Vik Muniz coordena releitura do fotógrafo Mapplethorpe no Brasil

 

Vik Muniz coordena releitura do fotógrafo Mapplethorpe no Brasil

O puritanismo norte-americano jogou a obra do fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) na fogueira. Em 1989, meses após a morte do artista, o senador republicano de extrema direita Jesse Helms fez campanha contra e conseguiu suspender sua exposição na galeria Corcoran, em Washington. A partir do incidente, a obra de Mapplethorpe ganharia destaque pela controvérsia.

Nova York, começo dos anos 70: Mapplethorpe começa a fotografar os amigos, como a cantora e poeta Patti Smith, e a si próprio. Durante quase duas décadas de produção, ele transita em diversos campos, das imagens homoeróticas e de sadomasoquistas em ação, que chocaram a América casta, a singelos registros de paisagens e retratos de celebridades.

Sem o alarde dos puritanos, Mapplethorpe volta a ser exibido. A fundação que leva o seu nome e arrecada fundos para a fotografia e para financiar pesquisas sobre Aids (doença que matou o fotógrafo) convidou artistas para realizarem curadorias de mostras pelo mundo. Catherine Opie realiza a sua em Los Angeles, Cindy Sherman fez em Nova York, e David Hockney, em Londres.

No Brasil, a obra de Mapplethorpe ganha releitura de Vik Muniz, o artista brasileiro de maior expressão internacional do momento. Ele assina a seleção com 50 trabalhos do fotógrafo apresentados na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, em março.

No mesmo mês, Muniz inaugura, na sede paulistana do Centro Cultural Banco do Brasil, a exposição da série “Diamonds Divas and Caviar Monsters” (divas de diamante e monstros de caviar). É exatamente o que diz o título: múmia e Frankenstein desenhados com as bolinhas pretas do beluga (a caríssima iguaria iraniana) e os contornos de Brigitte Bardot e Marilyn Monroe feitos com quase meio quilo de diamantes.

Um preciosismo semelhante aos dos retratos de Muniz pode ser visto nas obras de Mapplethorpe, embora o brasileiro não veja uma influência direta do norte-americano em seu trabalho.

“Ele era influenciado pela arte da época. A sexualidade e a sensualidade moviam o trabalho dele, mas isso era só uma faceta”, diz Muniz. “A obra de Mapplethorpe sempre foi vista de forma limitada, como algo sensualizado e pornográfico. A idéia é dinamizar essa leitura. Tentei mostrar o trabalho dele que é completamente desconhecido do público. Como, nos anos 70, o minimalismo aparece no rigor formal de seus trabalhos.”

Um dos exemplos é a singular composição do retrato de Philip Glass e Robert Wilson, de 1976, que estará na exibição brasileira. Sentados lado a lado, o músico e o teatrólogo conflitam a simetria do ambiente e a contraposição de suas aparências. Retratos de Louise Bourgois, Alice Neel, Andy Warhol, Sonia Braga e Iggy Pop também estarão na mostra.

O brasileiro conheceu Mapplethorpe no começo dos anos 80. “Sou amigo do irmão dele e trabalhei com um de seus assistentes. Ele era uma pessoa muito especial. Tive um contato pequeno, depois ele ficou doente e recluso.”

Muniz se lembra da última vez em que viu o fotógrafo, numa vernissage no DIA Art Foundation. “Ele estava muito magro, andando com uma bengala com uma caveira na ponta.” A imagem está imortalizada num sombrio auto-retrato que integrará a mostra.

Mercado

Antes de ser polêmico, Mapplethorpe ajudou a abrir caminho para a fotografia no mercado da arte. “Ele foi um dos primeiros a vender foto a preço de pintura, US$ 10 mil, US$ 15 mil [R$ 26 mil e R$ 39 mil], quando a tendência estava começando a acontecer”, destaca o brasileiro.

Na mostra, as obras do americano custarão de US$ 7.500 a US$ 20 mil (R$ 19,5 mil a R$ 52 mil) para fotos com tiragens que variam de cinco a 15 cópias.

“Com ele e outros dessa geração, percebi que a fotografia poderia ser levada mais a sério e comecei a me ver mais como fotógrafo”, conta Muniz, cujas obras custam hoje entre US$ 8.000 e US$ 25 mil (R$ 20,8 mil e R$ 65 mil), com edições de no mínimo três e no máximo dez cópias.

TEREZA NOVAES
da Folha de S. Paulo

 

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