Obsessão amorosa – É assim que Cacá Diegues encara a arte de fazer cinema desde 1962

São cinco décadas de carreira, mas Cacá Diegues, o próprio aniversariante, só se deu conta da data comemorativa depois que se reuniu com Silvia Oroz e Breno Lira Gomes para discutir detalhes da mostra cinematográfica Cacá Diegues – Cineasta do Brasil, planejada desde 2011 e em cartaz na Caixa Cultural de 3 a 15 de abril. O marco do início da trajetória do diretor é Escola de samba alegria de viver, um dos episódios do longa-metragem 5x Favela, de 1962, cuja abordagem social marca sua cinematografia. Cinquenta anos depois, o público pode conferir este e outros sucessos de Diegues, além de participar de debates e workshop.

O nome da mostra já diz tudo. Carlos Diegues, o Cacá, sempre se preocupou com a representação do país nas telas. “O objetivo da mostra é contar a história do Brasil pelos filmes de Cacá Diegues. Quando começou a fazer cinema, ele pensava em levar aos espectadores um país que não se via até então”, explica Breno Lira Gomes, que divide a curadoria com Silvia Oroz. De fato, o engajamento sempre esteve presente no cinema e na vida: o diretor participou do Centro de Cultura Popular (CPC), organizado por alunos da UNE no começo da década de 60, e criou o Cinema Novo ao lado de Glauber Rocha e outros entusiastas da época. Não satisfeito, mantém viva esta memória artística através da coordenação do curso de audiovisual para alunos da Cufa (Central Única de Favelas).

“No fim da década de 70, por exemplo, foram três importantes longas produzidos que, além de projetar o diretor, colocaram o negro como protagonista nas telas e introduziram o subúrbio como cenário principal da obra”, observa o curador. Os filmes aos quais Breno se refere são Xica da Silva (1976), Chuvas de verão (1978) e Bye bye Brasil (1979) – todos em cartaz na mostra. “Sob qualquer critério que se examine a história da cultura brasileira, a contribuição do negro será sempre flagrante. Basta ir até a esquina e observar por alguns segundos a seu redor e verá a importância que o negro tem na construção desse país”, explica Diegues.

Responsável pela direção de Tieta do agreste (1995), adaptação do livro homônimo de Jorge Amado, publicado em 1977, Cacá Diegues filma este ano obra inspirada em outro grande escritor brasileiro, Jorge de Lima. “O Grande Circo Místico é um velho sonho que vou finalmente tornar realidade. Ele nasce, em primeiro lugar, de minha paixão pela poesia de Jorge de Lima e, depois, por minha reverência à música popular brasileira, representada nesse filme por Chico Buarque e Edu Lobo. Como todos os meus filmes, Circo Místico é um filme do presente, sem nostalgia do passado ou mensagens para o futuro”, esclarece o cineasta.

Cópias únicas

Organizar a programação da mostra não foi tarefa nada simples. O curador Breno Lira Gomes fala da dificuldade que teve em resgatar obras mais antigas da carreira do homenageado. “Infelizmente, não temos como exibir todas as películas, pois algumas se perderam e outras são cópias únicas. Naquela época, não havia muito a preocupação de preservar, de deixar para a posteridade. Eles estavam empolgados com aquela fase de produção. Algumas cópias restauradas, como as de Ganga Zumba (1964), tiveram que vir da França”, conta.

Antes de 1962, Cacá Diegues já tinha produzido três curtas-metragens: Fuga (1959), Brasília (1960) e Domingo (1961). No entanto, foi no episódio de 5x Favela, de 1962, que Cacá Diegues teve seu primeiro trabalho exibido comercialmente. A partir daí, se deu conta do caminho que queria percorrer. “Não faço cinema como uma profissão, mas como uma obsessão amorosa. Não sou o melhor crítico de meus próprios filmes, mas tenho muito orgulho de tudo que fiz”, relata Cacá. E não é por menos: já nesta época nascia o embrião do Cinema Novo – que deixou um legado inegável ao Brasil somente com uma câmera na mão e uma ideia (sensacional) na cabeça.

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