Como dinheiro, mídia, rodeios, marcas e música transformaram o agronegócio em identidade — e venderam essa identidade como cultura popular
Por Cláudio Ribeiro | Portal Brasil Cultura
O agronegócio brasileiro não produz apenas soja, carne, milho e açúcar. Produz também imagem.
E talvez essa seja uma de suas mercadorias mais sofisticadas.
Nas últimas décadas, o agro deixou de ser apresentado apenas como atividade econômica e passou a ocupar o imaginário popular como sinônimo de riqueza, sucesso, liberdade, empreendedorismo e orgulho nacional. Para isso, encontrou na música sertaneja — especialmente no chamado agronejo — uma poderosa máquina de fabricação de símbolos.
Não basta vender commodities.
É preciso vender o estilo de vida que justifica o modelo.
É aí que entra o sertanojo.
Do rádio ao algoritmo: a fábrica de consenso
Antes do TikTok, havia o rádio.
Durante décadas, emissoras do interior levaram música, notícias, publicidade e informação comercial às regiões rurais. No mesmo espaço em que se ouvia sertanejo, anunciavam-se tratores, caminhonetes, bancos, sementes, fertilizantes e eventos agropecuários.
Hoje, a tecnologia apenas sofisticou a engrenagem.
O rádio virou YouTube.
O outdoor virou Instagram.
O locutor virou influenciador.
O palco virou conteúdo.
E a publicidade deixou de parecer publicidade.
O capitalismo descobriu que um anúncio convence; uma identidade seduz.
Por isso, marcas não precisam apenas aparecer. Precisam estar associadas ao cantor, ao rodeio, à fazenda, à caminhonete, à bota, ao chapéu e à ideia de sucesso.
O produto deixa de ser vendido como objeto.
Passa a ser vendido como pertencimento.
A indústria cultural encontrou o agronegócio — e o casamento foi lucrativo
Rodeios, exposições agropecuárias, grandes shows, rádios, artistas, gravadoras, empresas e patrocinadores formam um circuito econômico que se retroalimenta.
A empresa financia.
O evento divulga.
O artista atrai multidões.
A marca aparece.
A mídia amplifica.
As redes sociais transformam tudo em desejo.
E o consumidor paga a conta — muitas vezes sem sequer perceber que está diante de uma sofisticada operação de construção de imagem.
É a velha lógica capitalista aplicada à cultura:
transformar tudo em mercadoria — inclusive identidade, pertencimento e orgulho.
O campo, nesse processo, deixa de ser simplesmente território de trabalho e passa a funcionar como cenário publicitário.
A fazenda vira vitrine.
A caminhonete vira símbolo de status.
O cavalo vira grife.
O chapéu vira marca.
E o produtor rural vira personagem de uma narrativa cuidadosamente embalada.
O “agroboy” e a fantasia da prosperidade
O antigo imaginário do interior estava associado à simplicidade, ao trabalho duro e, muitas vezes, à pobreza.
O novo imaginário é outro.
É a fazenda milionária.
A caminhonete de luxo.
O gado de alto valor.
A roupa cara.
O trator tecnológico.
A festa.
A ostentação.
O agronejo não apenas canta sobre o campo.
Ele vende uma fantasia de campo.
E essa fantasia tem uma mensagem política e econômica bastante conveniente:
se o agro aparece como riqueza, modernidade e sucesso, pouco espaço sobra para discutir quem concentra a terra, quem controla a cadeia produtiva, quem fica com a maior parte da riqueza, os impactos ambientais, as relações de trabalho ou as desigualdades produzidas no próprio campo.
Não é necessário esconder o conflito.
Basta transformá-lo em entretenimento.
Ana Castela e a transformação do agro em cultura pop
O fenômeno de artistas como Ana Castela evidencia essa mudança.
Em músicas que exaltam o universo rural, o agro deixa de ser simplesmente uma atividade econômica e passa a funcionar como identidade coletiva.
Essa diferença é fundamental.
“Interior” é território.
“Agro” é território transformado em marca.
É economia transformada em estilo de vida.
É interesse empresarial convertido em orgulho cultural.
É propaganda que aprende a cantar, dançar e viralizar.
O capitalismo não quer apenas o seu dinheiro. Quer o seu imaginário.
Essa talvez seja a questão central.
O capitalismo contemporâneo aprendeu que controlar mercados é importante, mas controlar símbolos é ainda mais poderoso.
Porque quem vende um produto disputa preço.
Quem vende uma identidade disputa sentimentos.
E sentimentos não precisam de argumentos.
Precisam de repetição.
Quando milhões de pessoas escutam as mesmas músicas, veem as mesmas imagens, frequentam os mesmos eventos e associam o agro à riqueza, juventude, liberdade e sucesso, uma determinada visão de mundo vai se tornando natural.
Não é necessário um “comando central”.
É suficiente que interesses econômicos convergentes descubram que podem ganhar dinheiro juntos.
O mercado não precisa conspirar quando todos podem lucrar com a mesma narrativa.
O problema não é o sertanejo. É a transformação da cultura em vitrine
A música sertaneja possui uma história, uma diversidade e uma importância cultural que antecedem — e ultrapassam — o agronegócio.
A crítica, portanto, não é contra o sertanejo nem contra quem gosta dele.
É contra a transformação da cultura em plataforma de marketing permanente.
O problema começa quando a música deixa de apenas retratar uma realidade e passa a funcionar como embalagem de um modelo econômico.
Quando o rodeio vira shopping de marcas.
Quando o artista vira garoto-propaganda.
Quando a fazenda vira cenário de luxo.
Quando o orgulho rural é convertido em estratégia comercial.
E quando qualquer questionamento ao modelo passa a ser tratado como ataque ao próprio povo do campo.
É nesse momento que a cultura deixa de ser apenas expressão.
Torna-se instrumento de poder.
Do agronegócio ao “sertanojo”
O grande triunfo do agronegócio talvez não esteja apenas na quantidade de commodities exportadas.
Está em algo mais sofisticado:
conseguir transformar seus interesses econômicos em imaginário popular.
O agro não quer apenas ocupar a economia.
Quer ocupar a música.
A televisão.
O rádio.
As redes.
Os rodeios.
A linguagem.
O comportamento.
O desejo.
E quando uma atividade econômica consegue fazer isso, já não está apenas vendendo produtos.
Está vendendo uma visão de mundo.
É por isso que o fenômeno merece ser chamado, sem eufemismo, de sertanojo: quando a música popular é capturada pela lógica da ostentação, do patrocínio e da mercantilização da identidade, o que se apresenta como espontaneidade cultural pode funcionar também como uma gigantesca vitrine do capital.
No fim, a fórmula é brutalmente simples:
o capitalismo produz a mercadoria, compra a mídia, patrocina o espetáculo, fabrica o símbolo e depois vende ao público a sensação de que tudo aquilo nasceu naturalmente da cultura.
O agro aprendeu a plantar.
Depois aprendeu a exportar.
E, finalmente, aprendeu a plantar no imaginário.
Essa talvez seja sua colheita mais lucrativa.
Cláudio Ribeiro
Jornalista | Portal Brasil Cultura
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