A sempre moderna música de Quatro Azes e um Coringa

Nas décadas de 30 e 40 as rádios reinavam absolutas. Era a chamada época de ouro, na qual as emissoras, recém popularizadas, funcionavam a todo vapor. Contratavam conjuntos musicais, produziam radionovelas e investiam no jornalismo de qualidade, sem que houvesse qualquer outro suporte de difusão, a exemplo da TV, que pudesse concorrer com o seu poder de atração.

As músicas de carnaval — produzidas para cantar e encantar os “três dias de folia” e se tornaram inesquecíveis — haviam chegado ao final do século forçando todas as comportas que asseguravam a tranquilidade da música bem comportada dos salões. Uma brasilidade moderna surgia no amálgama de ex-escravos e novos assalariados, profissionais de ofício, oriundos das mais diversas nacionalidades, gente dos setores mais humildes do serviço público e do comércio, etc., etc.

Há tempos, as folias de rua haviam encontrado seus ritmos, instrumentos, suas “passeatas”, mestiçagem, versos irônicos, paródias. Os gêneros de carnaval e da música popular se fixaram, então, por volta de 1930 e, logo profissionais do rádio, das gravadoras, domesticavam a marcha, o samba, etc., em função dos interesses comerciais (caso do samba-canção, destinado ao consumo de meio de ano), afora as razões de cunho político — mais claramente, a partir do advento do Estado Novo com suas “sinfonias cívicas”.

Enquanto o samba-canção estacionava e outros ritmos iam surgindo, enriquecendo ou sofisticando as expressões musicais brasileiras, em 1946, o baião nordestino aparecia estilizado pelo acordeonista Luiz Gonzaga e o advogado Humberto Teixeira (pernambucano e cearense, respectivamente), uma marcação forte, desconcertante cadência que ganhava a preferência popular, inclusive para dançar. Em meio a esse panorama, surgia o Quatro Azes e um Coringa, grupo vocal e instrumental que se mantém, mesmo hoje, graças aos esforços de José Pontes, mentor e único remanescente do conjunto original. Os inúmeros e imensos sucessos lançados pelo quinteto, como Baião, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Terra seca, de Ary Barroso, e É com esse que eu vou, de Pedro Caetano, que mais tarde receberia versão na voz de Elis Regina, serviriam de referencial para todo um período da história da música popular.

Reunião de músicos

Naturais do Ceará, os irmãos Pontes migraram para o Rio em fins da década de 30. A intenção dos três (Evenor, José e Permínio) ainda não era a música, mas a busca por melhores oportunidades de estudo e trabalho na capital. No entanto, acabaram dando os primeiros passos no nicho musical já quando chegaram, ao reunir, periodicamente, instrumentistas na pensão onde moravam, em Copacabana. José tocava violão, enquanto seus irmãos arranhavam a gaita e o cavaquinho. Um outro cearense, pandeirista, apareceu, chamado André Batista Vieira, ou melhor, Melé.

Dali, passaram a fazer shows em escolas, como o Colégio Santa Martha, em Botafogo. Por essa época, também se inscreveram em vários concursos promovidos pelas rádios, mas, apesar de se apresentarem com relativa frequência, não conseguiram contrato algum. Desiludidos, rumaram para Fortaleza. “Nessa viagem nós fomos cantando no navio”, comenta José Pontes, e, a respeito do fato de também terem virado cantores, acrescenta: “No Rio é que começou a idéia do vocal, pois ficávamos ouvindo o Bando da Lua, o Anjos do Inferno, os Três Pinguins, os Trovadores, que eram grupos vocais. Eu ouvia e gravava os arranjos, as melodias e as letras.” Em Fortaleza conheceram Esdras Falcão, o Pijuca, um violonista que aceitou de imediato entrar no grupo. A essa altura, começaram a fazer carreira por aquelas bandas, ensaiando tanto as músicas já consagradas pelos conjuntos cariocas quanto as canções de autores cearenses, como Lauro Maia, compositor que teve várias de suas peças gravadas pelos cinco rapazes. Um episódio, no entanto, marcou a estadia do grupo em Fortaleza: a apresentação em público por ocasião do noivado da filha do dono do jornal O Povo, Demócrito da Rocha, com o filho do diretor da Ceará Rádio Clube, João Dummar. Foram ovacionados e, como pagamento suplementar, receberam a proposta de trabalhar na rádio cearense.

Meses depois voltaram ao Rio, onde conheceram César Ladeira, diretor da Rádio Mayrink Veiga, que, satisfeito com a performance dos cinco, os contratou para cantar em horário nobre. “Naquela época o rádio abria às sete e fechava às onze. Tinha show o dia todo”, relembra José.

Mesmo com formação e repertório definidos, ainda havia uma questão: o grupo tinha dúvidas a respeito do nome. No Ceará pensaram em Bando Cearense e, por sugestão do próprio José, ele conta, mudaram para Quatro Azes e um Melé, já que Melé era o apelido do André Batista. No entanto, este nome não surtia qualquer efeito no Rio, já que a palavra Melé não era usada por aqui, mas seu sinônimo: a palavra Coringa. Por fim, ao César Ladeira coube a tarefa de batizar o quinteto de Quatro Azes e um Coringa. Surgia assim, em caráter oficial, o conjunto que viria celebrar várias das canções que hoje residem no repertório carnavalesco brasileiro.

Da Tupi à Nacional

Já em 1941, com intervenção de João Dummar, o quinteto foi contratado pelo diretor da afamada Rádio Tupi, Theófilo Duarte. A princípio, estava escalado para participar do programa Os sertões, que ia ao ar uma vez por semana e possuía um elenco variado. Contudo, devido ao enorme número de cartas que chegou à emissora tecendo elogios ao grupo, o Quatro Azes passou a comandar um programa exclusivo, transmitido ao amanhecer e no fim da noite. José comenta: “Nessa época, o Anjos do Inferno estava na Rádio Tupi, e eles sentiram a pancada. Ficaram tão enciumados que começaram a fazer fofoca a nosso respeito.”

Ainda em 1941, realizaram, na Odeon, a primeira gravação, acompanhando Dircinha Batista em Ela disse que dá, de Assis Valente e Costela de cera, de Linda Batista. Esta última composta em homenagem a Assis Valente, que havia tentado suicídio atirando-se do morro Pão de Açúcar. Em novembro do mesmo ano, também pela Odeon, gravariam seu primeiro disco solo, com as faixas Os dois errados, de Estanislau Silva, Álvaro Alves e Nelson Trigueiro, e Dora, meu amor, de Constantino Silva e André Vieira.

A despeito de todas as picuinhas, a carreira do grupo estava em ascensão, e a prova disso é que em 1944 eles receberam um convite de Vitor Costa, diretor da Rádio Nacional, para conduzir um programa na emissora. “A Nacional tinha um sucesso maior do que tem hoje a Rede Globo”, afirma José. A Rádio Nacional tinha a peculiaridade de reunir em seu elenco um leque de estilos musicais, valorizando artistas regionais e abrindo espaço para músicos totalmente desconhecidos, provenientes, na maioria das vezes, das camadas populares, a exemplo de Herivelto Martins e Orlando Silva. Lá, o grupo teve que assumir diversas novas facetas, passando a dramatizar e a contar histórias ao lado de atores. Participaram do emblemático programa “Um milhão de melodias”, apresentado pelo ator Paulo Gracindo e dirigido pelo maestro Radamés Gnattali. As atrações iam desde canções folclóricas e marchinhas até foxes do cinema norte-americano em versão nacional.

Luta pela música

Enquanto nas rádios as perspectivas eram as melhores possíveis, fora dali os conjuntos musicais vinham perdendo terreno gradativamente. O Quatro Azes, acostumado a se apresentar em casas como o Atlântica e o Copacabana Palace, onde protagonizaram noites memoráveis, viram-se desempregados no momento em que o presidente Dutra determinou o fechamento dos cassinos, em 1945. Os cinemas e os circos foram os espaços que restaram para a exibição dos músicos. Numa dessas apresentações em uma sala de cinema, José recorda, tiveram o prazer de acompanhar Aracy de Almeida.

Com salários minguados, o Quatro Azes resolveu, em 1946, empreender uma viagem que abarcaria duas cidades da América do Sul — Buenos Aires e Santiago — e culminaria nos Estados Unidos. Nem tudo, entretanto, correu conforme planejado. De início, uma greve de músicos na Argentina minou todas as expectativas que tinham em relação àquele país e, por fim, os dois empresários que assessoravam o grupo os roubaram. Tiveram que se apresentar em cabarés e boates do Chile para se reerguer financeiramente e conseguir retornar ao Brasil.

Em 1947 o vento voltaria a soprar a favor desses marinheiros. A música Onde estão os tamborins, de Alcyr Pires e Pedro Caetano, faria estrondoso sucesso e, no ano seguinte, É com este que eu vou, também de Pedro, colocaria milhares de pessoas para pular o carnaval. “Em Buenos Aires todos conheciam nossas músicas”, comenta José, envaidecido.

Apesar do sucesso, havia alguns aspectos que os afligiam no que diz respeito a Rádio Nacional. Só que um deles incomodava tremendamente: o diretor, Vitor Costa, se promovia às custas dos artistas contratados, escalando-os forçosamente para se exibirem diante de autoridades, ministros e presidentes. José conta haver se apresentado inúmeras vezes para Getúlio Vargas. “Era um abuso”, lembra o músico. E isso ocorria, segundo José, quase sempre. “Chegou a um ponto que não aguentamos mais e passamos a mentir”, conta. Sempre que eram agendados para alguma apresentação dessa natureza, diziam que algum integrante do grupo estava doente e que não poderiam cantar. A mentira, no entanto, quando foi descoberta pelo diretor, acabou lhes rendendo o cancelamento do contrato, mas isso, após eles terem estourado, em 1953, com o sucesso Marcha do Pescador, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira.

Desempregados, foram admitidos novamente na Mayrink Veiga. O Coringa André Batista já havia se desligado do grupo e, outros artistas, ao longo dos tempos, o substituíram. O cantor Miltinho, por exemplo, foi um Coringa, tendo participado da gravação de um disco do Quatro Azes, assim como o irmão de Orondino da Silva, que introduziu o violão de sete cordas no Brasil. Ao todo, de acordo com José Pontes, existem de 200 a 400 gravações musicais do quinteto.

A chegada da Bossa Nova e da Jovem Guarda determinariam o fim da influência desses grupos vocais que fizeram sucesso nas décadas de 30, 40 e 50. Apesar disso, o Quatro Azes e um Coringa ainda resiste, fazendo shows, revivendo a época de ouro do rádio e entoando marchinhas de carnaval, sob a liderança do sempre forte José Pontes Medeiros.

Baião
(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Eu vou mostrar prá vocês
Como se dança o baião
E quem quiser aprender
Favor prestar atenção
Morena chega prá cá
Bem junto ao meu coração
Agora é só me seguir
Pois eu vou dançar o baião
O baião, o baião…
Eu dancei balanceio,
Xamego, samba e xerém
Mas o baião tem um quê
Que as outras danças não têm
Oi quem quiser é só dizer
Pois eu com satisfação
Vou dançar cantando o baião

É com esse que eu vou
(Pedro Caetano)

É com esse que eu vou
Sambar até cair no chão
É com esse que eu vou
Desabafar na multidão
Se ninguém se animar
Eu vou quebrar meu tamborim
Mas se a turma gostar
Vai ser pra mim (…)

Onde estão os tamborins?
(Pedro Caetano e Alcyr Pires Vermelho)

Mangueira,
Onde é que estão os tamborins, ô nega,
Viver somente de cartaz, não chega,
Põe as pastoras, na avenida,
Mangueira querida!
Antigamente havia grande Escola,
Lindos sambas do “Cartola”
Um sucesso de Mangueira,
Mas hoje o silêncio é profundo,
E por nada neste mundo,
Eu consigo ouvir, Mangueira!

Derramaro o gái
(Zé Dantas e Luiz Gonzaga)

Eu nesse coco não vadeio mais
Apagaro o candieiro e derramaro o gái
Apagaro o candieiro derramaro o gái
Coisa boa nesse escuro
Eu sei que não sai
Já não tão mais respeitando
Nem eu que sou pai
Pois me deram um beliscão
Quase a calça cai
Começando desse jeito
Não sei pra onde vai
Por isso nesse coco
Não vadeio mais (…)

Terra seca
(Ary Barroso)

O nêgo tá moiado de suó
Trabáia, trabáia, nego…
As mãos do nêgo tá que é calo só
Trabáia, trabáia nego…
Ai meu sinhô nêgo tá veio
Não aguenta!
Essa terra tão dura, tão seca, poeirenta…
Trabáia, trabáia nego…
O nêgo pede licença prá falá
Trabáia, trabáia, nêgo
O nêgo não pode mais trabaiá
Quando o nêgo chegou por aqui
Era mais vivo e ligeiro que o saci
Varava estes rios, estas matas, estes campos sem fim
Nêgo era moço, e a vida, um brinquedo prá mim
Mas o tempo passou
Essa terra secou …ô ô
A velhice chegou e o brinquedo quebrou ….
Sinhô, nêgo véio tem pena de ter-se acabado
Sinhô, nêgo véio carrega este corpo cansado

Por Luiza Nascimento

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