O Baile da República de Blazer Azul-Marinho

 

Ou: como transformar um encontro político em reunião de condomínio com bandeiras do Brasil

 

Há momentos em que a História parece escrita por um bêbado com ótimo senso de humor. E Curitiba, sempre tão disciplinada até para cometer exageros, resolveu oferecer mais um capítulo dessa literatura involuntária.

Na próxima sexta-feira, a fina flor da direita e da extrema direita paranaense seguirá em romaria rumo ao aristocrático clube da vez — porque toda revolução conservadora precisa de estacionamento com manobrista e água saborizada. Ali acontecerá a grande pré-convenção onde, teoricamente, tudo será decidido. Embora tudo já tenha sido decidido antes mesmo do convite digital ser disparado no WhatsApp das lideranças patrióticas. Se nada mudar, se a Justiça não acordar mal-humorada, teremos Sergio Moro para governador; Deltan Dallagnol — mesmo inelegível, o que no Brasil virou quase um detalhe estético — e Filipe Barros para o Senado.

O possível vice de Moro, o ex-presidente da FIEP Edson Vasconcelos, já teria fechado questão: funcionários da federação deverão marcar presença. Acho bonito esse espírito participativo do capitalismo brasileiro. Dizem que um vice precisa ter uma de duas coisas: voto ou capacidade de buscar dinheiro para campanha. Como ninguém sabe exatamente quem é o Edson, sobra apenas a segunda hipótese. A política, às vezes, elimina o mistério com uma elegância brutal.

Imagino a cena.

Homens de sapatênis discretamente caros, mulheres com patriotismo em tons pastéis, empresários com expressão de quem sofre muito pagando imposto sobre lucro, jovens liberais que defendem o Estado mínimo enquanto disputam cargo em gabinete parlamentar. Tudo muito civilizado. A extrema direita paranaense jamais grita; ela prefere falar pausadamente, como quem pede outro carpaccio.

Os discursos já vêm prontos, como casamento com buffet fechado.

“E o PT?”

“E o Lula?”

“Liberdade!”

“Deus, pátria, família!”

Em algum momento surgirá uma metáfora confusa envolvendo Cuba, Venezuela, Irã e talvez um posto de gasolina em Londrina. Sobre o Banco Master, naturalmente, silêncio absoluto. O silêncio é uma das grandes contribuições da elite brasileira para a vida pública.

Ninguém decidirá nada. Os presentes ouvirão duas horas de obviedades embaladas em patriotismo de auditório, aplausos sincronizados e aquela estranha emoção coletiva que toma conta das pessoas quando elas escutam exatamente o que já pensavam antes de sair de casa.

Curitiba adora essas liturgias.

A cidade tem vocação para transformar qualquer tensão política em assembleia de condomínio. Tudo organizado, climatizado e com café razoável. Até a indignação aqui parece precisar de RSVP.

No fundo, encontros assim me fascinam menos pela política e mais pelo comportamento humano. Porque existe algo profundamente brasileiro em fingir espontaneidade dentro de um roteiro já impresso. As pessoas chegam para “debater o futuro”, mas apenas confirmam o passado. Cumprimentam-se com entusiasmo profissional, tiram fotos em frente às bandeiras e repetem palavras como “liberdade” enquanto seguem listas de presença cuidadosamente organizadas por terceiros.

Esse o detalhe mais sincero da noite.

A liberdade, no Brasil, quase sempre entra no salão com crachá obrigatório.

Ah, e claro: bastou Luciano Huck criticar o Bolsa Família para surgirem lá na festa da extrema direita uma tropa de granfinos de condomínio pronta para defendê-lo com gráficos rabiscados no guardanapo do clube onde acontecerá o evento. Eu aqui penso, muitos lamentaram a ausência de Vorcaro — o único homem capaz de transformar um debate sobre assistência social em uma mistura de aula, stand-up e crise existencial coletiva, tudo antes do intervalo para os comes e bebes.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

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