A potencialidade de Mário de Andrade: o modernista contemporâneo

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Por Norma Odara

“Abançado à escrivaninha em São Paulo

Na minha casa da rua Lopes Chaves

De supetão senti um friúme por dentro.

Fiquei trêmulo, muito comovido

Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!

muito longe de mim

Na escuridão ativa da noite que caiu

Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,

Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,

Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.”

É este Mário de Andrade, potente, vivo, inquieto que o ator Pascoal da Conceição interpreta com o poema do autor paulistano chamado o “Descobrimento”.

Pascoal deu vida a Mário na minissérie para televisão “Um só Coração”, em 2002, em homenagem aos 450 anos da cidade de São Paulo. Além da semelhança física com o do Mário Pascoal da Conceição foi conterrâneo do escritor, nasceu no mesmo dia e mês: 9 de outubro.

Ele diz que um dos aspectos em Mário que chamam a atenção é que ele tinha uma maneira ímpar de retratar a vida.

“O Mário de Andrade é um tipo de pensamento, é um jeito de pensar a vida. Toda a obra dele é um pouco isso. Tem maneiras de pensar o que é viver, comer, namorar, o que é andar, tem gente que pensa com as coisas todas afinadas, tudo de acordo, porque tem gente que acha que a vida é uma rendição o tempo todo, era uma aceitação complacente de tudo que nos acontece, como uma fatalidade, tem gente que não acha isso. “, conta.

Escritor paulistano, crítico literário, músico e ativista cultural, Mário de Andrade, lançou uma de suas mais célebres obras “Paulicéia Desvairada”, na mesma semana do movimento modernista brasileiro, que no ano de 1922 buscou rumos para a identidade e produção nacional brasileira.

Um dos seus livros mais representativos para literatura brasileira foi Macunaíma, que traz a história de um heroí às avessas, resultado de inúmeras pesquisas do autor sobre a cultura popular brasileira.

O ator Pascoal da Conceição comenta que a musa inspiradora de Mário, era a cidade de São Paulo, que pela primeira vez foi abordada como metrópole no livro Paulicéia Desvairada.

“É a cidade de São Paulo que é o guia do pensamento dele do que é o Brasil, do que é o mundo, do que é a vida. E o Mário de Andrade em 1930 é um cara que anda muito pela cidade, um cara que gosta de andar, jovem”, diz.

Sempre com o olhar atento Mário percorria o Cambuci, Brás e Barra Funda, nesse último foi o bairro em que morou. Pascoal considera Mário um autor contemporâneo, por não abandonar as lutas de sua época e ser crítico ao autoritarismo do Estado Novo.

“Toda geração tem uma luta, ou ela luta sua luta ou ela trai a sua luta. O Mário não traiu a sua luta. Outro dia eu estava numa manifestação, na paulista, com os índios Guaranis e alguém da manifestação lembrou que o Mário de Andrade disse que ele queria que os olhos dele ficassem lá no Jaraguá, para saber o que a nossa geração ia fazer. Pra saber o que há de vir.”, afirma.

A preocupação de Mário de Andrade com os rumos da população, dos movimentos populares que fervilhavam, contra as mazelas sociais e injustiças estão em contos sobre comícios e greves gerais.

Este lado engajado do poeta chamou atenção de quatro pesquisadores e estudiosos de literatura, Cláudia de Arruda Campos, Enid Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis, que organizaram um livro de contos e poemas do autor, cujo tema é a vida e a classe trabalhadora brasileira.

Enid Yatsuda Frederico, uma das organizadoras do livro e professora aposentada do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, fala sobre a curadoria do livro, que levou mais de sete meses.

“Procuramos contos que ele lidasse com o popular e foi assim que a gente acabou selecionando. 4 contos e algumas poesias, todas elas visando esse lado social, mostrando um Mário explicitamente preocupado com as questões sociais. “, diz Enid.

Os textos foram selecionados dos livros: Os contos de Belazarte, Contos novos e Poesias completas.

O livro “Contos e poemas” será lançado oficialmente em fevereiro de 2018 pela editora Expressão Popular, mas já está disponível para compra pelo site expressaopopular.com.br.

Fonte: Brasil de Fato

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