O que a crítica fez com Lima Barreto – e o que ele fez com o Brasil

 

Pesquisa reconstrói a recepção dos romances barretianos e mostra como a crítica colaborou para seu apagamento, ajudando a marginalizar o escritor

Há um racismo estrutural que prevalece, desde sempre, nas instituições literárias brasileiras, historicamente vinculadas aos valores estéticos, sociais e raciais das classes dominantes. Em maio, ao escrever no Prosa, Poesia e Arte sobre os 145 anos do “triste visionário” Lima Barreto (1881-1922), usei seu exemplo para demonstrar essa tese.

O escritor, “em vida, foi essa persona que a elite cultural e política preferiu rechaçar”: um autor negro, suburbano, alcoólatra, crítico feroz da República oligárquica, três vezes recusado pela Academia Brasileira de Letras (ABL) e ignorado pela Semana de 22.

Um artigo acadêmico publicado em 31 de julho na Fólio – Revista de Letras, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, dá um lastro mais sistemático a esse fenômeno. Elder Bruno Fernandes Pereira e Marcello Moreira fizeram um ótimo rastreamento da “recepção crítica do romance de Lima Barreto na primeira metade do século 20”.

O artigo acadêmico confirma que o rechaço não foi um gesto único e espetaculoso – mas um trabalho diário e molecular, exercido nos rodapés dos jornais e nas páginas das revistas literárias. A ABL foi o símbolo mais visível; a crítica miúda foi o motor cotidiano da exclusão.

Silenciamento

Poucos estudiosos contestam hoje que a rejeição a Lima Barreto foi, antes de tudo, uma rejeição política, social e racial à persona pública e ao projeto literário que ele encarnava. Mas, para quem procurava um mapa mais detalhado de como a marginalização ocorreu no dia a dia da crítica literária, esse mapa acaba de chegar. Os pesquisadores vasculharam dezenas de periódicos, prefácios, rodapés de jornal e compêndios de história literária para reconstituir o coro de vozes que, entre 1909 e 1952, comentaram os romances barretianos.

A conclusão dos autores: “A narrativa de Lima Barreto, ao deslocar o foco da literatura não objetificada para personagens negros e mestiços e para a exposição das contradições sociais e raciais do período, produziu uma quebra de expectativas em relação ao cânone vigente, o que contribuiu para uma recepção marcada por resistência, desqualificação e leituras redutoras”.

Ao inserir no centro da cena o suburbano, o negro, o rábula, o funcionário público de baixa categoria e os desclassificados da República Velha, Lima Barreto recusou o bacharelismo estéril e o intimismo à sombra do poder. A reação de boa parte do establishment literário foi a de acionar mecanismos de preservação da ordem estabelecida.

Houve um painel de “silenciamentos e distorções” que representaram uma política informal de exclusão. A obra de Lima Barreto foi recebida sob o signo de um elogio paradoxal – aquele que reconhece o talento para, em seguida, desqualificar o autor por seus “defeitos” de forma, tom ou origem social. Quando não ignorava os lançamentos do autor, apressava-se em enquadrá-los.

O artigo se estrutura em duas partes principais. Na primeira, os autores apresentam um panorama da crítica que reagiu aos romances à medida que eram publicados. Na segunda, examinam a inflexão representada pela biografia de Francisco de Assis Barbosa (1952), que começou a reverter o quadro. Em ambos os momentos, o que se vê é uma crítica literária atuando como guardiã de um cânone excludente – e Lima Barreto como o corpo estranho que esse organismo tentou expelir.

O “defeito” de ser quem era

A crítica do início do século 20 não ignorou Lima Barreto. Ela o leu, comentou e resenhou – mas de modo muito específico. Muitos críticos confundiam deliberadamente a vida do autor com a ficção, classificando sua obra como simples espelho da realidade, em vez de literatura propriamente dita. Os adjetivos se repetem: “desigual”, “descuidado”, “excessivamente pessoal”, “confessional” ou “desleixada”. Essas categorias acabaram moldando sua recepção por décadas.

Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909) foi acusado de ser um romance autobiográfico ou um ajuste de contas disfarçado contra jornalistas e intelectuais do Rio de Janeiro, ignorando-se seu projeto literário. Um crítico o chamou de “charge de traços injustos e exagerados”. O próprio Lima Barreto reclamava que “ninguém quis ver no livro nada mais que um simples romance à clef”. Já Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), hoje celebrado como obra-prima, recebeu críticas mornas que lhe atribuíam “irregularidades de composição”.

O padrão, demonstram Pereira e Moreira, era julgar os romances de Lima Barreto com réguas importadas, como o parnasianismo, o naturalismo europeu e o regionalismo pitoresco, que não comportavam sua matéria literária. Mas a recusa ia além da estética e atingia o sujeito: “A crítica operou um deslocamento constante do texto para o homem”, escrevem os pesquisadores. Parte da imprensa reduzia Lima Barreto ao estereótipo do boêmio, do alcoólatra ou do “mulato malcriado”. Julgava-se até a condição de funcionário público, a “amargura” e a “neurose”. O homem era inadequado; logo, a literatura também seria.

Lima Barreto foi frequentemente comparado a Machado de Assis pela crítica contemporânea, quase sempre em desvantagem. Ideologicamente, Machado era o modelo de “docilidade, correção e ativismo” segundo o Conde Afonso Celso, e Lima Barreto era medido e desvalorizado contra esse padrão. Enquanto Machado era celebrado pelo “estilo fluído” e pela contenção, Lima Barreto era pejorativamente tachado de “mulato bêbado” ou autor tomado pelo rancor. A comparação servia menos para avaliar dois escritores do que para reafirmar qual perfil de autor negro era aceitável para a República das Letras.

Essa postura psicologizante e reducionista serviu para desidratar o alcance estético e político da produção barretiana. Em vez de encarar a denúncia social do racismo como escolha consciente e madura de um projeto artístico combativo, a crítica a simplificava como “eco das humilhações pessoais” vividas pelo escritor. Desse modo, neutralizava-se a potência crítica de sua obra e se convertia uma contundente anatomia do Brasil em mero “ressentimento individual”.

Mário de Andrade e o “espírito de desistência”

O perfil publicado no Prosa, Poesia e Arte menciona que Mário de Andrade, em texto dos anos 1940, caracterizou a literatura de Lima Barreto como expressão do “péssimo sintoma psicológico nacional do espírito de desistência”. Pereira e Moreira contextualizam esse juízo dentro do projeto modernista mais amplo, que via na escrita barretiana uma ausência de “solução formal” para os impasses brasileiros.

Essa visão se alinhava a um consenso formado nas décadas anteriores. Mesmo quando modernistas como Sérgio Buarque de Holanda e Alcântara Machado reconheciam a força da obra, havia ressalvas que a mantinham no limbo. Preferiam elogiar o “documento” à “literatura” – um modo de conceder importância sociológica a Lima Barreto, mas negar-lhe estatuto estético pleno.

Elder e Marcello recorrem ao conceito de memória social para mostrar que a crítica literária impunha um filtro ideológico, definindo previamente quais obras poderiam ser consideradas “grande literatura” e quais seriam enquadradas como literatura menor. A exclusão de Lima Barreto foi resultado desse sistema de valores compartilhado pelas elites intelectuais da época. A própria arquitetura de seus romances era recusada porque rompia com o horizonte de expectativas da crítica daquele momento. Em outras palavras, a crítica rejeitou simultaneamente o homem, o escritor e o projeto estético que ele representava.

Sem cair na armadilha de transformar Lima Barreto em mártir absoluto, os autores reconhecem que houve elogios importantes ainda em vida e nas décadas seguintes. Mas o artigo mostra que esses elogios conviviam com leituras reducionistas e enquadramentos depreciativos. A recepção foi contraditória, embora predominasse a marginalização.

O divisor de águas: 1952

A segunda metade do artigo concentra-se no papel de Francisco de Assis Barbosa. Sua biografia A Vida de Lima Barreto, publicada em 1952, é tratada como um ponto de inflexão. Barbosa fez o que nenhum crítico fizera antes: levou Lima Barreto a sério sem usar o homem contra a obra. Recolheu manuscritos, depoimentos e originais dispersos. Devolveu ao autor a complexidade que a crítica lhe negara.

Desde então, uma nova geração de leitores começou a revisitar os romances com olhos menos preconceituosos. Foi o caso de Antonio Candido, Lúcia Miguel Pereira e Astrojildo Pereira e outros nomes. Mesmo nesse resgate, persistiu um certo “desconforto”. Candido, por exemplo, reconhece a força de Policarpo Quaresma, mas ainda hesita diante de Isaías Caminha. O estigma da “literatura panfletária” demoraria décadas para se dissolver completamente.

O perfil no Prosa, Poesia e Arte conta como, em 2016, Felipe Botelho Corrêa descobriu 164 textos inéditos sob pseudônimos; e como, em 2017, a Flip homenageou o autor e Lilia Schwarcz lançou Triste Visionário. O artigo acadêmico fornece a pré-história dessa redescoberta: sem o trabalho de Assis Barbosa e da crítica revisionista dos anos 1950-1970, o resgate do século 21 simplesmente não teria material sobre o qual se debruçar.

Para que serve estudar a recepção crítica

O artigo – que recorre a referenciais da estética da recepção de Hans Robert Jauss, das representações de Roger Chartier e da memória coletiva de Maurice Halbwachs – não é de leitura fácil. O aparato teórico é exposto de forma extensa na introdução, e a escrita acadêmica às vezes atrapalha a força dos achados empíricos. Os pesquisadores poderiam ter deixado os documentos falarem mais diretamente, como fazem nas melhores passagens do texto.

Mas a base documental é sólida e o argumento central é rigoroso: a recepção crítica de Lima Barreto foi a expressão dos valores hegemônicos de uma época, filtrada pela memória coletiva de uma crítica literária estruturalmente racista. O artigo de Pereira e Moreira interessa a qualquer pessoa que queira entender como se constroem – e se mantêm – os mecanismos de exclusão no campo cultural. Ao mostrar que a crítica barretiana foi, durante meio século, “uma crítica ao homem que ousou escrever”, os autores desnudam esse racismo estrutural.

O perfil no Prosa, Poesia e Arte afirmava que “o reconhecimento póstumo de Lima Barreto é um sintoma histórico”. O artigo acadêmico demonstra, com a paciência dos arquivos, por que esse sintoma levou tanto tempo para se manifestar e por que ele ainda é incompleto. Como lembram os pesquisadores, Lima Barreto segue sendo “muito citado, pouco lido”. Mas permanece vivo e atual porque recusou se curvar ao esteticismo higienizado do seu tempo, pagando o preço da marginalização em vida para se tornar um dos intérpretes indispensáveis do Brasil.

por André Cintra

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