Levantamento aponta que 100 artistas (sertanojos) e bandas receberam R$ 6,52 bilhões em contratos públicos desde 2024; cinco grandes produtoras concentram R$ 3 bilhões
R$ 6,52 bilhões. Essa é a cifra que aparece no centro de um novo levantamento sobre contratos públicos para shows realizados entre 2024 e o primeiro semestre de 2026. Segundo o dossiê atualizado pelo observatório De Olho nos Ruralistas, os cem artistas e bandas que mais foram contratados por prefeituras e governos estaduais concentram esse volume de recursos.
O valor chama atenção porque supera o orçamento previsto para o Ministério da Cultura em 2026, considerando as diferentes áreas e manifestações artísticas.
Os dados fazem parte da atualização do dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, apresentado em uma transmissão no YouTube nesta quinta-feira (17).
Mais de R$ 1 bilhão entrou na conta em apenas três meses
A primeira versão do levantamento, publicada em julho, contabilizava aproximadamente R$ 5 bilhões em contratos envolvendo os cem artistas que lideravam a lista.
A nova rodada de pesquisa acrescentou cerca de R$ 1,5 bilhão em contratos identificados entre abril e junho de 2026.
Com a atualização, o banco de dados passou a reunir 18.097 contratos firmados até 30 de junho de 2026. Também foram incorporados registros que não estavam disponíveis ou apresentavam informações incompletas na primeira versão do levantamento.
Entre as novas fontes consultadas estão bases de tribunais de contas estaduais, incluindo informações que, segundo os pesquisadores, não estavam acessíveis anteriormente no Tribunal de Contas do Estado do Piauí.
Cinco produtoras concentram quase metade dos valores
Um dos pontos destacados pelo levantamento é a concentração dos contratos em torno de cinco produtoras: Camarote Shows, Vybbe, Top/Tapajós, Full e M&P.
De acordo com os dados divulgados, 37 dos cem artistas que aparecem no topo da lista estão ligados a essas cinco empresas.
Somados, os contratos desses artistas chegam a R$ 3,02 bilhões desde 2024.
A Camarote Shows, fundada pelo cantor e empresário Wesley Safadão, aparece como a empresa com maior volume acumulado, com aproximadamente R$ 1,21 bilhão em contratos públicos no período analisado.
Natanzinho Lima lidera ranking de contratos
Entre os artistas, Natanzinho Lima aparece na primeira posição do levantamento, com cerca de R$ 206 milhões em contratos públicos.
O valor representa um crescimento de aproximadamente R$ 47,5 milhões em relação à edição anterior do dossiê.
Na sequência aparecem Henry Freitas, associado à produtora Full, com R$ 157 milhões, e Wesley Safadão, com aproximadamente R$ 150 milhões.
Outro dado que chama atenção é o aumento no número de artistas que ultrapassaram a marca de R$ 100 milhões em contratos públicos.
Na versão anterior do levantamento, eram oito. Agora, são 17 artistas acima desse patamar.
E a Lei Rouanet?
Os números também alimentam uma discussão que costuma reaparecer nas redes sociais: a comparação entre os valores pagos pelo poder público em shows e os recursos relacionados à Lei Rouanet.
Mas os mecanismos são diferentes.
Nos contratos analisados pelo levantamento, prefeituras e governos estaduais contratam diretamente artistas ou empresas para realizar apresentações. Já a Lei Rouanet é um mecanismo de incentivo fiscal que permite a projetos culturais previamente aprovados captarem recursos de patrocinadores, dentro das regras estabelecidas pela legislação.
Assim, os R$ 6,52 bilhões citados no levantamento não representam dinheiro captado pela Lei Rouanet.
O debate, portanto, envolve duas formas distintas de financiamento da cultura: de um lado, contratações diretas feitas pelo poder público para shows; de outro, projetos culturais financiados por meio do mecanismo de incentivo fiscal.
O tamanho da conta
Com a atualização dos dados, o levantamento traça um retrato de uma parcela significativa do mercado de shows contratados por governos e prefeituras.
A cifra de R$ 6,52 bilhões, distribuída entre os cem artistas mais contratados, coloca no centro do debate não apenas o tamanho dos cachês, mas também a concentração dos contratos, o papel das produtoras e os critérios utilizados pelo poder público para contratar atrações musicais.
Os dados, segundo os responsáveis pelo dossiê, continuam sendo atualizados à medida que novas bases públicas de contratos se tornam disponíveis.
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