Entre o jornalismo e o picadeiro

Uma cadeira vazia, alguns candidatos e a velha pergunta: quem conta ao Brasil o que aconteceu?

Sou apaixonado por comunicação. Aos 15 anos, decidi que o jornalismo faria parte da minha vida. Mais tarde, formei-me em Direito e busquei especializações em História e Ciências Políticas. Talvez por isso eu tenha aprendido a olhar para uma notícia por mais de uma janela: a jurídica, a histórica, a política e, sobretudo, a jornalística.

 

É desse lugar que observo o debate público brasileiro — e confesso que, algumas vezes, tenho a sensação de estar diante de um curioso picadeiro, no qual a regra parece mudar conforme o personagem que entra em cena.

 

Não me incomoda que veículos de comunicação tenham posições editoriais. Isso faz parte da liberdade de imprensa. O que me incomoda é quando a mesma decisão recebe interpretações diferentes conforme quem dela se beneficia ou é prejudicado.

 

E essa inquietação ganhou uma dimensão ainda maior nos últimos dias.

 

Não me parece irrelevante que, justamente quando o debate sobre o Judiciário brasileiro se intensifica, surjam revelações sobre recursos públicos norte-americanos destinados a iniciativas relacionadas à democracia, aos direitos humanos e a instituições brasileiras.

 

O The Guardian revelou que mais de US$ 175 milhões do Human Rights and Democracy Fund, do Departamento de Estado dos Estados Unidos, foram destinados a 43 projetos, entre eles uma iniciativa relacionada a grupos que questionam a atuação do Supremo Tribunal Federal brasileiro.

 

Isso, por si só, não prova uma operação de interferência nas eleições brasileiras. Mas é informação suficientemente séria para merecer investigação, transparência e jornalismo.

 

E é aqui que minha pergunta aparece: coincidência ou parte de uma estratégia maior?

 

A influência de Washington sobre a América Latina não é novidade histórica. Basta lembrar o golpe militar de 1964. O que merece atenção agora é saber até onde vão esses recursos, quem os recebe, quais projetos financiam e se dinheiro destinado oficialmente à democracia e aos direitos humanos pode estar sendo empregado, direta ou indiretamente, para influenciar disputas políticas e institucionais internas.

 

Não precisamos de uma conclusão pronta. Precisamos das perguntas certas.

 

Quem financia? Quem recebe? Quem se beneficia? Quais são os fatos comprováveis? E quais são apenas interpretações?

 

É justamente isso que espero do jornalismo.

 

Veja, então, a sucessão de episódios envolvendo os debates eleitorais e as decisões judiciais.

 

Quando Kassio Nunes Marques determinou a inclusão de Romeu Zema nos debates, a decisão foi apresentada por alguns como garantia de participação e, por outros, como interferência judicial.

 

Pouco depois, Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos no debate da Globo, contrariando decisões anteriores de Kassio Nunes Marques e Cármen Lúcia.

 

E então veio a decisão da ministra Estela Aranha, do TSE, que proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio reservado a Lula e também impediu que os candidatos presentes dirigissem perguntas ao candidato ausente.

 

Mas aqui há uma distinção que considero fundamental — e que não deveria desaparecer no meio da disputa política:

 

não foi o Poder Judiciário que cancelou o debate.

 

A Justiça tomou decisões sobre as condições em que o debate poderia ser realizado. Flávio Bolsonaro, que havia confirmado anteriormente sua participação, acabou desistindo poucas horas antes do programa, atribuindo sua decisão às mudanças determinadas pela Justiça Eleitoral, o que me parece um oportunismo bolsonarista.

 

Depois disso, quem decidiu cancelar o debate foi a própria Globo. Repito: não foi a justiça.

 

E essa diferença, que pode parecer pequena, é enorme para quem trabalha com comunicação.

 

A emissora tinha, evidentemente, o direito de decidir que não realizaria o programa nas condições que se apresentavam. Mas uma coisa é afirmar que decisões judiciais alteraram as regras do debate. Outra, completamente diferente, é deixar no imaginário do público a ideia de que foi a Justiça que cancelou o debate.

 

Não foi.

 

O Judiciário decidiu sobre regras.

 

Flávio decidiu não participar.

 

E a Globo decidiu não realizar o debate.

 

São três decisões diferentes — e transformá-las em uma única narrativa simplifica justamente aquilo que o jornalismo deveria explicar.

 

Mais interessante ainda é observar como essa narrativa pode acabar produzindo efeitos políticos.

 

Se a desistência de Flávio é apresentada como consequência direta da interferência judicial, e o cancelamento da Globo também é colocado na conta do Judiciário, cria-se uma história bastante conveniente: a de que a Justiça teria interferido no debate, prejudicado um candidato da direita e, finalmente, inviabilizado o programa.

 

Mas os fatos são mais complexos.

 

E talvez seja justamente essa complexidade que esteja sendo perdida.

 

Há, ainda, uma questão que considero legítima investigar: até que ponto determinadas narrativas internas podem convergir com interesses externos?

 

Alguns analistas internacionais têm interpretado a pressão sobre instituições brasileiras e determinadas iniciativas de financiamento estrangeiro como movimentos que podem convergir com interesses estratégicos dos Estados Unidos. Outros rejeitam essa interpretação e entendem que estamos diante, essencialmente, de conflitos políticos brasileiros.

 

Eu não acho que o jornalismo deva escolher antecipadamente entre essas explicações.

 

Mas também não acho que deva ignorá-las.

 

A pergunta precisa ser feita.

 

Quem financia? Quem influencia? Quem ganha espaço? Quem perde espaço? Quem estabelece a narrativa? E quais dessas conexões podem ser comprovadas documentalmente?

 

Existe uma diferença enorme entre informar que determinado recurso estrangeiro foi destinado a uma organização e afirmar que esse dinheiro foi utilizado para produzir determinado resultado político.

 

Assim como existe uma diferença entre uma emissora tomar uma decisão editorial e afirmar que ela o fez para atender aos interesses de um governo estrangeiro.

 

Uma coisa precisa ser comprovada antes de ser transformada em conclusão.

 

É justamente por isso que a minha crítica não é contra a investigação dessas possibilidades. É a favor dela.

 

Porque, quando aparecem dinheiro estrangeiro, interesses políticos, decisões judiciais e grandes veículos de comunicação envolvidos no mesmo episódio, o mínimo que se espera do jornalismo é transparência.

 

Veja novamente a questão dos debates.

 

A pergunta que me interessa vem antes da preferência política:

 

qual é a regra — e ela vale igualmente para todos?

 

Não se trata de defender Lula, Flávio, Renan, Zema ou qualquer outro personagem. Trata-se de defender uma regra capaz de sobreviver aos nomes que ocupam o palco.

 

E aqui a História ajuda a entender o tamanho da controvérsia.

 

Em 2006, Lula faltou ao debate da Globo e a emissora deixou uma cadeira vazia em seu lugar. Os adversários puderam explorar politicamente a ausência — algo que também já ocorreu em outros debates e com outros candidatos.

Vinte anos depois, porém, a mesma imagem passou a ser tratada pela Justiça Eleitoral como inaceitável.

A questão, portanto, não é apenas quem está certo ou errado. É também questionar por que uma prática que já fez parte da história dos debates eleitorais passou a ser tratada de forma diferente — e qual é a responsabilidade da própria Globo nessa mudança de postura.

A pergunta é mais incômoda:

 

se uma prática foi aceita em determinada circunstância, em que momento ela deixa de ser válida? E qual é o critério para decidir isso?

 

Também chama atenção a discussão sobre os critérios legais para participação nos debates. A legislação estabelece requisitos relacionados à representação partidária, enquanto decisões judiciais podem interpretar esses requisitos diante das mudanças ocorridas no sistema partidário.

 

É justamente aí que o jornalismo deveria fazer seu melhor trabalho: explicar o que diz a lei, o que decidiu a Justiça, quais foram os argumentos de cada lado e quais são as consequências.

 

Não escolher antecipadamente quem será o mocinho e quem será o vilão.

 

Foi estudando História que aprendi que a narrativa sobre um acontecimento pode ser tão poderosa quanto o próprio acontecimento. Foi estudando Direito que compreendi que uma mesma norma pode produzir controvérsias quando aplicada a situações diferentes. E foi o jornalismo que me ensinou que nossa obrigação é colocar essas contradições sobre a mesa.

 

Por isso, quando vejo decisões judiciais sendo celebradas ou condenadas conforme o beneficiário político do momento, acende-se uma luz amarela.

 

A imprensa tem o direito de criticar a Justiça. A Justiça tem o dever de decidir segundo a Constituição e as leis. As emissoras têm o direito de decidir sobre sua programação. Os candidatos têm o direito de participar ou não dos debates dentro das regras estabelecidas. E o cidadão tem o direito de conhecer os fatos sem receber uma narrativa pronta como se fosse a única possível.

 

No fundo, minha inquietação não é apenas com a Globo.

 

É maior.

 

É com qualquer veículo de comunicação que confunda informação com condução da opinião pública. É com qualquer grupo político que enxergue “democracia” quando ganha e “perseguição” quando perde. É com qualquer instituição que descubra a importância das regras apenas quando elas lhe são convenientes.

 

Aprendi, ao longo dos anos, que comunicação é poder.

 

Quem escolhe a pergunta controla parte da narrativa. Quem escolhe quem aparece controla parte do enquadramento. Quem decide o que merece destaque interfere na percepção do público.

 

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quem está falando?”.

 

É também:

 

qual é a regra? Ela foi aplicada igualmente? Quem tomou a decisão? Quem ganhou e quem perdeu com ela? O que é fato? O que é interpretação? E quem está pagando a conta dessa narrativa?

 

Talvez essa seja a diferença entre jornalismo e propaganda.

 

E talvez seja justamente aí que o picadeiro deixe de ser espetáculo e volte a ser aquilo que deveria ser desde o começo: um espaço público de debate, onde ninguém precise de uma cadeira vazia para perceber que, quando as regras não são iguais para todos, a democracia inteira acaba sentada no lugar errado.

Mas, na verdade, se perguntarmos ao cidadão quem está ganhando nessa história toda, que mais parece um jogo de xadrez, a resposta, com certeza, será: Lula!

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

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