O país que desaprendeu a jogar bonito

 

Entre a imitação do futebol europeu e a política de um Brasil que já não sabe se quer ser protagonista

 

Eu me pergunto, às vezes, se o Brasil perdeu o futebol ou se perdeu, antes, a confiança de que podia inventá-lo.

A pergunta parece exagerada, eu sei. Afinal, continuamos produzindo jogadores extraordinários. Ainda temos meninos capazes de dominar uma bola como quem conversa com ela. Ainda exportamos talento para os maiores clubes do mundo. O Brasil continua sendo o país que mais vezes levantou a Copa. Mas há uma diferença entre produzir grandes jogadores e produzir um grande futebol.

E talvez seja justamente aí que esteja a nossa melancolia.

Na Copa de 2026, o Brasil caiu diante da Noruega, nas oitavas de final. Espanha e Argentina chegaram à decisão, e os espanhóis terminaram campeões. O resultado não é apenas uma fotografia do torneio. É, de certa maneira, o retrato de uma mudança de eixo no futebol mundial. O Brasil, que durante décadas entrava em campo como quem carregava uma espécie de destino, hoje entra como quem precisa provar que ainda pertence à sala dos grandes.

Eu não acho que tenhamos perdido a capacidade de sermos os melhores.

Acho que perdemos a coragem de sermos brasileiros.

Explico.

Durante muito tempo, o futebol brasileiro foi uma forma de desobediência. Nós não jogávamos exatamente como os outros. Inventávamos soluções onde os outros viam problemas. O drible era uma resposta. A improvisação, uma inteligência. A malícia, uma ciência. O improviso não era falta de organização: era a organização do inesperado.

Depois, talvez por medo de perder, começamos a jogar para não perder.

E esse é o primeiro pecado de uma seleção que nasceu para jogar para ganhar.

Passamos a admirar demais o futebol europeu. Importamos seus métodos, suas planilhas, seus conceitos, suas palavras. Fala-se de intensidade, transição, bloco, pressão, ocupação de espaço. Tudo isso é importante, evidentemente. O futebol moderno não perdoa a ingenuidade. Mas há uma coisa que nenhum laboratório consegue fabricar: personalidade.

O problema não é aprender com a Europa.

O problema é aprender a Europa e desaprender o Brasil.

A Espanha, por exemplo, não venceu a Copa de 2026 porque imitou alguém. Venceu porque encontrou uma maneira própria de organizar a técnica. Seu futebol tem método, mas não é desprovido de imaginação. É um futebol que pensa junto, que controla o jogo sem necessariamente controlar a bola como fetiche. A Espanha se tornou campeã porque conseguiu transformar organização em identidade.

A Argentina é outra coisa.

O argentino joga como quem sabe que o mundo lhe deve alguma coisa — mesmo quando o mundo não lhe deve absolutamente nada. Há ali uma espécie de orgulho ferido que se transforma em combustível. A Argentina pode até jogar mal, mas raramente joga sem alma. É um futebol de nervo, de conflito, de pertencimento. O jogador argentino parece saber que a camisa pesa porque alguém, antes dele, sofreu por ela.

O Brasil é diferente.

Ou deveria ser.

Nosso futebol sempre foi menos sobre a obediência a um plano e mais sobre a liberdade dentro dele. O brasileiro não precisava negar a disciplina; precisava apenas não permitir que a disciplina matasse a invenção.

Talvez o nosso erro tenha sido confundir modernização com imitação.

O futebol europeu é extraordinário. Mas ele é filho de sociedades que, em muitos casos, construíram ao longo de décadas instituições mais estáveis, métodos mais contínuos, projetos menos dependentes de improvisações políticas. O Brasil, ao tentar importar apenas a forma, muitas vezes esqueceu de construir o conteúdo.

E aqui o futebol encontra a política.

Porque um país joga futebol como administra sua esperança.

Quando uma sociedade acredita em si mesma, ela arrisca. Quando não acredita, ela se protege.

O Brasil contemporâneo parece ter se especializado em se proteger.

Protege-se o dirigente. Protege-se o treinador. Protege-se o jogador. Protege-se o político. Protege-se o partido. Protege-se o sistema. E, no fim, ninguém se responsabiliza por nada.

No futebol, isso aparece como um time que toca para o lado quando deveria atacar.

Na política, aparece como um país que discute eternamente quem é o culpado enquanto os problemas envelhecem.

Não é coincidência.

A crise do futebol brasileiro tem alguma coisa da crise brasileira: talento demais, projeto de menos; improvisação demais, continuidade de menos; paixão demais, organização de menos; e, sobretudo, uma dificuldade enorme de reconhecer que o mundo mudou.

Nós fomos os melhores por muito tempo. Talvez tenhamos nos acostumado demais com a ideia de que seríamos para sempre.

Mas o mundo não respeita tradição.

O mundo respeita competência.

A Espanha chegou ao topo. A Argentina continuou entre os grandes. E outras seleções aprenderam a competir conosco sem reverência. A Noruega, ao eliminar o Brasil, não entrou em campo intimidada pela história brasileira. Entrou como quem acredita que pode vencer. E isso talvez seja uma das maiores mudanças de todas: já não somos temidos como antes.

A derrota, nesse sentido, não é apenas um acidente de noventa minutos.

É um aviso.

O Brasil precisa decidir se quer ser uma potência futebolística ou apenas uma grande fábrica de jogadores.

São coisas diferentes.

Uma fábrica vende talento.

Uma escola produz futebol.

E talvez estejamos vendendo demais e formando de menos.

Nossos melhores meninos partem cedo. Nossos clubes vivem de urgências. Nossas categorias de base, muitas vezes, parecem interessadas em produzir atletas antes de formar homens. O jogador aprende cedo a obedecer, correr, marcar, competir. Mas será que ainda aprende a pensar?

Será que ainda aprende a driblar porque quer?

Será que ainda aprende a jogar futebol por alegria?

Eu tenho saudade do jogador brasileiro que não consultava o manual antes de fazer o impossível.

Mas não quero um retorno romântico ao passado. Não quero ressuscitar o futebol de 1970, porque o futebol de hoje não é o futebol de 1970. O mundo mudou. O jogo mudou. O atleta mudou.

O que não pode mudar é a nossa capacidade de inventar.

O Brasil precisa aprender a ser moderno sem deixar de ser brasileiro.

Precisamos de ciência sem abandonar a intuição. De preparação física sem abandonar a leveza. De organização sem matar a improvisação. De estratégia sem transformar o jogador em funcionário de uma planilha.

E talvez seja isso que a política brasileira também precise aprender.

Não basta importar modelos.

Não basta copiar países.

Não basta repetir palavras bonitas.

Uma democracia não se constrói apenas com instituições desenhadas no papel. Precisa de cultura democrática. Uma economia não se transforma apenas com reformas. Precisa de produtividade, educação e confiança. Um futebol não volta a ser grande apenas contratando um treinador famoso. Precisa reconstruir uma ideia de jogo.

O Brasil tem essa mania de procurar salvadores. Veja o caso da família Bolsonaro e o perigo que representam.

Na política, esperamos o homem providencial.

No futebol, o técnico providencial.

Na vida, o herói providencial.

Talvez seja por isso que nos decepcionemos tanto.

Um país não pode depender de um salvador. Nem uma seleção.

O futebol brasileiro precisa parar de perguntar quem será o próximo grande técnico e começar a perguntar que futebol queremos jogar.

Essa pergunta é maior do que uma Copa.

Porque, no fundo, o que está em jogo não é apenas o futuro da Seleção.

É a nossa capacidade de acreditar novamente em uma ideia de Brasil.

Eu não sei se voltaremos a ser os melhores.

Mas sei que não voltaremos a ser os melhores tentando jogar como os outros.

A Espanha encontrou a Espanha.

A Argentina encontrou a Argentina.

Talvez o Brasil precise, urgentemente, reencontrar o Brasil.

Não o Brasil da nostalgia, das cinco estrelas bordadas na camisa, dos vídeos em preto e branco e das lembranças de Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, Romário, Ronaldo.

Mas um Brasil novo, capaz de olhar para a própria história sem viver prisioneiro dela.

Um Brasil que saiba que o drible não é atraso.

Que a criatividade não é desorganização.

Que a alegria não é falta de seriedade.

Que a liberdade também pode ser método.

E que, às vezes, para voltar a ser grande, um país precisa primeiro admitir que deixou de saber quem era.

Talvez o nosso maior adversário não esteja mais do outro lado do campo.

Talvez esteja dentro de nós.

É o medo de ousar.

E futebol, como a vida, não perdoa quem entra em campo apenas para não perder.

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

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