Memórias de um Brasil em disputa constante
Hoje é dia de Tiradentes. E não consigo tratar a data como apenas mais um feriado no calendário. Para mim, ela sempre chega carregada de um peso simbólico, quase como um chamado íntimo à memória. É quando sinto que a história respira mais perto — e cobra.
Volta à minha lembrança a frase de Barbosa Lima Sobrinho, como um farol persistente: o Brasil é, desde sempre, atravessado por um confronto entre os que o defendem e os que o entregam. Isso nunca me pareceu apenas teoria. Tem rosto, tem consequência, tem cicatriz. Basta lembrar de Tiradentes e de Silvério dos Reis — símbolos que continuam ecoando, mesmo séculos depois.
E eu não falo só como observador da história, mas como alguém que esteve dentro de um de seus momentos mais intensos. Em 1984 — e essa lembrança ainda pulsa em mim — fui apresentador da memorável campanha cívica e cultural das Diretas Já. Vi de perto a força de um povo nas ruas, exigindo o direito básico de escolher seu próprio destino. Era mais do que política: era um grito coletivo por dignidade.
Talvez por isso essa memória ainda me mova tanto hoje, a ponto de eu estar preparando o lançamento do meu livro, Diretas Já – A Força de um Povo que Mudou a História. Escrevê-lo tem sido revisitar não só os fatos, mas a emoção daquele tempo — a esperança quase palpável que unia desconhecidos em uma mesma causa.
Mas a história não parou ali. Antes disso, já tínhamos vivido o trauma de 1964, quando João Goulart foi derrubado por forças que abriram caminho para a ditadura, com apoio externo dos Estados Unidos. E depois, na transição, acompanhei o surgimento de Tancredo Neves como símbolo de reconstrução democrática, em contraste com Paulo Maluf, ainda ligado aos escombros daquele regime.
Hoje é feriado. O céu de Curitiba está limpo e luminoso e, para minha surpresa, o frio deu trégua mesmo em pleno outono. Saio para caminhar no parque e aproveito o silêncio para pensar com mais profundidade.
Nessas reflexões, a história de Tiradentes não me parece apenas um capítulo distante — ela se impõe como um aviso duro e atual. No passado, era a coroa portuguesa que drenava nossas riquezas e decidia por nós. Hoje, o risco não desapareceu; apenas mudou de forma. Ele se manifesta quando há quem aceite, normalize ou até incentive que interesses estrangeiros influenciem os rumos do país.
Para mim, isso não é um detalhe técnico ou diplomático — é uma linha que separa autonomia de submissão. Defender interferência externa em assuntos internos, sobretudo no Judiciário, é abrir mão da própria soberania. É admitir que não somos capazes de resolver nossos próprios impasses.
A verdadeira independência exige responsabilidade: enfrentar conflitos internos com nossas próprias instituições, sem tutela nem pressão de fora. Qualquer caminho diferente disso enfraquece o país.
Por isso, vejo o patriotismo como algo concreto e inegociável: a defesa firme da autodeterminação. Respeitar o sacrifício de Tiradentes não é apenas lembrá-lo, mas recusar, no presente, tudo aquilo que nos empurra de volta à dependência.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor – Escritor
Formação em Direito
Pós-graduação em História do Brasil e
Ciências Políticas
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