares.
Salários menores e desigualdade maior
O impacto social da política econômica militar
De acordo com estudos da Unicamp, dois anos após o golpe, o salário mínimo brasileiro perdeu cerca de 50% do seu poder de compra. Isso ocorreu devido à mudança na política de reajuste salarial em meio à alta inflação.
Enquanto a população trabalhadora empobrecia, a concentração de renda aumentava. Dados do IBGE mostram que, em 1960, os 5% mais ricos detinham 28% da renda nacional. Em 1972, esse grupo já concentrava quase 40%.
Esse cenário demonstra como o crescimento econômico do chamado “milagre brasileiro” beneficiou sobretudo os setores mais ricos da sociedade.
A família Bueno Vidigal como exemplo histórico
Escravidão, indústria e apoio ao regime
Um dos casos investigados foi o da família Bueno Vidigal, ligada ao Banco Mercantil e à Cobrasma (Companhia Brasileira de Material Ferroviário). O grupo teve influência política e econômica durante a ditadura e participação em diferentes formas de apoio ao regime.
A Cobrasma tornou-se símbolo da repressão ao movimento operário na Greve de Osasco, em 1968. Durante a paralisação, trabalhadores denunciaram a presença do Exército dentro da fábrica. Cerca de 400 operários foram presos.
Meses depois, foi decretado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que endureceu ainda mais a ditadura, fechando o Congresso, suspendendo direitos políticos e ampliando a censura.
Além disso, integrantes da família estavam ligados ao financiamento da Operação Bandeirantes (OBAN), órgão que antecedeu os DOI-CODIs e foi responsável por torturas e perseguições políticas.
Raízes escravocratas e memória social
O passado preservado nos nomes e no prestígio
A investigação genealógica encontrou registros de antepassados da família Vidigal comprando pessoas escravizadas e atuando em processos ligados à manutenção do sistema escravista no século XIX.
Também no ramo materno, os Bueno possuíam fazendas cafeeiras com dezenas de pessoas escravizadas como parte de seu patrimônio.
Atualmente, o nome Gastão Vidigal está presente em ruas, avenidas, praças, aeroportos e cidades brasileiras. Para estudiosos da memória social, essa homenagem pública reforça o capital simbólico das elites tradicionais e perpetua desigualdades históricas.
Enquanto famílias poderosas mantêm seus nomes celebrados, descendentes das populações escravizadas frequentemente tiveram sua memória e ancestralidade apagadas ao longo do tempo.
Imobilidade social no Brasil
Um país onde subir de classe leva séculos
Segundo dados da OCDE, no Brasil uma pessoa nascida pobre precisaria de cerca de nove gerações — aproximadamente 300 anos — para alcançar a classe média.
Esse índice coloca o país entre os mais desiguais e socialmente imóveis do mundo, ao lado de nações como Colômbia e África do Sul.
A permanência das mesmas famílias nas altas esferas do poder econômico ajuda a explicar por que a desigualdade brasileira continua tão profunda e resistente.
Conclusão
Passado e presente estão conectados
O estudo mostra que escravidão, concentração de renda e autoritarismo não são capítulos isolados da história brasileira. Há continuidades entre o poder das famílias escravistas do passado e o apoio empresarial à ditadura militar no século XX.
Compreender essas conexões é fundamental para entender as desigualdades atuais, os privilégios históricos e os desafios da democracia no Brasil.
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