Há 25 anos, Brasil perdia o deputado comunista que inseriu a liberdade religiosa na Constituição e o escritor que deu vida a meninos de rua, trabalhadores do povo e prostitutas
Um dos maiores nomes da literatura e figura emblemática do comunismo, Jorge Amado deixou ao Brasil uma trajetória marcada por seu amor genuíno ao povo brasileiro e pela defesa da igualdade e da liberdade contra a opressão e o arbítrio.
Nascido em 10 de agosto de 1912 em Itabuna (BA), Amado faleceu na capital baiana há 25 anos, em 6 de agosto de 2001. Sua vida e obra lançaram luz sobre as desigualdades e também sobre as belezas brasileiras, com um olhar especial sobre sua terra natal e os tipos típicos da Bahia de Todos os Santos.
Seu primeiro romance, “O País do Carnaval”, foi publicado em 1931. Quatro anos depois, formou-se na então Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro.
“A ousadia de ‘O País do Carnaval’, que desconcertou a crítica do início da década de 1930, foi o fato de tematizar a vida literária alienada e elitista de então, submetendo-a a uma crítica severa. Foi um sucesso de público inesperado”, escreveu o jornalista e historiador José Carlos Ruy (1950-2021).
O período entre 1930 e 1940 é marcado por obras características do realismo socialista, que denuncia as desigualdades e a exploração da classe trabalhadora, bem como a vida dos marginalizados. Entre os livros referenciais desse momento estão “Cacau” (1933), “Jubiabá” (1935), “Capitães da Areia” (1937) e “Terras do Sem Fim” (1943).
Naquele mesmo artigo, Ruy apontou que essas obras, com “histórias de trabalhadores e da luta do povo garantiram a Jorge Amado um lugar entre os autores mais avançados entre os escritores brasileiros”.
Mais adiante, a partir dos anos 1950, passou também a focar sua escrita em temas mais satíricos e sensuais — é o caso dos livros “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966) e “Tieta do Agreste” (1977).
No entanto, é de 1954 a trilogia “Os Subterrâneos da Liberdade”, considerada o auge estético do realismo socialista em sua obra ao retratar o Brasil do Estado Novo sob a ótica da militância comunista clandestina.
Estes e muitos outros títulos foram adaptados para o cinema e para a teledramaturgia, bem como para o teatro, popularizando ainda mais o autor dentro e fora do Brasil.
Conforme assinalou a jornalista e historiadora Joselia Aguiar, autora de “Jorge Amado: Uma biografia” (Editora Todavia, 2018) em publicação da revista Pesquisa Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), “nas primeiras décadas ele [Amado] teve uma recepção muito positiva e recebeu críticas favoráveis de nomes como Oswald de Andrade [1890-1954] e Antonio Candido [1918‑2017]”.
No mesmo artigo, Eduardo de Assis Duarte, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), defendeu que Amado tratou, durante todo o seu percurso literário, das questões de gênero, classe e raça. “Ele sempre escreveu sobre mulheres livres, donas da própria vida” e “ainda teve a coragem de colocar duas prostitutas como protagonistas de suas histórias, em “Tieta do agreste” [1977] e “Tereza Batista cansada de guerra”.
Comunista perseguido

Na política, a vida de Jorge Amado também foi marcante e cheia de percalços. Ainda nos anos 1930, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil, foi preso várias vezes durante o Estado Novo, de Getúlio Vargas e teve livros, inclusive, recolhidos e queimados em praça pública em Salvador, acusado de fazer “propaganda comunista”.
Na ocasião, mais de 1,8 mil títulos de literatura associados ao movimento de esquerda foram incinerados — mais de 90% eram de Jorge Amado e cerca de metade eram exemplares de “Capitães da Areia”.
Devido à perseguição, exilou-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942. Naquele período, era casado com sua primeira esposa, Matilde Garcia Rosa, com quem teve a filha Eulália Amado e de quem se separou em 1944, quando retornou ao Brasil. Um ano depois, casou-se com Zélia Gattai, Com a escritora, Amado viveu o restante de sua vida e teve mais dois filhos: João Jorge e Paloma Jorge Amado.

Amado não se curvou frente ao arbítrio daqueles anos. Seguiu sua carreira como escritor e também como homem da política. Em 1945, foi eleito para a Assembleia Nacional Constituinte pelo estado de São Paulo, ao lado da histórica bancada comunista que contava, ainda, com outros 13 nomes fundamentais do movimento no Brasil.
Em São Paulo, dividiu espaço com José Maria Crispim, Osvaldo Pacheco da Silva e Mario Scott. Pelo Distrito Federal (na época, o Rio de Janeiro), elegeram-se João Amazonas, Maurício Grabois e Joaquim Batista Neto. Pelo estado do Rio, foram eleitos Claudino José da Silva e Alcides Rodrigues Sabença. Gregório Bezerra, Alcedo de Morais Coutinho e Agostinho Dias de Oliveira formavam a frente pernambucana. Pela Bahia, foi eleito Carlos Marighella e pelo Rio Grande do Sul, Abílio Fernandes. Além disso, Luiz Carlos Prestes foi eleito senador pelo Distrito Federal.
Como parlamentar, Jorge Amado escreveu e articulou a aprovação de emenda que assegurou o direito à liberdade religiosa e de culto, dispositivo mantido e ampliado na Constituição de 1988. Também defendeu, entre outras bandeiras, a isenção de impostos para livros, a liberdade de imprensa e a não obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas, partindo do princípio de que o Estado deve ser laico.
A partir de 1947, a bancada foi cassada e os mandatos foram formalmente extintos em 1948, devido à cassação do Partido Comunista pela Justiça Eleitoral, sob o argumento de que a legenda obedecia a diretrizes de uma potência estrangeira (a União Soviética) e feria os princípios democráticos da Constituição de 1946. Em 2013, por iniciativa da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), os mandatos foram devolvidos de forma simbólica aos parlamentares cassados, durante cerimônia na Câmara com seus familiares.
Após a cassação, Amado exilou-se na França e na Checoslováquia, a partir de 1950. Em 1951, recebeu o Prêmio Stalin da Paz na União Soviética. O escritor ainda foi reconhecido com uma série de outras comendas importantes, entre os quais Latinidades (França, 1971); Pablo Neruda (Rússia, 1989); Luís de Camões (Brasil-Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959 e 1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).
Em 1955, Amado voltou ao Brasil e se afastou da militância política, prosseguindo em sua carreira como escritor e lançando algumas de suas principais obras. No ano de 1961, tornou-se um dos imortais da Academia Brasileira de Letras.
Durante seu discurso de posse, destacou:
“Muitas vezes fui acusado de interessado e parcial, de escritor comprometido e limitado por esses compromissos, de escritor político e participante. Jamais tal acusação me doeu ou pesou, jamais me senti por ela ofendido. Qual o escritor não político? De mim não sei de nenhum. A própria condição de escritor é uma condição política, tão politicamente poderosa que ultrapassa a própria atuação imediata de escritor (…)”.
Mais adiante, falou de seu profundo amor pelo Brasil e o seu povo, presente em toda a sua obra, motivo central que se faz necessário lembrá-lo ano após ano, para o conhecimento das novas gerações:
“Quanto ao meu comprometimento e à minha parcialidade, meu único compromisso, dos meus começos até hoje, e espero, certamente até a última linha que venha a escrever tem sido com o povo, com o Brasil e com o futuro. Minha parcialidade tem sido pela liberdade contra o despotismo e a prepotência; pelo explorado contra o explorador; pelo oprimido contra o opressor; pelo fraco contra o forte; pela alegria contra a dor; pela esperança contra o desespero, e orgulho-me dessa parcialidade. Jamais fui nem serei imparcial nessa luta do homem, na luta do futuro e o passado entre o amanhã e o ontem”.
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