Uma batalha que não termina: cinema, imigração e o espelho do agora

 

Filme de Paul Thomas Anderson não apenas reflete a crise dos EUA — ele a disseca com precisão cirúrgica, ligando imigração, supremacia branca e violência de Estado

Há filmes que pedem distância histórica; Uma Batalha Após a Outra exige o oposto. Desde a sequência inicial em um centro de detenção de imigrantes, o espectador não assiste: reconhece. As jaulas, os corpos controlados, o aparato repressivo e a linguagem burocrática da violência remetem imediatamente às imagens recentes da política migratória dos Estados Unidos.

Em tempos em que o Congresso norte-americano debate leis que criminalizam migrantes e o presidente Trump promete “limpar as ruas” com tropas federais, o filme chega como um soco no estômago da consciência coletiva. Ambientado entre os anos 2000 e 2016 — mas filmado como se fosse hoje —, o longa de Paul Thomas Anderson não se contenta em “acompanhar o momento”. Ele o antecipa, o denuncia e o desmonta. Anderson não constrói alegorias sutis. Ele começa no nervo exposto do presente, ainda que recorra a um recuo temporal de 16 anos. O passado, aqui, não é memória: é prenúncio.

A cena de abertura, em que militantes libertam presos de um centro de detenção na fronteira, não é ficção distópica. É memória recente: basta lembrar das jaulas de crianças sob o governo Trump, dos relatos de famílias separadas à força, dos “wetbacks” (imigrantes ilegais) tratados como sub-humanos. O filme não inventa nada. Apenas mostra o que muitos preferem não ver.

Imigração como campo de batalha racial

Anderson entende algo que poucos cineastas ousam nomear: a política migratória nos EUA nunca foi sobre “segurança” ou “soberania”. É, antes de tudo, uma política racial. A imigração não é pano de fundo, mas motor dramático. O filme articula tribunais, forças policiais, Congresso e Casa Branca como partes de uma engrenagem que normaliza a exceção. A repressão migratória aparece não apenas como política pública, mas como projeto ideológico atravessado por racismo e nacionalismo branco.

O coronel Lockjaw, interpretado por Sean Penn, é menos um vilão individual do que uma caricatura perturbadoramente familiar: a masculinidade militarizada que encontra abrigo institucional e flerta abertamente com a supremacia branca. Ele não surge do nada; prospera porque o sistema o permite.

Lockjaw não é um burocrata qualquer. É a encarnação da masculinidade branca armada, obcecada por “pureza racial” e disposta a usar o aparato militar contra civis.

Seu grupo paramilitar, os “Natal Adventurers”, é uma caricatura deliberada — mas precisa — de organizações como o Proud Boys ou milícias anti-imigrantes que proliferam nos estados do sul. E quando ele persegue Perfidia (Teyana Taylor), mulher negra e revolucionária, o conflito deixa de ser ideológico para se tornar visceralmente racista. A caça não é por uma “terrorista”. É por uma mulher negra que ousou resistir.

Violência revolucionária e seus limites

A revolucionária Perfídia. Foto: Divulgação Warner

Os 75 Franceses (French 75), grupo anarquista que financia ações armadas para libertar centros de detenção, canalizam uma raiva social reconhecível. Há catarse em vê-los agir, sobretudo em um contexto de impotência política generalizada.

O filme evita a armadilha do equilíbrio falso. Não há “ambos os lados”. De um lado, há grupos como os French 75, violentos, sim, mas motivados pela libertação de corpos aprisionados pelo Estado. Do outro, há um sistema que criminaliza a pobreza, mercantiliza a vida e transforma a fronteira em zona de sacrifício.

Mesmo assim, Anderson não romantiza a luta armada. As consequências são duras, os destinos trágicos, e a clandestinidade cobra seu preço. Muitos dos protagonistas morrem cedo, traídos ou abatidos. A violência, aqui, não é heroica — é trágica, necessária apenas porque o sistema não oferece alternativas. Como disse um crítico: “Eles não pedem para julgar sua violência porque sabem que o Estado já a condenou — mesmo quando mata impunemente.”

Ainda assim, Anderson parece mais interessado no espetáculo da insurgência do que na política coletiva que poderia sustentá-la. O foco recai sobre triângulos pessoais, rivalidades e pulsões individuais, deixando à margem personagens que poderiam oferecer outra ética da resistência — como Deandra ou o Sensei Sergio, figuras que operam na lógica do cuidado e da proteção comunitária.

As vozes silenciadas: Deandra e o Sensei Sergio

Entre as maiores críticas ao filme está a subutilização de personagens como Deandra (Regina Hall) e o Sensei Sergio (Benicio del Toro). Ambos representam formas de resistência não espetaculares: a proteção de crianças, a condução de migrantes em redes subterrâneas, o mantra “ondas do oceano” como antídoto ao caos.

Sergio chama seu trabalho de “Harriet Tubman latina” — uma metáfora poderosa que conecta a luta antiescravista do século XIX à solidariedade contemporânea com migrantes. Harriet foi uma abolicionista afro-americana lendária, nascida escravizada, que se tornou uma das maiores condutoras da “Underground Railroad”, uma rede secreta que ajudou centenas de escravizados a fugir para a liberdade nos EUA. Ela fugiu em 1849, voltou repetidas vezes ao Sul para resgatar outros, atuou como cozinheira, enfermeira e espiã na Guerra Civil, e depois lutou pelos direitos das mulheres.

Mas o roteiro mantém Deandra e Sergio à margem, privilegiando o triângulo dramático entre DiCaprio, Taylor e Penn. É uma escolha narrativa compreensível, mas politicamente frustrante: o filme fala sobre o coletivo, mas conta a história de indivíduos excepcionais.

Cinema como testemunho histórico

Ao contrário de Parasita ou Corra, que usam alegoria para falar de desigualdade e racismo, Uma Batalha Após a Outra recusa a metáfora. Ele nomeia: ICE, campos de detenção, supremacia branca, militarização urbana. Por isso, será inevitavelmente atacado como “propaganda de esquerda” — como já fez o escritor conservador Ben Shapiro.

Mas talvez seja justamente essa frontalidade que o torna necessário. Em um país onde até mencionar “racismo estrutural” pode ser considerado subversão, um filme que mostra crianças em jaulas e homens brancos armados perseguindo mulheres negras não é ficção. É documento.

A força histórica do filme está na sua percepção de repetição. Raça e imigração reaparecem como obsessões recorrentes da política americana, da perseguição a imigrantes à manipulação eleitoral do medo. O roteiro ecoa debates contemporâneos sobre deportações em massa, cidades-santuário, supremacia branca institucional e o uso do aparato estatal para disciplinar corpos indesejados.

Não é um filme “sobre Trump”, mas é impossível não lê-lo à luz do trumpismo. Assim como Dr. Strangelove refletia a paranoia nuclear da Guerra Fria, o filme de Anderson captura o delírio autoritário de uma democracia em erosão lenta.

O futuro é Charlene — e ela já está lutando

A nova geração representada por Willa enfrenta o eterno ciclo de racismo e segregação dos EUA. Foto: Divulgação Warner

No final, é Charlene (Chase Infiniti), filha de Perfidia, quem assume o protagonismo. Jovem, mestiça, treinada em artes marciais e política, ela representa a síntese possível: não a vingança cega, nem a passividade reformista, mas uma nova geração que sabe que liberdade se conquista com organização, coragem e memória.

Charlene funciona como contrapeso simbólico. Ela nasce da violência política, cresce sob identidades falsas e, no final, assume agência própria. Não é redenção fácil nem promessa ingênua, mas um gesto de abertura: a ideia de que o ciclo pode ser interrompido, ainda que não esteja claro como.

One Battle After Another é tecnicamente brilhante e politicamente incômodo. Sua contundência não está em oferecer respostas, mas em forçar o espectador a encarar o terreno instável do presente. Ao expor centros de detenção, militarização e racismo estrutural sem filtros, o filme se inscreve no debate público de forma rara para uma produção de grande estúdio.

Ele falha, por vezes, ao privilegiar o espetáculo sobre a organização coletiva. Ainda assim, acerta ao registrar, quase de forma profética, um país preso a batalhas recorrentes — sempre travadas em nome da segurança, quase sempre pagas pelos mesmos corpos.

A ambiguidade do fim em aberto é talvez o ponto mais honesto do filme. Não há soluções prontas, apenas a recusa em naturalizar o horror. Seu último olhar para a câmera não pede esperança. Exige responsabilidade. Porque, como o filme insiste em repetir, a batalha não é episódica. É contínua. Uma após a outra. E, infelizmente, estamos apenas no começo.

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