HISTÓRIA DA CACHAÇA

Para saber da cachaça há de se conhecer a trajetória do povo, da nação brasileira. O preço barato da bebida, a sua possibilidade popular, o seu consumo democrático fizeram da história da cachaça muito parecida com a do nosso povo. A história deste país foi movida a cachaça, não dá para fugir. Antes de ser um produto econômico, uma mercadoria, a cachaça é uma façanha da gente brasileira, uma das mais belas e autênticas expressões da nossa cultura. Está presente nas artes, na religiosidade da nossa gente, nas festas, na culinária, medicina, música, dança, enfim, no seu imaginário, no seu cotidiano de lazer e de prazer, de sonho, trabalho e realização. É uma história que vale a pena conferir….

 

Capítulo I – Há muito tempo atrás

Registros existentes indicam que os primeiros a saborear algo parecido com o que hoje conhecemos como cachaça foram os Egípcios. Bem, eles não “saboreavam” exatamente, o que eles faziam era curar um eventual mal estar, inalando vapor de líquidos aromatizados e fermentados, absorvido diretamente do bico de uma chaleira, num ambiente fechado.

 

Já os Gregos, no Tratado de Ciência escrito por Plínio, que viveu entre os anos 23 e 79 d.C., registram o processo de obtenção da acqua ardens – a “água que pega fogo” – absorvendo, com um pedaço de lã, o vapor da resina de cedro, do bico de uma chaleira. Ao torcerem a lã, obtinham o líquido chamado alkuhu.

Os alquimistas da época atribuem à bebida propriedade medicinal e mística, transformando-a em “água da vida”. A expansão do império Romano leva a água ardente por toda a Europa e para o Oriente Médio, cabendo aos árabes a invenção de equipamentos de destilação muito parecidos com os utilizados até hoje.

 

Com a tecnologia de produção bem definida, tanto no Velho quanto no Novo Mundo, o processo de destilação passa a ser aplicado em frutas e cereais típicos de cada região.

 

Claro, a essa altura você já deve estar se perguntando, e a nossa cachaça? E a cana-de- açúcar?

 

Capítulo II – Portugal, Brasil e cachaça, ora pois!

Os Portugueses absorvem a tecnologia de destilação criada pelos árabes e iniciam a destilação do bagaço da uva, produzindo a bagaceira, que bem pode ter sido o embrião para o surgimento da nossa cachaça.

 

Nesse mesmo período lançam-se ao mar e trazem ao Brasil a cana-de-açúcar do sul da Ásia, com o ímpeto explorador e tentando tomar posse das terras descobertas no lado oeste do Tratado de Tordesilhas. Estava, portanto, criada uma nova colônia portuguesa de caráter agrícola. Como pode se prever, tudo que os colonizadores consumiam na colônia era proveniente do Império, assim sendo, eram servidos a já mencionada bagaceira e o vinho do porto.

 

Ao mesmo tempo, era preciso dar de comer aos animais e aos escravos (que nessa época não eram considerados tão diferentes uns dos outros), e eis que surge entre 1533 e 1548, num engenho da Capitania de São Vicente o vinho de cana de açúcar chamado de Garapa Azeda. Inicialmente colocada nas cocheiras para os animais, a bebida passa rapidamente a ser servida também aos escravos pelos Senhores de Engenho, que a denominam cagaça.

 

Da destilação da cagaça surge a incomparável cachaça! Essa descoberta impulsiona a multiplicação das destilarias ou “casas de cozer méis” no século XVI até metade do século XVII.

 

A cachaça torna-se moeda corrente para o escambo de escravos na África e alguns engenhos passam a dividir a produção entre o açúcar e a bebida. Com a descoberta de ouro em Minas Gerais, uma enorme população chega de todos os cantos do país, construindo cidades sobre as frias montanhas da Serra do Espinhaço. É um ambiente perfeito para a degustação da cachaça, que ameniza a temperatura incrivelmente baixa daquela região.

 

Se por um lado o clima das montanhas era frio e estimulava o consumo, a cachaça estava prestes a deixar a relação entre Império e a colônia muito quente…

 

Capítulo III – Uma pausa para a revolta da Cachaça

Com o passar do tempo, o que era inicialmente bebida de escravos teve seu processo produtivo cada vez mais aprimorado, atraindo vários consumidores e passando a ter importância econômica no Brasil colônia. Descontentes com o crescente consumo da cachaça e a conseqüente desvalorização da bagaceira e dos vinhos provenientes da Corte, os Portugueses editam a Carta Real de 13 de Setembro de 1649 na qual proibem a fabricação e a venda da cachaça em todo país.

 

O consumo só era permitido aos escravos e em Pernambuco, que nessa época encontrava-se sob domínio holandês. Porém, em 1654 os holandeses são expulsos e a concorrência do açúcar brasileiro com o das Antilhas acaba diminuindo o lucro dos Senhores de Engenho.

 

Para compensar essa queda os Senhores passam a produzir a cachaça, obtendo lucro com o tráfico para Angola. Para coibir a ilegalidade, nova ordem é expedida, em 1659, ordenando a destruição de todos os alambiques da colônia, bem como a dos navios que transportassem o produto.

 

O caráter ilícito do comércio de cachaça nessa época não vigorava no estado do Rio de Janeiro, onde o seu governador Salvador Correia de Sá e Benevides havia liberado o consumo da cachaça, e o conseqüente pagamento de taxas relativas a ele, como forma de driblar a crise financeira vivida pelo setor açucareiro.

 

Embora na cidade do Rio de Janeiro não ocorressem incidentes, os produtores da região norte da Baía da Guanabara, rebelaram-se contra a taxa. O fato é que, mesmo com a interdição, a cachaça estava em todas as partes. Então, em 1661, o rei D. Afonso VI, sob a regência da rainha D. Luiza de Gusmão, suprimiu a proibição rídicula, inoperante e ineficaz.

 

Capítulo IV – Cachaça: a bebida do Brasil

   Em contrapartida à liberação do consumo e produção, a cachaça passa a ser taxada das mais diversas formas pela Metrópole portuguesa. Para se ter uma idéia, a aguardente de cana-de-açúcar foi um dos gêneros que mais contribuíram com impostos para a reconstrução de Lisboa após um enorme terremoto em 1755. Como se nas bastasse essa tributação, em 1772 foi estabelecido o subsídio literário, destinado ao pagamento de professores, só oficialmente revogado alguns anos após a independência. Certamente, toda esta situação tributária gerava um descontentamento generalizado.

 

Tamanha adversidade acaba transformando a cachaça num símbolo de resistência à dominação portuguesa e a bebida começa a ser apreciada por Inconfidentes e apoiadores da Conjuração Mineira.

 

Quando a revolução de 1871 irrompeu em Pernambuco, a cachaça mais uma vez foi o símbolo de resistência contra o domínio português. Imbuídos de típico nacionalismo os pernambucanos boicotaram os produtos do reino.

 

Assim, a aguardente de cana foi, em vários momento da nossa história, a marca da independência e da soberania da Nação. Era a bebida que unia nas conspirações libertárias, que estimulava os atos de bravura e selava as vitórias do povo. Todas as lutas, derrotas e conquistas sociais, políticas, econômicas e culturais do povo brasileiro parecem ter sido encharcadas com a cachaça.

 

E, passada a fase dos movimentos nacionalistas, chegou a independência em 1822. A História do Brasil evoluia, assim como o consumo da cachaças pelas mais diversas classes sociais, principalmente pela população mais simples, devido ao preço extremamente acessível.

 

Durante a Semana de Arte Moderna, que, em fevereiro de 1922, buscava romper as tradições acadêmicas nos campos literários e das artes plásticas e reforçar o acento brasileiro, a cachaça volta à mesa, acompanhando pratos tradicionalmente brasileiros. Desde então, passou a inspirar cantigas, trovas e rezas. Chegou a ser tema de músicas populares, nos sambas, marchinhas, frevos e serestas, como parte integrante da realidade histórica e social brasileira.

 

Discriminada, perseguida, proibida, pesadamente tributada, a cachaça percorre caminhos tortuosos até se firmar, definitivamente, como a bebida nacional. Heroicamente, vence tudo: ideologias, regimes, golpes, revoluções, legislações. Isto porque sempre foi a bebida do povo, da maioria. E só por isso sobreviveu. Cachaça e Povo parecem ter a mesma alma luminosa, feita de suor, resistência, mística, alegria, sensualidade e beleza. Povo e cachaça caminham juntos na história brasileira.

 

Com o passar dos tempos, as técnicas de produção se aprimoraram, se beneficiaram com os avanços tecnológicos. Um dos resultados é que, cada vez mais, a cachaça ganha espaço em bares e restaurantes do país, deixando para trás a pecha de bebida pouco nobre. Ao mesmo tempo, o exigente mercado internacional vem se rendendo à mais brasileira das bebidas. Ao servir de base para aperitivos como a caipirinha, traduzindo o sabor nacional, ganhou status de produto de exportação e tornou-se mais um símbolo do Brasil para o mundo, a exemplo do samba e do futebol.

 

Hoje, são incontáveis destilarias, de todos os portes, espalhadas pelo Brasil afora. Todas com o mesmo foco: aprimorar a qualidade do produto, romper quaisquer resquícios de preconceito em relação ao destilado – que porventura ainda resistam à brasilidade da cachaça – e abrir fronteiras rumo ao mercado externo, ajudando a divulgar a nossa cultura nos quatro cantos do planeta.

 

A Porto Morretes Premium, produzida em Morretes, na região serrana do Paraná, foi eleita a melhor cachaça do Brasil com prova realizada durante a 2ª edição da Cúpula da Cachaça em 2016, o concurso de cachaça mais importante do país.

 

Enfim, com um passado assim tão rico, com um presente que resgata a sua história e a sua importância econômica, o futuro da cachaça está batendo à porta. E certamente promete muitas, novas e grandes emoções pra quem gosta de brindar a vida com uma “da boa”. E essa história ainda não chegou ao fim e, naquilo que depender da Cachaça Express, só tem a evoluir a cada dia.

 

Viva a cachaça e saboreie com moderação!

Fontes:

 

Cachaça – Prazer Brasileiro / Marcelo Câmara

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