‘O fascismo emerge, mas não entre o povo’, diz Angela Davis

 

Na Flip, Angela Davis destaca intelectuais brasileiras e defende o feminismo anticapitalista diante do avanço da extrema direita

A presença de Angela Davis na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026, que nesta edição registrou o maior público de sua história, extrapolou os limites de uma conversa literária. Em um dos encontros mais concorridos da programação paralela, a intelectual comunista foi além da literatura. Defendeu um feminismo anticapitalista, denunciou o avanço da extrema direita e fez do pensamento de intelectuais brasileiras o eixo de uma reflexão sobre capitalismo, racismo e os desafios das lutas emancipatórias no século 21.

Entre críticas ao racismo, à gentrificação e à concentração de riqueza, Davis reafirmou que a produção intelectual do Sul Global ocupa hoje um lugar central na construção do pensamento crítico contemporâneo.

Memória, território e resistência

Realizada em 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a mesa “América e África: uma conversa Atlântica” reuniu centenas de pessoas no Sesc Caborê. Ao abrir o encontro, a jornalista Flávia Oliveira observou que a ausência do escritor nigeriano Wole Soyinka transformava aquela conversa em um diálogo entre mulheres negras justamente na data dedicada à luta das mulheres negras. Ao lembrar Tereza de Benguela, recuperou uma das frases mais conhecidas de Angela Davis no Brasil: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.” A partir daí, a conversa se transformou em uma ampla reflexão sobre memória, cultura, política e organização coletiva.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Logo no início, Angela Davis situou Paraty como um território atravessado pela história da escravidão e da resistência negra. “Podemos quase sentir a presença dos ancestrais neste lugar”, disse.

A memória evocada por ela rapidamente se conectou às disputas do presente. A filósofa associou a história da cidade ao avanço da gentrificação sobre comunidades tradicionais e relacionou esse processo ao racismo ambiental e à lógica de exploração característica do capitalismo contemporâneo. “Tentam criar meios para ganhar mais lucro, tirando as pessoas das suas terras, das terras dos seus ancestrais.”

O Brasil como referência para o pensamento emancipatório

As referências ao pensamento brasileiro deram o tom da conversa. Mais do que homenagear intelectuais nacionais, Angela Davis recorreu às suas obras para interpretar o presente. Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Milton Santos e Nego Bispo apareceram como referências para pensar capitalismo, colonialismo, racismo, território e as possibilidades de transformação social.

Lélia Gonzalez ocupou um lugar central nessa reflexão. Davis afirmou admirar a intelectual brasileira há muitos anos e destacou a atualidade do conceito de amefricanidade formulado por ela para compreender as conexões entre povos negros e indígenas nas Américas. Ao comentar sua obra, observou que a crítica ao capitalismo elaborada pela pensadora brasileira ganha ainda mais força “na primeira era dos trilionários”, marcada pela concentração extrema da riqueza e pela exploração predatória da natureza e dos povos. Para Davis, esse modelo de desenvolvimento ajuda a explicar tanto a crise climática quanto o aprofundamento das desigualdades sociais.

Beatriz Nascimento ampliou essa reflexão ao aproximar a experiência da diáspora negra da construção de uma identidade política. Ao recuperar a frase “eu sou atlântica”, Angela Davis afirmou que a autora sintetizava uma forma de pertencimento capaz de conectar diferentes territórios e experiências da diáspora. “Quando ela falou ‘eu sou atlântica’, expressou um sentimento que nos faz perceber que pertencemos a um mundo muito maior.”

Foi a partir dessa concepção que Davis relembrou sua aproximação com as lutas anticoloniais durante a guerra de independência da Argélia e afirmou ter compreendido, naquele período, o sentido político do internacionalismo, perspectiva que, segundo ela, continua orientando sua atuação até hoje.

A literatura apareceu como outro eixo dessa reflexão. Ao saudar Conceição Evaristo, presente na plateia, Angela Davis aproximou sua produção literária da obra de Toni Morrison e da força artística de Nina Simone. Também destacou o conceito de escrevivência como uma ruptura com a falsa universalidade da experiência branca, reafirmando o direito de mulheres negras narrarem a própria história.

Arte como horizonte de transformação

Não por acaso, a arte ocupou um espaço central na conversa. Para ela, literatura, música e produção artística ocupam um lugar estratégico nos processos de transformação social porque permitem imaginar formas de existência que ainda escapam à política institucional.

“Há algo sobre a natureza da música, da arte e da literatura que nos permite alcançar dimensões que não são alcançáveis de outro modo. A arte antecipa, no plano da experiência, o mundo que os movimentos sociais ainda procuram construir. Nós sabemos que queremos liberdade. Nós sabemos que queremos o fim da opressão. Talvez ainda não tenhamos aprendido a descrever como seria esse mundo, mas a arte nos permite experimentá-lo.”

Na mesma direção, definiu a produção artística como uma força ativa de transformação social. “A arte está na dianteira das lutas revolucionárias pela mudança.”

Fascismo, capitalismo racial e organização popular

Se a arte permite imaginar novos mundos, a política exige enfrentar as ameaças do presente. Angela Davis alertou para o avanço da extrema direita na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina e afirmou que o crescimento do fascismo não expressa os interesses da população. “O fascismo está emergindo, mas não entre o povo”, sintetizou.

Ao comentar o cenário brasileiro, advertiu para a necessidade de impedir o retorno de projetos políticos alinhados ao autoritarismo. Em outro momento, evitou pronunciar o sobrenome Bolsonaro e explicou que, em tradições africanas, nomear alguém também significa conferir poder.

Foi ao recordar o período em que esteve presa, acusada injustamente de conspiração, sequestro e homicídio, que Angela Davis encontrou um exemplo concreto da força da organização coletiva. Para ela, sua libertação não foi resultado de uma ação individual, mas da mobilização internacional construída por milhões de pessoas em diferentes países. “Quando as pessoas se unem, ultrapassando fronteiras nacionais, podemos enfrentar até mesmo as figuras mais poderosas do mundo.”

Em seguida, aproximou essa experiência dos desafios do presente. “É isso que precisamos fazer hoje. Precisamos construir movimentos que impeçam aqueles que estão no poder de levar adiante suas agendas de fascismo e capitalismo racial.”

Juventude e futuro

Aos 82 anos, Angela Davis afirmou enxergar nas novas gerações a principal força das transformações sociais. Em entrevista ao Estadão durante sua passagem pela Flip, disse que todas as grandes mudanças revolucionárias tiveram a juventude em seu centro.

“A mudança revolucionária sempre veio dos jovens.”

Ela atribuiu às novas gerações o fortalecimento do movimento climático, o avanço das lutas antirracistas e a emergência de um feminismo radical comprometido com o internacionalismo e o enfrentamento da xenofobia.

Ao encerrar sua participação, Angela Davis lembrou que, em suas primeiras visitas ao Brasil, a presença de estudantes negros nas universidades era muito menor do que hoje. Celebrou as conquistas obtidas pelos movimentos sociais, mas fez um alerta contra qualquer sensação de acomodação.

“Nós conquistamos essas vitórias, mas não nos acomodemos com elas. Temos que continuar lutando.”

A advertência sintetizou o sentido da conversa realizada em Paraty. Ao longo de quase duas horas, Angela Davis articulou pensamento negro, produção cultural, feminismo, internacionalismo e organização popular para defender que nenhuma conquista é definitiva. As vitórias acumuladas pelos movimentos sociais, sugeriu, não representam um ponto de chegada, mas a condição necessária para enfrentar as disputas políticas, culturais e sociais que permanecem abertas.

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