Ontem, caminhando pelas ruas de Curitiba, vi irmãos meus dormindo no chão enquanto o frio mordia a noite e a chuva caía sem piedade. Vi corpos encolhidos sob papelões encharcados, vi olhos fechados não de descanso, mas de exaustão. Voltei para casa com aquela cena pesando no peito, como quem carrega uma pergunta sem resposta. Foi dessa ferida que nasceu a poesia.
Escrevi porque às vezes a palavra é o único grito que consigo dar diante do absurdo. Escrevi porque me recuso a tratar como paisagem aquilo que é tragédia humana. Escrevi porque ninguém deveria se acostumar a passar por alguém deitado na calçada como se passasse por uma pedra, um poste ou uma sombra qualquer. Cada pessoa caída no chão é um espelho quebrado da nossa própria sociedade.
Sei que a poesia, sozinha, não vai aquecer aqueles corpos nesta noite. Sei que versos não substituem teto, emprego, comida, cuidado ou dignidade. Não tenho a ilusão de que rimas resolvem a fome ou secam a roupa molhada de quem enfrenta a madrugada ao relento. Mas também sei que o silêncio ajuda os culpados, e que a indiferença é sempre cúmplice da injustiça.
Escrever, para mim, é recusar o silêncio. É lembrar que por trás de cada cobertor úmido existe uma história, um nome, uma vida inteira empurrada para a margem. É afirmar que ninguém nasce para a miséria e que toda pobreza extrema carrega a assinatura de escolhas políticas e econômicas feitas para beneficiar poucos.
A solidariedade é urgente: repartir alimento, agasalho, escuta, presença e cuidado. Isso salva vidas agora. Mas também sei que só a solidariedade imediata não basta. Se a estrutura continua produzindo abandono, a fila da dor nunca termina. Por isso acredito que, além da compaixão cotidiana, precisamos de uma profunda revolução social, capaz de reorganizar a riqueza, romper privilégios e colocar a dignidade humana acima do lucro.
Escrevi a poesia com tristeza, mas também com esperança. Porque ainda acredito que quando um ser humano enxerga o outro como irmão, começa ali a possibilidade de um novo mundo.
A Cidade em Forma de Gente
(Cláudio Ribeiro)
A forma se parece com a de gente caída,
olhar sem paradeiro, alma mal recolhida.
Vaga como janela que esqueceram de abrir,
feito um nome cansado de doer e existir.
No chão largam os corpos, entre trapos e pó,
cada osso soletrando abandono e só.
Olhos semicerrados, silêncio a sangrar,
respiram por costume, sem querer respirar.
Quem foi que apagou seus retratos da luz?
Quem rifou o caminho, quem penhorou a cruz?
Se a pressa dos passos não para pra ver,
quantas mortes cabemos sem ninguém perceber?
Se a rua é morada, cama, colchão, caixão,
quem dorme tranquilo carrega essa omissão.
Se um homem cai só e ninguém lhe dá mão,
cai junto a cidade, desaba a nação.
Vem repartir abrigo, cuidado e calor,
que a fome faz greve na mesa do amor.
Solidariedade não é gesto qualquer:
é saber que no outro vive o mesmo viver.
Passam largo das sobras que chamamos de gente,
erguem muros nos olhos, seguem indiferente.
Mal miram os rejeitos jogados no chão,
como se a miséria não fosse de um irmão.
São vultos na pressa, são sombras na esquina,
são nomes rasgados na voz da rotina.
Fedem de distância, de perto também,
mas fede mais forte a frieza de alguém.
Comem no cimento, sem teto, sem cor,
mais limpo um curral que o trato sem amor.
Vestidos de heróis por ironia cruel,
carregam no peito o inferno e o céu.
Quem mede o valor de uma vida no chão?
Quem lucra em silêncio com tanta exclusão?
Se a dor se repete diante do olhar,
é a alma da praça que aprende a chorar.
Não nasce ninguém querendo esmolar,
há histórias quebradas por trás do olhar.
Se o mundo empurrou, nós podemos puxar,
erguer quem tombou, reconstruir lugar.
Se a rua é morada, cama, colchão, caixão,
não há liberdade sem pão e sem chão.
Se um homem cai só e ninguém dá a mão,
adoece o futuro de toda geração.
Vem repartir abrigo, cuidado e calor,
que a fome se cala na mesa do amor.
Mas caridade avulsa não muda a estação:
enxuga a ferida, não corta a opressão.
Porque enquanto a riqueza mandar e explorar,
haverá sempre um corpo largado a esperar.
Só uma sociedade de partilha e razão,
igualitária e livre da lógica do capital,
há de erguer cada rosto do barro e do mal,
fazendo da cidade uma só comunhão
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