O doce das crianças e a morte (miniconto)

Miniconto é um tipo de conto muito pequeno, digamos que com no máximo uma página, ou um parágrafo. Alguns dizem que ele é o primo mais novo do poema em prosa, outros apontam as fábulas chinesas como origem, de certo é que desde meados do século XX o conto tem experimentado – com sucesso – formas extremamente breves a partir de textos de gente como Cortázar, Borges, Kafka, Arreola, Monterroso, Trevisan e o nosso Manoel Barbosa que apresenta aqui seu miniconto:

“O doce das crianças e a morte.

Aquela tarde de sol estava maravilhosa. As aulas transcorriam normalmente.  Em certo momento, a diretora do liceu veio à sala de aula e cochichou algo para a nossa professora.   Logo, as feições delas se tornaram graves. A nossacuriosidade juvenil foi aguçada. Precisávamos saber o que se passava. Então, a professora nos olhou com consternação e avisou:

– Vocês serão dispensados das aulas nesta tarde. Ao ouvir aquilo, a turma fez um “uau” de alegria. Mas ela emendou:

– O Seo Kito da banquinha faleceu.

Aquilo foi um ártico a cortar nossa mente juvenil. Não estávamos acostumados com a morte. Nesta época, eu estava com onze anos e só olhava para frente. A palavra passado nada mais era que alguns segundos atrás. Só isso.  Depois daquele choque inicial, voltamos à vida e da sala saímos direto para o pátio a brincar, a  gritar e, sim, por que não?, a brigar. Pois isso fazia parte do dia. Uns nem chegaram à porta da escola e já chutavam uma bola de futebol. As meninas faziam grupinhos com seus caderninhos coloridos. Outros se atracavam ali mesmo para tirar alguma diferença. De repente, a instituição educacional era um alarido só.

O falecido Seo Kito nos acompanhava desde o ensino fundamental, quando abriu uma vendinha para vender guloseimas e refrigerantes em frente à escola. No início, a direção e os professores desconfiaram daquele negro velho, alto e sorridente. O preconceito aflorava numa região colonizada por imigrantes brancos vindos da Europa. Lá nos seus países, não havia negritude. E a cor era diferente despertou, um dos piores sentimentos que há no homem, o preconceito.  E assim, os imigrantes incorporaram a visão dos senhores de engenho local e seus herdeiros que diziam que os negros são preguiçosos, são malandros, …cometem atos ilícitos.  Ainda hoje, persiste essa concepção de que crimes, como a distribuição de drogas ilícitas nas portas das escolas,    são sempre praticados pelos negros e pobres. Ele pertencia a essa ralé, conforme o pensamento conservador e reacionário. A desconfiança sobre as atitudes do Seo Kito, era maior ainda, porque ele sempre conversava com as crianças. Depois da escola e pais muito investigar, constataram que o negro dava conselhos à meninada.

– Estude menino para não sofrer na vida que nem eu!

– Não vai perder a aula!

– Cuidado ao atravessar a rua!

– Ponha a blusa menina que está frio, senão vai ficar resfriada!

E por fim, aquele negro que contrastava conosco na cor e que já havia ganho os corações dos alunos, arrebatou também os dos mestres e dos pais.

Ainda assim, achei estranho ser dispensado da escola pela morte de alguém. Não diziam que o estudo era a coisa mais importante? E agora nos deixavam ir, assim, sem muita explicação. Na saída, não segui o caminho direto para casa, como sempre fazia. Não sei o por quê, sentia um vazio e decidi chutar pedras e, como havia muitas ao redor, comecei de imediato! O que aparecia de pedregoso na minha frente eu chutava. Outros meninos viram aquilo e partiram para a brincadeira. A garotada  fazia aquilo rindo. Mas para mim não tinha graça não. Aquele negro morto era um cara alumiado. Bom, pelo menos para mim.  Tinha sempre um sorriso no rosto. E rindo, dizia coisas sérias que meus pais me diziam ralhando. Adorava ver o jeito bondoso do Seo Kito tratar as crianças. Aquela paciência. Aquela alegria. Além de vender doces e balas, ele tinha uma diversão que era fazer uma estrela para cada criança e dar uma qualificação para cada um. Certo dia, a menina que eu gostava, a Maria,   disse bem alto, enquanto rodopiava com os braços abertos  ao vento:

– Eu adoro vento!

No dia seguinte, o Seo Kito a presenteou com uma pequena estrela feita de cimento com uma pedra no centro e uma inscrição: “Menina do Vento”. Eu ganhei uma inscrição “Menino dos Lápis”, pois fazia coleção deles. O meu amigo Peixinho que adorava futebol ganhou uma inscrição: “O Goleador”. E assim por diante, praticamente todos na escola receberam um adjetivo. Portanto, a morte daquele velho era um baque para a piazada. Enquanto chutava pedras, por instantes fiquei pensando se no dia seguinte a banquinha de guloseimas iria funcionar. E conclui que não. Me perguntava o que ia acontecer depois e não vislumbrava nada. Depois de chutar uma porção de pedras, percebi que já estava perto de casa. O tempo demorou, mas eu morava ao lado do liceu. Quando entrei em casa mamãe me disse que estava preocupada comigo.

– O café está na mesa.

Olhei o bolo que ela postara sobre a mesa e não pude deixar de lembrar-me novamente do Seo Kito.

– Mãe!  Depois posso ir ao velório? Todo mundo da escola vai! , menti para ver se ela deixava.

– Todo mundo?

– É todo mundo, o Neto, o Sérgio, a Soninha… E enumerei uns dez!, até que ela acabou cedendo:

– Está bem! Vai ser na casa dele mesmo. E concluiu: – É pertinho, depois eu passo lá com o seu pai.

Assim ao cair da noite, fui até a casa do falecido. Ela ficava nos fundos da banquinha de vender guloseimas. Uma casinha humilde de madeira. O quiosque e a moradia foram construídas de tábuas disformes aproveitadas de sobras de construção civil. A sala, a cozinha e a área de refeição eram num só ambiente. Ao fundo ficava o quarto do casal, Dona Nega e o falecido. No meio da sala, debaixo da única lâmpada, o Seo Kito de terno preto e rosto brilhando. Parecia estar dormindo. Na cabeceira do caixão, a sua mulher. Cinquenta anos de união matrimonial. A velhinha negrinha era miudinha. Ela tinha uma sequela decorrente de um acidente vascular cerebral que fazia com que balançasse a cabeça e mexesse a boca como se mascasse um chiclete. Sem parar! E os olhos repetiam um tique nervoso abrindo e fechando e revirando para o lado. Ela não falou nada. Só ficava olhando o morto.

Quando cheguei, quase toda a minha turma estava presente. Além dos parentes e alguns amigos da família do falecido. Todos estavam estáticos, enquanto rezavam ou olhavam o morto. Eu fiquei procurando a Maria, a menina do vento, para ver se ela tinha vindo. Olhava de soslaio para todo canto e, depois de tanto procurar, conclui que não viera. Algum tempo depois, meus pais entraram, cumprimentaram a Dona Nega, ficaram pouco tempo e foram embora. Antes de irem, a minha mãe alertou-me para não ficar muito tempo. Olhei para o relógio da parede que marcava oito horas. Foi nesse exato momento que a Tia Zita que era a irmã do Seo Kito avisou:

– Quem tiver fome venha para a banquinha. Lá tem bolo, café, pão, comida.

Não demorou muito, as pessoas foram saindo e se dirigindo a banquinha. Lá dentro estava repleto de guloseimas e mais guloseimas. O irmão do morto, o Tio Caé começou a contar umas histórias do Seo Kito sobre quando eram pequeninos. Eram muitas as peripécias dos dois a vida toda. Demos boas gargalhadas. Cada um foi contando e repetindo as histórias do Seo Kito. Além das que ele contava para a piazada, nos divertíamos recordando as conversas gostosas que tivemos com ele próprio. Todo mundo tinha algo a falar do negro sorridente. Então o velório se transformou em diversão.  Os causos envolvendo o morto iam sendo contados, enquanto que eu… soltava a imaginação! No meio da conversa, apareceu um copo de aguardente que os adultos tomavam e, às vezes,  o esqueciam sobre o balcão, onde se encostavam. E eu, disfarçadamente,  pegava aquele copo e tomava um trago. Quanto mais eu tomava mais as histórias ficavam coloridas, agitadas. Mas, quanto mais entornava o copo,  mais embaralhados iam ficando os causos. Até que alguém falou:

–  A Dona Nega ficou sozinha com o morto!

Então, fomos até a porta da vendinha e olhamos para a casinha na escuridão. Não sei se os outros viram, mas eu vi uma luz bem encima do defunto e a velhinha na penumbra atrás na ponta do caixão. Fechei os olhos, olhei de novo,  e parecia que a casinha estava subindo para o céu negro estrelado com a sua luzinha acessa clareando o negro morto e a sua companheira. Foi aí e quando que um aguaceiro desabou e a chuva insistentemente passou a repicar sobre o telhado de zinco. Era um barulho ensurdecedor. Um arrepio percorreu meu corpo e meu coração  disparou. Eu me agarrei ao copo da aguardente e o entornei tão depressa que a maldita desceu queimando a garganta e o cérebro. Então… tudo passou a girar: a banquinha, as pessoas e os personagens das histórias. E ali fiquei sentado estatelado,  ainda ouvindo as histórias.

À meia-noite, eu estava num canto encolhido, no chão batido, quando alguém me cutucou. Era a minha mãe que viera em meu encalço.

– Embora já para casa! Já!

No caminho foi aquele sermão. Enquanto minha cabeça ainda girava, as minhas orelhas ficaram ardendo só de ouvir o ralhar. Mas o pior estava por vir. Ao chegar a minha casa, ela foi logo dizendo para o meu pai que eu estava bebendo. E minha mãe gritava bem alto:

– Onde se viu um menino nesta idade bebendo! Olha o cheiro de cachaça!

Meu pai não falou nada, só senti a cinta de couro lambendo as minhas costas e as minhas pernas, e o ardor subindo em queimação. Não ouvi nada, não respondi nada, só senti uma dor imensa e as lágrimas foram escorrendo  e salgando a minha boca. A cabeça girava e eu só via a casinha alumiada subindo para o céu com o Seo Kito deitado no caixão e a Dona Nega dentro com as mãos unidas apertando o rosário.

 

Manoel Valdemar Barbosa Filho

Advogado e escritor

Paranaguá-PR

 

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