Entre histórias, afetos e silêncios, o legado de Claudionor Cruz que permanece vivo em um violão e na memória de um filho de alma
Meu querido Claudionor Cruz não foi apenas um amigo — foi presença de afeto constante, quase um pai que a vida me deu de presente. Havia entre nós uma intimidade tranquila, dessas que não precisam de esforço, apenas acontecem. Quando ele ficava em minha casa, o tempo parecia desacelerar. Entre conversas longas e silêncios confortáveis, ele abria seu coração e me confiava histórias de suas composições, como quem passa adiante não só lembranças, mas pedaços de si.
Eu ouvia tudo com atenção de filho, com aquele respeito misturado à admiração profunda. E ele, generoso, parecia feliz em ensinar — não de forma formal, mas no jeito simples de contar, de recordar, de reviver.
Nunca esqueço quando falou de “Nova Ilusão”. Seus olhos tinham um brilho manso, quase nostálgico, como se a música ainda estivesse sendo composta ali, naquele instante. Mais tarde, quando ouvi a definição de Zélia Duncan — “Lindo exemplo de choro lento, uma bela harmonia e uma poesia que adoro dizer” — senti que ela captava algo essencial, mas ainda assim faltava aquele calor humano que só ele, com sua voz e sua presença, conseguia transmitir.
A história da canção, nascida à distância com Pedro Caetano, sempre me pareceu ainda mais bonita por isso — dois criadores separados fisicamente, mas unidos por uma mesma sensibilidade. E talvez tenha sido isso que Claudionor me ensinou sem dizer: a música verdadeira não depende de proximidade, ela encontra caminhos.
Mas o que guardo com mais carinho não é apenas a história da obra — é a herança viva que ele me deixou. Seu violão tenor, aquele mesmo onde tantas ideias ganharam forma, repousa hoje comigo como um elo silencioso entre nós. Gosto de imaginar que foi ali, entre cordas e inspirações, que “Nova Ilusão” começou a respirar. Quando o toco, não é apenas som que surge — é memória, é presença, é como se ele ainda estivesse por perto, me guiando com aquele olhar sereno.
Claudionor segue vivo em cada acorde, em cada verso, e principalmente nesse vínculo que nunca se rompeu. Porque há afetos que a vida não leva — apenas transforma em saudade bonita e companhia eterna.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor
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