Anunciada como possibilidade nos bastidores da transição de governo, a junção das duas áreas reacende o debate sobre o lugar das políticas culturais no Estado e os riscos de subordinar a diversidade artística a uma lógica predominantemente econômica.
A formação do próximo governo do Paraná começa a produzir inquietações para além dos gabinetes. A possibilidade de uma fusão entre as secretarias estaduais de Cultura e de Turismo, ventilada nos bastidores diante da promessa de redução de pastas, desperta preocupação entre artistas, produtores, gestores, trabalhadores da cultura e instituições culturais. O debate vai muito além de um organograma administrativo: envolve a concepção de Estado, as prioridades do poder público e o reconhecimento da cultura como um direito da população.
O governador eleito, Sérgio Moro (PL), anunciou os primeiros nomes de sua equipe e sinalizou, durante a campanha, a intenção de enxugar a estrutura administrativa. Nesse contexto, a eventual incorporação da Cultura ao Turismo passa a ser observada com atenção por um setor que depende de políticas públicas continuadas, mecanismos de financiamento, editais, formação, preservação do patrimônio e apoio à produção artística em todas as regiões paranaenses.
É importante distinguir, neste momento, o que está oficialmente anunciado daquilo que circula nos bastidores: a possível fusão das duas áreas, conforme o cenário apresentado, ainda precisa ser tratada como hipótese, e não como decisão formalmente confirmada. Mas a ausência de uma definição não elimina a relevância do debate. Ao contrário, torna urgente que o setor cultural seja ouvido antes de qualquer mudança estrutural.
Cultura não é apenas um produto turístico
A aproximação entre cultura e turismo pode gerar oportunidades. Festivais, museus, festas populares, patrimônio histórico, gastronomia tradicional, artesanato e manifestações culturais ajudam a movimentar economias locais, atrair visitantes e fortalecer a identidade dos territórios. Essa relação, quando construída com planejamento e respeito às comunidades, pode beneficiar tanto a atividade turística quanto a produção cultural.
O problema surge quando a cultura passa a ser compreendida prioritariamente por sua capacidade de atrair público, gerar receitas ou promover destinos. A política cultural tem objetivos que não se esgotam na economia: garantir o acesso aos bens simbólicos, estimular a criação, preservar a memória, proteger manifestações populares, fomentar linguagens experimentais e assegurar condições para que artistas produzam mesmo quando suas obras não apresentam retorno comercial imediato.
Uma peça teatral de pesquisa, um grupo de dança independente, uma companhia de circo, uma orquestra comunitária, uma biblioteca pública ou um projeto de formação artística em um município distante dos grandes centros não precisam justificar sua existência pelo número de turistas que conseguem atrair. Seu valor também está na educação, na liberdade de expressão, na convivência, na reflexão crítica e no direito de uma comunidade produzir e compartilhar suas próprias narrativas.
Essa distinção é central. O turismo pode utilizar a cultura como um de seus ativos, mas a cultura não pode ser reduzida a um ativo do turismo.
O risco de perder prioridade dentro da máquina pública
A criação ou a fusão de secretarias, por si só, não determina o sucesso ou o fracasso de uma política pública. Uma estrutura integrada pode funcionar quando há planejamento, orçamento protegido, equipes qualificadas, competências claras e participação social. Da mesma forma, uma secretaria exclusiva não garante, automaticamente, recursos suficientes ou uma gestão eficiente.
A preocupação do setor está, portanto, menos no nome da pasta e mais nas consequências práticas de uma eventual reorganização. Se a Cultura perder autonomia decisória, espaço institucional, capacidade técnica ou prioridade na distribuição de recursos, as consequências poderão atingir diretamente quem produz, ensina, pesquisa, preserva e mantém viva a vida cultural paranaense.
Uma fusão também pode gerar disputas por orçamento, equipes e prioridades. Em uma estrutura na qual diferentes áreas concorrem pela atenção da mesma administração, será fundamental saber se haverá dirigentes com experiência específica em políticas culturais, planejamento plurianual, instrumentos próprios de financiamento e canais permanentes de diálogo com a sociedade.
A pergunta que precisa ser respondida não é simplesmente se duas secretarias podem funcionar sob o mesmo comando. É outra: quais garantias assegurarão que a política cultural não se torne secundária diante das demandas do setor turístico?
O Paraná não se resume aos grandes eventos
A diversidade cultural paranaense exige uma política pública capaz de reconhecer realidades muito distintas. A produção artística de Curitiba e da Região Metropolitana convive com iniciativas independentes no interior, manifestações populares, culturas tradicionais, patrimônios materiais e imateriais, espaços comunitários, grupos amadores, coletivos profissionais e projetos de formação que nem sempre encontram visibilidade nos circuitos comerciais.
Uma política orientada apenas por indicadores de visitação, impacto econômico ou promoção de destinos corre o risco de privilegiar aquilo que oferece resultados mais imediatos e mensuráveis. Atividades de formação, preservação, pesquisa, experimentação e acesso cultural, por sua vez, frequentemente exigem investimentos de longo prazo e apresentam resultados que não cabem em métricas exclusivamente turísticas.
A questão é especialmente relevante para municípios que dependem de programas estaduais para manter equipamentos, viabilizar projetos, formar públicos e ampliar o acesso à produção artística. Sem critérios transparentes e mecanismos de distribuição territorial dos recursos, uma mudança administrativa pode aprofundar desigualdades que as políticas públicas deveriam enfrentar.
A cultura precisa chegar a quem produz fora dos grandes centros, a quem não dispõe de patrocínio privado e a quem atua em linguagens que não se convertem facilmente em atração comercial. Essa é uma das funções essenciais do poder público.
Eficiência administrativa precisa ser demonstrada
Reduzir o número de secretarias pode ser apresentado como medida de simplificação da máquina pública. Mas a economia real de uma fusão depende de dados, planejamento e avaliação. É necessário saber quais despesas seriam efetivamente eliminadas, quais estruturas seriam compartilhadas e quais custos poderiam surgir com a reorganização de equipes, competências e procedimentos.
Uma mudança administrativa não representa, necessariamente, redução proporcional dos gastos. Tampouco significa melhoria automática dos serviços. Para avaliar a proposta, será preciso conhecer seus objetivos, as estimativas de economia, os impactos sobre a execução dos programas e as garantias de continuidade das políticas já existentes.
No caso da Cultura, a discussão deveria incluir questões concretas: haverá orçamento próprio e identificável? Os editais e programas de fomento serão mantidos? Como ficarão os equipamentos culturais e as ações de preservação do patrimônio? Quem responderá pelas políticas específicas do setor? Como será garantida a participação dos conselhos e da sociedade civil nas decisões?
Sem respostas públicas para essas perguntas, a promessa de enxugamento administrativo permanece incompleta como justificativa para uma alteração que pode repercutir sobre toda a cadeia cultural do Estado.
O que a classe artística precisa cobrar
Diante da possibilidade de mudança, a mobilização do setor cultural pode contribuir para que a discussão não se limite à escolha de nomes e ao desenho de estruturas burocráticas. O momento exige transparência, diálogo e compromissos verificáveis.
Entre os pontos que merecem esclarecimento estão a manutenção dos mecanismos de financiamento, a continuidade dos editais, a valorização dos trabalhadores da cultura, a preservação do patrimônio, a descentralização dos investimentos e a existência de uma equipe com conhecimento técnico para formular e executar políticas culturais.
Também é fundamental que artistas, produtores, gestores, conselheiros, instituições e representantes dos municípios tenham espaço para apresentar suas demandas antes que uma eventual reorganização seja definida. A participação social não deve aparecer apenas depois da decisão, como mecanismo para administrar insatisfações. Precisa integrar o processo de formulação da política pública.
Se a proposta for efetivamente apresentada, o governo terá a oportunidade de demonstrar, com medidas concretas, que a racionalização administrativa não significará enfraquecimento da Cultura. Isso exigirá mais do que declarações de intenção: serão necessários compromissos públicos, instrumentos de acompanhamento e garantias institucionais.
Uma decisão administrativa que diz muito sobre a política cultural
A discussão sobre uma possível fusão entre Cultura e Turismo coloca em evidência uma escolha de prioridades. O Paraná pode buscar maior integração entre as duas áreas sem ignorar suas diferenças de finalidade, seus instrumentos de gestão e suas responsabilidades perante a sociedade.
O turismo tem papel importante na dinamização econômica e na valorização dos territórios. A cultura, entretanto, não existe apenas para promover lugares, movimentar hotéis ou compor roteiros de visitação. Ela também questiona, experimenta, preserva memórias, revela conflitos, amplia horizontes e dá expressão a grupos e comunidades que nem sempre ocupam o centro das decisões econômicas.
Por isso, a inquietação da classe artística merece ser considerada no debate público. Não se trata de presumir que toda fusão será necessariamente prejudicial, mas de exigir que uma mudança dessa dimensão seja avaliada por seus efeitos concretos sobre o direito à cultura e sobre as condições de produção artística no Estado.
Se o objetivo é tornar a administração mais eficiente, o governo terá de demonstrar como fará isso sem comprometer a continuidade, a diversidade e o alcance das políticas culturais. A sociedade paranaense tem o direito de conhecer os critérios dessa escolha e de participar da discussão.
A questão decisiva não é quantas secretarias o próximo governo terá, mas que lugar a cultura ocupará em seu projeto para o Paraná.
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