Brasília e o cinema proletário

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Por José Geraldo Couto*

Talvez seja um desbordamento inevitável – e saudável –, mas o fato é que o cinema ficou muitas vezes em segundo plano nessas discussões permeadas por expressões como “lugar de fala”, “disputa de narrativas” e “protagonismo feminino (ou negro, ou gay)”.

Por sorte, ou por acerto do júri, os prêmios principais foram para as obras que superam a falsa dicotomia entre contundência sócio-política e empenho estético: Arábia (melhor filme), de Affonso Uchôa e João Dumans, e Era uma vez Brasília (melhor direção), de Adirley Queirós. Dois belos trabalhos, plenos de frescor e invenção sem tirar o pé do chão duro da realidade social.

Jornada de aprendizado

Voltaremos a eles quando chegarem ao circuito exibidor. Por enquanto, basta dizer que Arábia é uma espécie de road movie proletário, narrando retrospectivamente as andanças de um ex-detento (Aristides de Sousa, premiado como melhor ator) pelo interior do país, de trabalho em trabalho, de tropeço em tropeço. É uma árdua jornada de aprendizado e esclarecimento.
O olhar que constrói essa trajetória é enxuto, direto, desprovido de condescendência ou mistificação, mas não de poesia. A construção narrativa, bem como a decupagem de cada sequência, é arguta e precisa. De Townes Van Zandt a Renato Teixeira, passando por Noel Rosa, a trilha sonora (também premiada) ajuda a compor o lirismo áspero e pungente que impregna as imagens.

Era uma vez Brasília, por sua vez, dá continuidade a uma das experiências cinematográficas mais estimulantes de nosso tempo, a mistura singular de registro social, denúncia política e fantasia sem limites que caracteriza os filmes de Adirley Queirós (de Branco sai, preto fica). De Ceilândia (cidade-satélite de Brasília) ao espaço sideral, é um cinema sem fronteiras: documentário, libelo político, drama policial, ficção científica, tudo ao mesmo tempo.

O entrecho é engenhoso: um emissário intergaláctico (Wellington Abreu) é enviado à Terra com a missão de matar o presidente Juscelino Kubitschek no dia da inauguração de Brasília, em 1960. Por algum problema não explicado, ele cai em Ceilândia em 2016, o ano 1 PG (pós-golpe) e acaba se associando a um grupo clandestino de guerrilheiros urbanos.

Lugar fora do tempo

No universo personalíssimo de Adirley Queirós, a nave espacial é feita de sucata, uma máscara de solda pode virar capacete de cosmonauta e a paisagem lunar de Brasília e arredores vira isso mesmo, uma paisagem lunar. A ambientação noturna e a extraordinária fotografia de Joana Pimenta (também premiada) ajudam a criar esse vertiginoso deslocamento, esse lugar fora do tempo, ainda que ancorado em referências precisas: discursos em off de políticos atuais, vicissitudes do dia a dia de trabalhadores de periferia, ruas de bairros pobres de Ceilândia. A partir do que é descartado em nossa sociedade – seja gente, objeto, tecnologia obsoleta ou paisagem devastada –, Adirley cria um mundo pleno de potência de transformação.

No ambiente inflamável e polarizado do festival, acabaram ofuscados os filmes que não atendiam às exigências militantes dos grupos mais aguerridos. Vazante, de Daniela Thomas, drama de uma menina branca casada à força aos treze anos na Minas colonial, foi bombardeado no debate de maneira descabida e cruel, quase como se a diretora, por ser uma mulher branca de classe média alta, encarnasse a culpa por séculos de escravidão. Na hora dos prêmios, ficou só com os de direção de arte e atriz coadjuvante (Jai Baptista).

Pior ainda foi o destino de Pendular: saiu de mãos abanando. Num dos debates, uma iracunda atriz militante jogou o belo filme de Júlia Murat na vala comum das obras centradas em white people problems. Pensei comigo que nesta mesma vala devem estar os filmes de Antonioni, Fritz Lang, Orson Welles, Truffaut… Cabe esperar que esses destemperos sejam as dores do parto de uma legítima e necessária conquista de visibilidade, e não o surgimento de uma patrulha duradoura.

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS

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