Milton Hatoum revisita anos de chumbo em “A Noite da Espera”

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“(…) Ir da Asa Sul à Norte era como viajar para outra cidade, não há ruas nem becos sinuosos por onde fugir, os imensos espaços livres de Brasília são uma armadilha. Escutava gritos e barulho de bombas, as lojas do setor comercial estavam fechadas, caminhei entre as superquadras e vi na W3 um ônibus parado e vazio, que ia à Vila Planalto. Dois estudantes saíram de trás do ônibus, atiraram pedras numa Kombi da polícia e sumiram no outro lado da avenida. Fui a pé à Asa Norte, andava e corria, com a sensação de que nunca ia chegar em casa.”, escreve Milton Hatoum no livro A Noite da Espera, primeiro volume da trilogia O Lugar Mais Sombrio (Companhia das Letras, 240 págs.), que chega às livrarias nesta quinta-feira (26).

Desta vez, o autor dos livros Dois Irmãos e Orfãos do Eldorado conta um drama familiar que se passa durante os anos de chumbo da política brasileira e acaba retratando a formação sentimental, política e cultural de um grupo de jovens na Brasília dos anos 1960 e 1970. A Noite da Espera é um romance fragmentado pelas memórias do protagonista que, 10 anos depois, exilado em Paris, revisita o período que passou em Brasília por meio de cartas e recordações.

As páginas trazem a subjetividade do personagem principal em reflexões sobre o exílio e tudo o que ele deixou para trás. Em 2 de janeiro de 1978, na Rue de la Goutte d’Or, em Paris, ao encontrar com um amigo brasileiro pela primeira vez, por exemplo, Martim reflete: “Um expatriado pode esquecer seu país em vários momentos do dia e da noite, ou até por um longo período. Mas o pensamento de um exilado quase nunca abandona seu lugar de origem. E não apenas por sentir saudade, mas antes por saber que o caminho tortuoso e penoso do exílio é, às vezes, um caminho sem volta”.

Além de fazer uma viagem ao interior do personagem para abarcar o vazio trazido pela falta da mãe, o novo livro de Hatoum se debruça na violência dos anos de chumbo que vitimava mesmo aqueles que não se envolviam diretamente com questões políticas e de combate à ditadura. Martim não era um militante combativo e politizado, mas sim um garoto cujos traumas e sonhos pessoais tinham muito mais importância em sua vida que as lutas coletivas.

Lembranças de Brasília e sentimento de solidão na fria Europa se intercalam e se interrompem nesta narrativa não-linear que leva o leitor a um passeio pela imensidão pessoal de Martim, mas também por memórias, aqui inventadas, de uma época que deixou, de verdade, marcas profundas na história do país.

“É o romance da desilusão no país que vive um eterno romance da desilusão”, afirmou Hatoum ao site do El País Brasil. “O Brasil, parece ser sempre assim, caminha numa trajetória ascendente, com avanços sociais e, de repente, mergulha na desilusão, no desamparo. (…) Hoje, a geração de 1994 é, assim como a de Martim, a geração da desilusão. Eles viram o país avançando para chegar a um momento de ruptura brusca com um impeachment, um golpe parlamentar, que alterou a trajetória ascendente de estabilidade e conquistas”, declarou em entrevista à edição brasileira do jornal espanhol.

Fonte: RBA

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