Morre Juarez Machado, artista plástico e pioneiro do desenho de humor na televisão brasileira

Natural de Joinville, artista construiu parte importante de sua trajetória em Curitiba, ganhou projeção nacional no Fantástico e levou sua arte para o Brasil e o mundo

O Brasil perdeu nesta terça-feira (6) o artista plástico Juarez Machado, um dos nomes mais reconhecidos das artes visuais brasileiras e pioneiro na aproximação entre o desenho, a mímica e o humor na televisão. Ele morreu aos 85 anos, em Vassouras, no interior do estado do Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pelo Instituto Internacional Juarez Machado, criado pelo próprio artista em Joinville, Santa Catarina. A causa da morte não foi divulgada.

Nascido em Joinville, em 16 de março de 1941, Juarez Machado teve uma carreira marcada pela diversidade. Pintor, desenhista, escultor, caricaturista, ilustrador, cartunista, cenógrafo, mímico, escritor e ator, ele transitou por diferentes linguagens e ajudou a aproximar as artes plásticas do grande público.

Sua trajetória, porém, não ficou restrita a Santa Catarina. Antes de conquistar espaço no Rio de Janeiro e posteriormente em Paris, Juarez viveu e estudou em Curitiba, cidade fundamental para sua formação artística.

Curitiba foi ponto decisivo na formação do artista

Ainda jovem, Juarez Machado deixou Joinville para estudar em Curitiba. Na capital paranaense, ingressou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, instituição que atualmente integra a Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

Foi em Curitiba que começou a consolidar sua formação e a participar do ambiente artístico. Entre o início e meados da década de 1960, participou de salões e exposições e recebeu premiações por seus trabalhos. Em 1964, realizou sua primeira exposição individual na Galeria Cocaco, em Curitiba.

A passagem pela capital paranaense foi, portanto, muito mais do que um período de estudos. Foi uma etapa em que Juarez começou a transformar o talento desenvolvido desde a infância em uma carreira profissional.

Registros sobre sua trajetória mostram que o artista também teve contato com a televisão paranaense, trabalhando na produção de cenários para programas. A experiência contribuiu para ampliar sua atuação para além da pintura e do desenho.

Do Paraná para o Rio de Janeiro

Na segunda metade da década de 1960, Juarez Machado mudou-se para o Rio de Janeiro. A cidade se tornou outro centro fundamental de sua carreira.

No Rio, trabalhou como chargista e colaborou com importantes jornais e revistas. Entre os veículos com os quais trabalhou esteve o Jornal do Brasil, onde manteve, nos anos 1970, trabalhos ligados ao humor gráfico. Também participou de publicações como O Pasquim, O Cruzeiro, Fatos e Fotos e outras.

Foi nesse período que sua linguagem artística começou a ganhar projeção nacional. O desenho de humor, a caricatura, a mímica e a cenografia passaram a fazer parte de uma trajetória cada vez mais diversificada.

Juarez Machado fez história no Fantástico

Foi na televisão que Juarez Machado alcançou uma parcela ainda maior do público brasileiro.

Durante os anos 1970, ele integrou os núcleos de criação e humor da Rede Globo e participou de diferentes projetos da emissora. Seu trabalho envolveu vinhetas, aberturas, cenários, figurinos e elementos de programação visual.

Mas foi sua participação no Fantástico que marcou de maneira especial a memória dos telespectadores.

No programa, Juarez aparecia como um personagem mímico que interagia com seus próprios desenhos. A proposta unia duas de suas principais características: o domínio do desenho e o humor baseado na expressão corporal.

Ele desenhava e, ao mesmo tempo, transformava os traços em uma espécie de narrativa visual, utilizando a mímica para estabelecer uma relação direta entre o artista, o desenho e o público. A experiência fez dele um dos pioneiros do desenho de humor na televisão brasileira.

Sua presença no Fantástico ajudou a popularizar uma linguagem artística que, até então, estava muito mais associada aos jornais, revistas e galerias. O desenho deixava de ser apenas uma imagem estática e passava a fazer parte de uma apresentação televisiva.

Um artista que não se limitou ao desenho

Embora seja lembrado pela televisão e pelo humor gráfico, Juarez Machado construiu uma obra muito mais ampla.

Ao longo de mais de seis décadas de carreira, trabalhou com pintura, escultura, ilustração, cenografia, caricatura, fotografia, literatura e design. Também participou da produção de videoclipes e musicais de grandes nomes da música brasileira, entre eles Elis Regina, Roberto Carlos, Raul Seixas e Emílio Santiago.

Na literatura infantil, também deixou sua marca. Produziu livros predominantemente visuais, explorando a narrativa por meio das imagens e criando uma linguagem que dispensava, em alguns casos, o uso convencional do texto. Entre suas obras estão Ida e Volta e Domingo de Manhã.

Sua produção recebeu reconhecimento no Brasil e no exterior, com prêmios e participações em exposições internacionais.

Paris e a projeção internacional

No final dos anos 1970 e início dos anos 1980, Juarez Machado começou a ampliar ainda mais sua atuação internacional.

Em 1980, mudou-se para Paris e estabeleceu residência em Montmartre, tradicional bairro ligado à história das artes na capital francesa. A cidade se tornou um dos principais centros de sua produção e ajudou a consolidar sua carreira internacional.

Mesmo vivendo na França, o artista manteve vínculos com o Brasil. Seus ateliês e projetos permaneceram ligados a cidades como Joinville e Rio de Janeiro.

A experiência internacional não apagou suas referências brasileiras. Ao contrário: elementos do cotidiano, da boemia, do humor e da cultura brasileira continuaram presentes em sua produção artística.

O retorno a Joinville

Apesar de ter vivido em diferentes lugares, Juarez Machado manteve uma ligação profunda com sua cidade natal.

Em 2014, a antiga casa da família em Joinville foi transformada no Instituto Internacional Juarez Machado, espaço dedicado à preservação de sua obra e à promoção da arte. O local passou a reunir trabalhos do artista e também a receber exposições e atividades culturais.

Em Joinville, outro importante símbolo de seu legado é o mural O Grande Circo, instalado na fachada do Centreventos Cau Hansen. A obra possui 90 metros quadrados e é composta por 963 peças cerâmicas pintadas à mão. O complexo também abriga o Teatro Juarez Machado.

A cidade reconheceu oficialmente sua contribuição. Em 1982, Juarez recebeu o título de Cidadão Benemérito e, em 2015, foi homenageado com a Medalha do Mérito Princesa Dona Francisca, considerada a maior honraria concedida pelo município.

Um legado que atravessou gerações

A trajetória de Juarez Machado é marcada justamente pela capacidade de transitar entre diferentes universos.

Ele saiu de Joinville, encontrou em Curitiba uma etapa decisiva de formação, construiu carreira no Rio de Janeiro, conquistou o público brasileiro por meio da televisão e posteriormente levou sua produção para o circuito internacional a partir de Paris.

Na televisão, ajudou a mostrar que o desenho também poderia ser movimento, personagem e humor. Nas artes plásticas, desenvolveu uma identidade própria e reconhecível. Na literatura, explorou a força narrativa das imagens. Na cenografia e no design, levou seu traço para diferentes formatos.

O Instituto Internacional Juarez Machado afirmou, ao comunicar sua morte, que o artista construiu uma trajetória singular nas artes, reconhecida no Brasil e no exterior, marcada pela sensibilidade, pelo humor e pelo olhar atento ao cotidiano.

A morte de Juarez Machado encerra uma trajetória de mais de seis décadas de produção, mas deixa uma obra espalhada por diferentes linguagens e lugares. De Joinville a Curitiba, do Rio de Janeiro a Paris, seu percurso foi marcado pela busca constante por novas formas de transformar desenho, humor e imaginação em arte.

Mais do que o personagem que aparecia na televisão interagindo com os próprios desenhos, Juarez Machado deixa o legado de um artista que nunca se limitou a uma única forma de expressão — e que ajudou a fazer da arte uma experiência acessível a diferentes públicos.

Compartilhar:

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*