O Globo e o jornalismo destemido, segundo Lima Barreto

Apenas após a morte Lima Barreto foi reconhecido como um dos mais importantes literatos brasileiros, o escritor que encarnou o difícil momento de continuidade e ruptura entre um passado que morria com Machado de Assis e um futuro que pertenceria ao mundo moderno.

 

 

Em vida, entretanto, foi o jornalismo destemido e de princípios éticos o que mais o distinguiu na sociedade. E é certo que o jornalista Lima Barreto não possuía muito apreço pela grande imprensa da época. Sua atenção era voltada para a imprensa alternativa. Coerente com esse pensar, por toda a vida foi solidário com aqueles que lutavam por causas que ficavam acima “dos mesquinhos interesses pessoais”. Sempre pobre, participou de dezenas de folhetins sem receber qualquer contrapartida financeira. Um deles foi o jornal anarquista “A Plebe”.

 

 

 

Em 1907, ele editou uma pequena revista, “O Floreal”. Verdadeira peça jornalística- literária, em suas páginas surgiram publicados os primeiros capítulos de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. Apesar de haver existido somente até o quarto número, a revista não passou despercebida do olhar atento de José Veríssimo e pela primeira vez o nome de Lima Barreto foi divulgado para o grande público, via “Jornal do Commercio”.

 

Já neste primeiro romance encontramos o desejo de provocar, desafiar e desagradar a elite preconceituosa e o jornalismo sem ética, dirigido pelo apadrinhamento e pelo interesse financeiro. Desde cedo, nada de arte desinteressada. Nas palavras do próprio autor: “pretendi mostrar que um rapaz nas condições de Isaías, com todas as suas disposições, pode falhar não em virtude de suas qualidades intrínsecas, mas batido e esmagado pelo preconceito”.

 

 

 

Diz o Escrivão em suas recordações: “O Rio de Janeiro tinha então poucos jornais, de modo que era fácil ao Governo e aos poderosos comprar-lhes a opinião favorável. Subvencionados, as críticas em suas mãos ficava insuficiente e covarde… o aparecimento de “O Globo” levantou a crítica, ergueu-a aos graúdos, ao presidente, aos ministros, aos capitalistas, aos juízes, e nunca os houve tão cínicos e tão ladrões… a cidade, agitada pela palavra do jornal, fez arruaças, pequenos motins e obrigou o Governo a demitir esta ou aquela autoridade. E “O Globo” vendeu-se, vendeu-se, vendeu-se…”

 

Em um romance posterior, ainda pouco conhecido, “Gonzaga de Sá”, diz o personagem: “Gosto dos jornais obscuros, gosto dos começos, da luta entre a inteligência e a palavra, das singularidades, das extravagâncias, da livre ou buscadas invenções dos principiantes”.

 

 

 

“Triste fim de Policarpo Quaresma”, seu segundo romance, publicado em 1911, é uma das obras mais importantes de toda a nossa literatura. A história se passa durante os primeiros anos da República e este contexto está na essência de todo o enredo, numa crítica mordaz ao autoritarismo paternalista do Exército e das elites brasileiras.

 

Quaresma é um patriota ingênuo, vivendo numa sociedade que ele não consegue compreender; um homem que acredita num Brasil formatado à sua imagem e semelhança e deseja salvá-lo de seus políticos corruptos, embora suas ações só consigam atrair o riso aberto ou cínico dos contemporâneos.

 

Sobre a obra, disse Alfredo Bossi: “É um romance em terceira pessoa em que se nota maior esforço de construção e acabamento formal. Lima Barreto nele conseguiu criar uma personagem que não fosse mera projeção de amarguras pessoais como o amanuense Isaías Caminha…. O Major Quaresma é pessoa viva, as suas reações revelam o entusiasmo do homem ingênuo, a distanciá-lo do conformismo em que se arrastam os demais burocratas e militares reformados.”

 

 

 

O romance subdivide-se em três blocos, que representam os três grandes sonhos de Quaresma.

 

O primeiro bloco inicia pelo estudo obsessivo de livros, em busca do conhecimento do Brasil. Os vizinhos e conhecidos diziam que Policarpo não vivia a realidade, pois era para eles estranho um homem que nem cursara a faculdade lesse tanto e tanto. Logo o interesse de Policarpo muda de foco e ele anseia por aulas de viola, na busca do resgate de nossa cultura musical popular, sem estrangeirismos. O violão, na época, era mal visto pela elite. E é no aprendizado do instrumento que ele conhece o seresteiro Ricardo Coração dos Outros, uma personificação do poeta e músico Catulo da Paixão Cearense, autor de “O luar do sertão”.

 

Incansável, após a música Policarpo parte em busca das tradições mais genuinamente nacionais: as indígenas. Seu aprendizado do tupi-guarani o levará à sugestão da adoção deste como língua oficial e, após ser motivo de chacota da imprensa e dos colegas de repartição, apelidado de “Ubirajara”, Policarpo redige distraído um documento oficial na língua tupi e termina internado num manicômio.

 

No segundo bloco, Policarpo decide mudar-se da cidade para o campo. Num sítio chamado Sossego ele busca retirar da terra o próprio sustento. Com tanta terra fértil, como se justificam a fome e a pobreza de nosso povo? Com tanta água e barro, por que as casas dos campônios são de pau a pique e não de tijolos? Ao explorar o solo, Policarpo luta contra saúvas e pragas. A fertilidade, afinal, não era bem o que esperava e sua plantação gerou pouco lucro. Para piorar, Policarpo viu-se envolvido, involuntariamente, na luta política da cidade, sendo atacado com multas e difamações, tudo por causa de sua neutralidade política, sempre suspeita.

 

 

 

Já na terceira e última parte, o Major Quaresma, deixando o campo, buscará através da participação política e militar transformar o país. Ao saber da revolta da Armada, nosso protagonista “pede energia” em telegrama ao Marechal Floriano e segue para o Rio de Janeiro para dar apoio ao regime e sugerir reformas que mudassem a situação agrária do país.

 

Chegando ao Rio, Policarpo é bem recebido pelo Marechal que não dá a mínima atenção às suas propostas de reforma agrária. Decidido, assim mesmo, a lutar pela República, Policarpo é incorporado a um batalhão com o posto de major. Encarregado de um pelotão de artilharia com voluntariados pegos à força, Policarpo deveria rechaçar investidas dos marinheiros às praias cariocas.

 

Se a revolta gerava violência, ao mesmo tempo, surgiam oportunidades de ascensão social e econômica para compadres e bajuladores. Policarpo chega à conclusão que a Pátria, à qual ele sacrificara sua vida de estudos, era uma ilusão. Que o positivismo de militares e de civis era uma máscara para encobertar arbitrariedades e exploração.

 

Seu destino é selado quando lhe ordenam a execução de pobres prisioneiros marinheiros, o que ele se nega a fazer. Subleva-se e escreve uma carta a Floriano Peixoto. Policarpo, então, é preso, acusado de traição. Ao final, Policarpo é condenado ao fuzilamento.

 

Policarpo, tal qual Dom Quixote de la Mancha, lutava contra moinhos de vento. Não era compreendido e nem se fazia compreender, por não viver a realidade de seu tempo, e sim seus próprios sonhos e desejos.

 

 

 

Por um lado Lima Barreto se manteve fiel ao modelo do romance realista e naturalista, por outro, resgatou as tradições cômicas e picarescas de nossa cultura popular, utilizando um estilo despojado, fluente e coloquial, que influenciaria os modernistas, na mesma medida em que enfurecera os parnasianos.

 

As concepções de Lima Barreto a respeito dos objetivos da obra de arte e do papel do escritor engajado com a problemática nacional de seu tempo foram revolucionárias. Para ele escrever tinha a finalidade de criticar o mundo circundante para despertar alternativas renovadoras dos costumes e de práticas, que na sociedade privilegiavam certas classes sociais, indivíduos e grupos.

 

“Os escritores brasileiros não deveriam perder tempo nem amesquinhar-se em cantar cavalheiros de fidalguia suspeita e damas de uma aristocracia de armazém por atacado”, pois “a arte deve ser um instrumento de edificação moral da população. Devemos mostrar que um negro, um índio, um português ou um italiano podem-se entender e se amar, no interesse comum de todos nós.”

 

“A solidariedade humana, mais que nenhuma outra coisa, interessa ao destino da humanidade.”

 

Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 1881. Era filho de um tipógrafo negro liberto, e sua mãe, professora primária, também descendente de escravos.

 

Concluiu o curso secundário na Escola Politécnica; a falta de dinheiro obrigou-o a abandonar a faculdade de Engenharia. O sustento, ele o obtinha com o emprego de escrevente na Secretaria de Guerra, graças à indicação do padrinho, o Visconde de Ouro Preto.

 

Lima Barreto durante toda a vida enfrentou tanto o preconceito de cor quanto o fato de ser um revoltado. Pobre sempre, a solidão e a boemia levaram-no ao alcoolismo. Crises de alucinações e delírios provocaram sua internação por duas vezes na Colônia de Alienados da Praia Vermelha. Seus sofrimentos na Colônia foram relatados de forma poética em “O cemitério dos vivos”: “Veio-me repentinamente, um horror à sociedade e à vida; uma vontade de absoluto aniquilamento, mais do que a morte traz; um desejo de perecimento total da minha memória na terra; um desespero por ter sonhado e terem-me acenado tanta grandeza, e ver agora, de uma hora para outra, sem ter perdido de fato minha situação, cair tão baixo, que quase me pus a chorar como criança”.

 

 

 

Logicamente, o emprego na Secretaria de Guerra lhe trazia entraves à livre expressão do pensar. “Durante os quinze ou dezesseis anos em que guardei as conveniências da minha situação burocrática, comprimi a muito custo a minha indignação e houve mesmo momentos em que ela, de certo modo, arrebentou”. De um destes arrebentares nasceu “Policarpo Quaresma”, o do outro, “Clara dos Anjos”, um libelo literário contra os preconceitos raciais e sociais sofrido por gente pobre, principalmente as “herdeiras do escravagismo”.

 

“Ora, uma mulatinha, filha de um carteiro! O que era preciso, tanto a ela quanto a suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade… para se bater contra todos que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação social dela. Nada a fazia inferior à outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas (as negras) o admitiam”.

 

Por esse motivo, a maior parte das crônicas, ensaios e materiais jornalísticos foram escritas entre 1918 e 1922, após a aposentadoria por doença. Poucos meses antes de falecer, ele organizou o material jornalístico sob o título de “Bagatelas”, publicado anos após sua morte. São escritos coloquiais e descuidados, quase familiares, fora do tom formal de seu tempo. Sem ser panfletário, Lima Barreto esgrimia uma áspera crítica política, social e de costumes.

 

Pacifista convicto, Lima Barreto expressava o sentido do humanismo: “o objetivo da civilização não é a guerra, mas sim, a concórdia entre os homens de diferentes raças e de diferentes partes do planeta; é o aproveitamento das aptidões de cada raça ou de cada povo, para o fim último do bem estar de todos os homens”.

 

Nenhum cronista brasileiro de sua época soube como ele perceber as consequências políticas do pós Primeira Guerra Mundial e denunciou em primeira mão a farsa que o acordo de Versailles buscava esconder: “um acordo que produziu um tratado de paz cujas condições e cláusulas trazem em seu bojo a próxima guerra”, predisse.

 

Lima Barreto foi, sem dúvida, o crítico mais agudo da República Velha. Colocou a nu a roupagem republicana que manteve os antigos privilégios de políticos, de famílias aristocráticas e de militares.

 

 

 

De formação eclética, heterodoxa, uma mistura de anarquismo com pitadas de um liberalismo a la Spencer, ele se auto definia filosoficamente como um maximalista. No artigo intitulado “No ajuste de contas”, o autor propõe uma série de medidas que a seu ver resolveriam a maioria dos problemas brasileiros. No “Manifesto Maximalista” ele expressa um ardente desejo de revolução social: “Cabe aos homens de coração desejar e apelar para uma violenta convulsão que destrone e dissolva de vez essa “societa sceleris” de políticos envolvidos com comerciantes, industriais, jornalistas ad hoc, que nos esfaimam, emboscados atrás das leis republicanas.”

 

Quando a greve insurrecional de 1918 eclodiu no Rio de Janeiro, assim como já havia feito quando em 1917, a de São Paulo, solidarizou-se imediatamente com a mesma. Em “Carta Aberta ao Presidente Rodrigues Alves”, ele denuncia a violência e as calúnias policiais, amplamente difundidas pela grande imprensa do ponto de vista da repressão. “Se o chefe de polícia tivesse expedido uma circular a tal respeito, em papel com o timbre da polícia, a obra sairia igual a todos os artigos de nossos grandes jornais.”

 

Num período em que o Congresso Nacional aprovava açodadamente as leis de exceção contra os movimentos grevistas, foi do jornalista mulato a voz de mais alta denúncia. “É essa a República que desejamos?”

 

Foi Lima Barreto quem cunhou na imprensa o termo plutocratas para os representantes das elites corruptas. “O Estado atual é o ‘dinheiro’ e o ‘dinheiro’ são os plutocratas que açambarcam, fomentam guerras, que elevam vencimentos para aumentar os impostos, de forma a drenar para seus cofres todo o suor e todo o sangue do País, em forma de preços e juros.”

 

Os plutocratas também eram os latifundiários e nosso escritor tinha claro, em 1920, que a reforma agrária era a condição indispensável para o livre desenvolvimento da economia nacional. Para ele era necessário antes de tudo, “dividir a propriedade agrícola, dar a terra ao homem que efetivamente nela trabalha e não ao doutor vagabundo e parasita, que vive na Casa Grande, no Rio ou em São Paulo”.

 

Na contramão da maioria dos jornalistas de então, estavam seus sentimentos anti-ianques. O estilo de vida que a burguesia norte-americana pretendia apresentar ao mundo como padrão ideal da sociedade capitalista, de ordem e de prosperidade, eram os aspectos que ele mais execrava daí seus ataques aos “hipócritas norte-americanos”. Dizia que o “fundo do espírito americano é a brutalidade”.

 

“Nós só vemos dos Estados Unidos o verso, mas não vemos o reverso ou o avesso; e este é repugnante, vil, horroroso… Quando os americanos falam em paz e outras coisas bonitas, é porque premeditam alguma ladroagem ou opressão.” Em “O nosso ianquismo”, Lima Barreto resumiu tudo numa frase: “ no fundo, não passamos de um disfarçado protetorado”.

 

Lima Barreto faleceu no primeiro dia do mês de novembro do ano de rupturas de 1922, vítima de ataque cardíaco, aos quarenta e um anos de idade. Neste mesmo ano, em fevereiro, ocorrera na cidade de São Paulo, no Teatro Municipal, a Semana de Arte Moderna. Em março, no Rio de Janeiro, aconteceria a fundação do Partido Comunista do Brasil. Em julho, o movimento tenentista levaria à Revolta do Forte de Copacabana e, no final do ano, o presidente fraudulentamente eleito, Artur Bernardes, imporia o estado de sítio no Brasil.

 

Bibliografia:

 

  1. Pereira, A.. Crítica impura.

 

  1. Lins, O.. Lima Barreto e o espaço romanesco. Ed. Ática, 1976.

 

  1. Barbosa, F.. A vida de Lima Barreto. José Olympio Editora, 2002.

 

  1. Barreto, L.. Bagatelas. Ed. Brasiliense, 1956.

 

  1. Barreto, L.. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ed. Rideel, 2000.

 

  1. Barreto, L.. O cemitério dos vivos. Cia. das Letras, 2017.

 

  1. Barreto, L.. Recordações do escrivão Pero Caminha. Biblioteca Folha, 1997.

 

  1. Barreto, L.. Clara dos Anjos. Ed. Attica, 2009.
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