Perder uma eleição faz parte da democracia. Perder a democracia, não.

 

Uma eleição pode mudar governos. O que não pode mudar é o compromisso de uma sociedade com a liberdade, o Estado de Direito e a própria democracia.

 

Amanheci, depois de uma madrugada toda conversando com meus filhos e netos, inclusive uma neta que está na Áustria,  pensando em uma frase que me parece, ao mesmo tempo, simples e profundamente verdadeira: perder uma eleição em uma democracia faz parte da luta; perder a democracia em uma eleição é perverso demais.

É a partir dessa ideia que tenho olhado para esta eleição.

Não consigo enxergar a possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro apenas como mais uma disputa entre projetos eleitorais. Para mim, existe algo maior em jogo: a continuidade e a solidez do regime democrático brasileiro.

É uma avaliação política, evidentemente. Não é uma profecia. Mas democracias não se protegem apenas depois que estão ameaçadas. Elas precisam ser defendidas quando ainda existem instituições funcionando, eleições acontecendo, imprensa livre, Judiciário independente e cidadãos capazes de discordar uns dos outros sem transformar o adversário em inimigo.

É justamente por isso que me preocupa o crescimento da extrema direita.

Ela aprendeu a disputar não apenas votos, mas sentimentos. A chamada “guerra cultural” transformou medo, ressentimento, insegurança e indignação em instrumentos políticos. As redes sociais aceleraram esse processo. As fake news passaram a circular com uma velocidade impressionante. A religião, em muitos casos, foi incorporada à disputa política de maneira que confunde fé com projeto de poder.

E não podemos cometer o erro de tratar milhões de brasileiros que acreditam nessas narrativas como pessoas ignorantes ou simplesmente manipuladas. Isso seria, além de arrogante, politicamente inútil.

É preciso compreender por que determinadas mensagens encontram terreno fértil.

Há pessoas com medo. Há pessoas decepcionadas com a política. Há trabalhadores que não se sentem representados. Há famílias inseguras diante da violência. Há gente que perdeu a confiança nas instituições. Há também quem tenha sido convencido por informações falsas.

Uma democracia madura não pode responder a isso com desprezo. Precisa responder com diálogo, informação, presença e política.

É nesse ponto que minha preocupação com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ultrapassa o resultado de uma eleição.

Quando alguns dizem que ele não teria um projeto político, fico pensando: talvez estejam procurando um projeto apenas na forma tradicional — um conjunto de propostas econômicas, sociais e administrativas. Mas projetos de poder também podem se revelar pela trajetória política, pelos discursos, pelas alianças, pelas ideias defendidas e pela relação que seus protagonistas estabelecem com as instituições.

Minha preocupação é que uma eventual volta do bolsonarismo ao poder possa criar condições para uma nova tentativa de ruptura institucional.

Creio sim, que um golpe aconteceria. Afirmo que o risco de erosão democrática não pode ser tratado como fantasia ou exagero quando existe um histórico recente de ataques às instituições e de contestação do resultado eleitoral.

O Brasil já viu, há pouco tempo, uma tentativa de ruptura que culminou nos ataques de 8 de janeiro. Sem esquecer 1964. Viu discursos contra o sistema eleitoral, pressão sobre instituições e uma tentativa de criar as condições políticas para questionar a própria legitimidade da democracia.

A lição que precisamos tirar disso é justamente a oposta da acomodação.

Uma democracia não pode depender da sorte, da moderação ocasional de um governante ou da esperança de que instituições resistirão eternamente a qualquer pressão.

Ela precisa de uma cultura democrática.

Precisa de pessoas que aceitem perder.

Precisa de adversários que reconheçam a legitimidade uns dos outros.

Precisa de Forças Armadas submetidas à Constituição.

Precisa de um Judiciário independente.

Precisa de imprensa livre.

Precisa de eleições respeitadas.

Precisa, sobretudo, de cidadãos que compreendam que nenhum partido, nenhum líder, nenhuma ideologia e nenhuma vitória eleitoral está acima da democracia.

É por isso que me incomoda quando alguém diz: “É só mais uma eleição”.

Não. É uma eleição, mas eleições não acontecem no vácuo.

Elas acontecem dentro de uma democracia. E o resultado de uma eleição pode fortalecer ou enfraquecer as condições que permitem que a próxima eleição aconteça livremente.

Essa é a dimensão civilizatória da escolha.

Perder uma eleição é suportável. É doloroso para quem perde, mas faz parte da democracia. Amanhã haverá outra disputa. Depois outra. A sociedade muda, os governos mudam, as maiorias mudam.

O que não pode ser colocado em jogo é a regra que permite todas essas mudanças.

É por isso também que olho com atenção para a abstenção. Se milhões de brasileiros deixam de participar de uma eleição, isso não é apenas um número estatístico. É um sinal político que precisa ser compreendido.

Quem não vota também comunica alguma coisa: desencanto, descrença, cansaço, revolta, dificuldade, desinformação ou simplesmente a sensação de que sua escolha não fará diferença.

Não podemos responder a isso com bronca.

Precisamos conversar.

Não tenho dúvidas que é a tarefa mais importante deste momento: recuperar a capacidade de conversar com quem pensa diferente sem abandonar aquilo que consideramos essencial.

Conversar não significa abrir mão de princípios.

Significa defender princípios sem desumanizar quem discorda.

Eu não quero um país em que todos pensem igual. Quero um país em que possamos pensar diferente e continuar vivendo sob as mesmas regras democráticas.

Quero poder perder uma eleição e continuar tendo o direito de disputar a próxima.

Quero que meu adversário possa vencer hoje e ser derrotado amanhã.

Quero que nenhum presidente possa decidir sozinho o destino das instituições.

Quero que ninguém precise escolher entre sua convicção política e a própria liberdade.

No fundo, é disso que estamos falando.

Não se trata apenas de Bolsonaro, de Flávio Bolsonaro, da esquerda ou da direita. Trata-se de saber que tipo de país queremos deixar para nossos filhos e netos.

Um país em que a alternância de poder seja normal?

Ou um país em que cada eleição seja tratada como uma guerra pela sobrevivência?

Eu escolho a democracia.

E escolher a democracia não significa ter medo de eleições. Significa respeitá-las.

Não significa querer impedir que a extrema direita dispute o poder. Significa exigir que ela dispute dentro das regras democráticas — como qualquer outra força política.

Não significa transformar adversários em inimigos.

Significa estabelecer um limite que deveria ser inegociável para todos: ninguém está acima da Constituição.

Por isso, neste momento, não acredito em resignação.

Acredito em participação.

Acredito em conversa.

Acredito em informação.

Acredito em convencer sem humilhar.

Acredito que cada cidadão democrático pode fazer a sua parte — não para impor uma verdade ao outro, mas para defender uma ideia fundamental: a democracia precisa sobreviver às nossas divergências.

Porque, no final, podemos perder governos.

Podemos perder eleições.

Podemos perder disputas.

Mas não podemos aceitar perder aquilo que torna possível continuar disputando amanhã.

A democracia não é o prêmio de quem vence uma eleição. É a regra que permite que todos continuem existindo politicamente depois dela.

E é justamente por isso que, para mim, defender a democracia agora não é exagero.

É responsabilidade.

É consciência.

É civilização.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

Apresentador Oficial da Campanha das Diretas Já! (1984)

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