Não é aula de política. Ou é? Sei lá… você decide.
Tem uma coisa que talvez você não saiba. E, se já sabia, finja surpresa porque isso ajuda a crônica a funcionar:
O presidente não manda no Brasil.
Sim, eu sei. Parece heresia. Principalmente durante a campanha eleitoral, quando candidato a presidente promete até fazer chover no Nordeste, baixar o preço da gasolina, acabar com a corrupção, melhorar a saúde, consertar a educação e, se der tempo, resolver o seu problema com o vizinho.
Mas não é bem assim.
O presidente é chefe do Poder Executivo.
Executivo.
A palavra está ali, praticamente gritando a explicação.
Ele executa.
Não faz lei sozinho, não inventa regra constitucional depois do almoço e não pode simplesmente acordar de mau humor e decretar:
— A partir de amanhã está proibido dar opinião no grupo da família.
Para isso existe o Poder Legislativo.
O famoso Parlamento.
Aquele lugar onde homens e mulheres eleitos por nós passam boa parte do tempo discutindo, negociando, votando, fazendo acordos, apresentando projetos e, eventualmente, dizendo umas coisas que fazem a gente pensar se o microfone deveria mesmo estar ligado.
É ali que se faz boa parte das leis do país.
E aqui está o detalhe que parece escapar da memória nacional: nós também votamos para escolher essa gente.
Só que existe um curioso fenômeno eleitoral.
Na hora de escolher presidente, todo mundo vira analista político.
Pesquisa, compara, discute, acompanha debate, assiste entrevista, lê promessa, briga no almoço de domingo e quase perde amizades.
Aí chega a hora de votar para deputado e senador.
E o cidadão olha para a urna como quem olha para o cardápio de um restaurante desconhecido:
— Sei lá… coloca esse aqui.
Às vezes o critério é o número bonito.
Às vezes é porque o candidato apareceu num vídeo.
Às vezes porque um amigo mandou no WhatsApp.
E, em casos mais sofisticados, porque o santinho estava no chão e a pessoa pensou:
“Deus deve estar querendo alguma coisa.”
Depois passam alguns meses.
A escola continua ruim.
O hospital continua cheio.
A economia não virou Suíça.
O imposto continua chegando com pontualidade suíça.
E vem a indignação:
— Mas o presidente não vai resolver isso?
Bom…
Talvez.
Mas o presidente não é o CEO vitalício do Brasil, com cartão corporativo, senha do Congresso e acesso ao botão vermelho escrito “resolver tudo”.
Ele precisa governar dentro das regras do jogo.
E essas regras passam, muitas vezes, pelo Congresso.
Deputados e senadores não estão ali para fazer figuração institucional. Eles votam leis, discutem orçamento, fiscalizam o Executivo e tomam decisões que afetam diretamente a vida de todos nós.
Ou seja: o Legislativo também governa o país — só que muita gente só lembra dele quando aparece uma votação polêmica na televisão.
E depois reclama.
Reclama do presidente.
Reclama do Congresso.
Reclama dos deputados.
Reclama dos senadores.
Reclama da política.
E, no próximo domingo de eleição, vota novamente em alguém de quem não sabe absolutamente nada.
É uma espécie de tradição nacional:
primeiro a gente escolhe; depois a gente pesquisa.
É como comprar um carro pelo cheiro do banco e só depois descobrir que não tem motor.
Por isso, talvez seja bom lembrar uma coisa antes de colocar o dedo na urna:
o voto para deputado e senador não é voto de segunda categoria.
Não é “o outro voto”.
Não é para preencher espaço.
Não é para votar naquele que parece menos ruim no santinho que sobrou.
É para escolher quem vai ajudar a decidir as leis, o orçamento, a fiscalização e os rumos do país.
Então, na próxima eleição, faça uma experiência revolucionária.
Antes de votar, descubra quem é o candidato.
Veja o que ele já fez.
Leia suas propostas.
Conheça seus compromissos.
Veja como votou, quando houver histórico disponível.
E, principalmente, descubra o que ele realmente pode fazer no cargo que está pedindo para ocupar.
Porque talvez o problema não seja apenas o presidente.
Talvez seja a nossa mania de colocar toda a responsabilidade em Brasília e depois agir como se Brasília fosse um lugar onde moram políticos que ninguém conhece, ninguém elegeu e que nasceram lá por geração espontânea.
Não.
Nós escolhemos.
E, quando escolhemos mal, não adianta culpar somente quem recebeu a caneta maior.
A democracia tem dessas ironias.
Ela dá ao povo o direito de escolher os governantes e, depois, entrega ao povo a responsabilidade de conviver com as escolhas que fez.
Não é aula de política.
Ou talvez seja.
Mas se for, não precisa decorar.
Só precisa lembrar na próxima eleição.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Escritor – Compositor
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