Os Diários de Carolina Maria de Jesus

 

A escrita de si é para o sujeito moderno um exercício de mostrar-se, presentificar-se e de arquivar-se para não esquecer e não ser esquecido. Foi o recurso usado por Carolina Maria de Jesus

O ato de escrever é também um ato de se mostrar para o outro. É um exercício constante de pensar sobre si mesmo. É uma forma de atenuar a solidão, por isso torna-se uma companheira para aqueles que cosem para dentro, como Clarice Lispector. O escritor, através da escrita, relembra fatos, ressignifica outros e, consequentemente, constrói a imagem de si. A escrita torna-se, nesse sentido, uma confissão.

A escrita de si é para o sujeito moderno um exercício de mostrar-se, presentificar-se e de arquivar-se para não esquecer e não ser esquecido. Foi o recurso usado por Carolina Maria de Jesus, nascida em 14 de março de 1914, em Minas Gerais – uma mulher negra, pobre, favelada e mãe solteira –   para relatar os sofrimentos, denunciar a violência, a fome e a miséria que experienciou ao lado dos filhos e de outras pessoas que, como ela, são invisíveis para uma sociedade capitalista marcada por desigualdades e contradições.

“Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”, publicado em 1960, cheira a tragicidade, pois nele é exposto frustração (“Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos”); egoísmo (“A única coisa que não existe na favela é solidariedade”); dor de existir (“Tenho a impressão que estou no inferno”); questionamentos (“Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver?”); fome (“A tontura da fome é pior do que a do alcool”); etc.

No ano seguinte, 1961, vem a público “Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada” uma espécie de continuação do livro anterior, mas a partir de uma outra perspectiva: “a sala de visitas”. Com o sucesso de “Quarto de Despejo”, que vendeu cem mil cópias em um ano, Carolina Maria de Jesus comprou uma “casa de alvenaria” e realizou seu grande sonho: sair da favela que, para ela, era um lugar sem atração, em que não se podia plantar uma flor para aspirar o seu perfume, porque a única coisa que se sentia era o cheiro da “lama podre, os excrementos e a pinga”. Contudo, Carolina descobre que na “sala de visitas” tinha muito racismo e discriminação pelo fato de ela ser negra, mãe solteira, falar e escrever “errado” aos olhos dos brancos.

“Diário de Bitita”, obra póstuma, publicada pela primeira vez na França em 1982, embora seja intitulada de “diário”, não se trata de um. É, na verdade, um conjunto de contos autobiográficos que têm como base as memórias de Carolina. A narrativa compreende a infância, o período escolar, o esforço para conseguir trabalho e não morrer de fome, o gosto pela leitura e pela escrita, a descoberta do racismo, “Negrinha! Negrinha fedida!”, das injustiças sociais, a consciência das dores sofridas por sua gente e um tom de reflexão e denúncia da realidade circundante – “O filho do pobre, quando nascia, já estava destinado a trabalhar na enxada. Os filhos do rico eram criados nos colégios internos”.

O tom trágico é a tônica dos “Diários” de Carolina de Jesus, sujeito e objeto de sua própria narrativa. Neles nos deparamos com iniquidades, injustiças e preconceitos, mas também com a força de uma mulher cônscia de suas responsabilidades, ética em suas atitudes, que lutou bravamente por um lugar ao sol.

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