De 1º a 11 de outubro, em Curitiba, espetáculo inspirado na obra de Hilda Hilst reúne quatro atrizes para tensionar expectativas sobre o corpo feminino e atravessar temas como desejo, envelhecimento, maternidade, sexualidade e violência
E se o ponto de vista mudar de lugar? É desse deslocamento que nasce a peça que chega agora ao público, e, com ele, a nossa vista do ponto. Em cena, experiências marcadas por desejos, alma, pulsação de vida e violências que atravessam os corpos femininos ganham outras perspectivas, revelando também força, vitalidade, possibilidades de existência, sexualidade e liberdade. Entre 1º e 11 de outubro, as atrizes Carolina Mascarenhas, Fabiana Ferreira, Taciane Vieira e Mayra Fernandes estreiam “(IN) FLUXO” no Miniauditório Glauco Flores de Sá Brito, no Teatro Guaíra, em Curitiba, com entrada gratuita. O espetáculo conta ainda com a execução ao vivo da trilha original criada por Victoria Ruiz.
O espetáculo é um dos desdobramentos da pesquisa “Fluxo Floema”, desenvolvida por Mayra Fernandes há cerca de 15 anos sobre a experiência da mulher na sociedade contemporânea. Atriz, diretora, pesquisadora e produtora cultural, Mayra percorre esse caminho pela arte, pela escuta e também por sua aproximação com a antropologia cultural. A pesquisa já passou por diferentes recortes e chega agora ao palco para tensionar etarismo, maternidade compulsória, sexualidade, gênero, padrões corporais e desejo. “É um projeto que vem de um grande mergulho, uma pesquisa debruçada em Hilda e mulheres na sociedade contemporânea, mas com vários desdobramentos. Eu pretendo que ela tenha uma vida em cima, porque a gente tem muito a falar sobre as mulheres, não para aqui”, conta Mayra.
Uma dramaturgia feita de encontros
A dramaturgia, assinada por Amanda Leal e Mayra Fernandes, nasce da escuta e do encontro entre diferentes experiências. Leal também integra a direção, ao lado de Stela Fischer e Eduardo Ramos, reunindo diferentes trajetórias e perspectivas sobre a cena. Stela aproxima ao processo sua pesquisa sobre feminismos e artes da cena, enquanto Eduardo traz sua experiência como diretor, dramaturgo e artista da cena para a construção do espetáculo.
No elenco, Carolina Mascarenhas, Fabiana Ferreira, Taciane Vieira e Mayra Fernandes colocam em circulação diferentes corpos, idades e experiências. Carolina, que também é dramaturga e diretora, integra esse encontro de perspectivas ao lado de Fabiana, que traz 35 anos de trajetória no teatro; de Taciane Vieira, atriz há 20 anos, com mais de 70 espetáculos em sua trajetória e vencedora do Prêmio Gralha Azul de Melhor Atriz Coadjuvante; e de Mayra Fernandes, atriz, dramaturga, produtora, diretora e pesquisadora com mais de 20 anos de trajetória na cena teatral.
A criação se completa com Flávia Massali, na direção de movimento e preparação corporal, Carmem Von Blue, em arte, figurino e caracterização, e Semy Monastier, na luz. Em cena, Victoria Ruiz cria e executa ao vivo a trilha original.“Eu fui atrás de buscar essas vozes, escutar essas vozes, essas potências, porque eu entendo que a arte não se faz com uma voz só, e principalmente quando o assunto é esse”, afirma Mayra.
O corpo que envelhece e continua
O envelhecimento está no centro da obra. Se juventude, beleza e desejo ainda aparecem como medidas de valor para os corpos femininos, o que acontece quando esse corpo muda? “Existe uma cobrança para que a mulher continue sendo jovem, bonita, desejável, produtiva. E quando o corpo muda, parece que ela precisa desaparecer. A peça quer justamente olhar para esses corpos e dizer: eles continuam aqui, continuam desejantes, continuam vivos”, afirma Mayra.
A discussão se conecta a outras formas de controle sobre os corpos: maternidade compulsória, liberdade sexual, padrões de beleza e construções de gênero. É nesse deslocamento que a criação propõe a nossa vista do ponto: um olhar construído a partir das experiências de quem vive esses corpos, suas marcas, desejos, conflitos, transformações e seus vãos, aquilo que escapa, que não se encaixa, que também compõe cada existência.
Hilda Hilst como espinha dorsal
A obra de Hilda Hilst está no centro da construção do espetáculo. O encontro de Mayra com a escritora, há cerca de 15 anos, foi determinante para a pesquisa. A criação se inspira na forma de escrita de “Fluxo-Floema” e na liberdade de Hilda para transitar entre poesia, prosa e teatro, criar diferentes vozes e personas e aproximar erotismo, pensamento, escárnio e questões existenciais. “Ela tem uma capacidade de entrar na mente de um homem heterossexual branco, de escrever uma menina abusada, de vivenciar diversas personas. Isso, para mim, vai além da capacidade intelectual. É uma capacidade humana”, conta Mayra.
O deboche, o sarcasmo e a ironia da escritora também atravessam a criação como formas de abordar assuntos difíceis. “Hilda conseguia falar de assuntos muito sérios trazendo deboche, sarcasmo e ironia. Acho isso muito inteligente e muito possível, porque muitas de nós mulheres também sobrevivemos assim”, enfatiza.
No palco, palavra, corpo, movimento, luz, imagem, figurino, caracterização e música ao vivo participam da construção da dramaturgia. Como desdobramento de uma pesquisa que segue em movimento, o espetáculo coloca em circulação diferentes mulheres, corpos e olhares diante de uma questão que permanece aberta: o que esperam de uma mulher, e o que ela espera de si mesma, qual é o tamanho permitido da nossa existência?
SERVIÇO: Espetáculo (IN) FLUXO
Estreia e temporada: 01 a 04 e de 06 a 11 de outubro de 2026 | terça a sexta, às 20h; sábados e domingos as 18h
Sessões com Libras: 03 e 10 de outubro.
Local: Miniauditório Glauco Flores de Sá Brito – Teatro Guaíra (Rua Amintas de Barros, s/n – Centro)
Entrada: gratuita, entrega de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria
Classificação: 16 anos
Realização: Cardume Produção Cultural e Ap. da Treze
Instagram: @cardumeproducaocultural
Sinopse
Ficha Técnica
Pesquisa e idealização: Mayra Fernandes | Dramaturgia: Amanda Leal e Mayra Fernandes | Direção: Leal, Eduardo Ramos, Stela Fischer | Elenco: Carolina Mascarenhas, Fabiana Ferreira, Taciane Vieira e Mayra Fernandes | Direção de movimento: Flávia Massali | Trilha original e ao vivo: Victoria Ruiz | Figurino e caracterização: Carmem Von Blue | Luz: Semy Monastier | Produção: Cardume Produção Cultural
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