Aos 95 anos, escritor e jornalista deixa uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à imprensa, à literatura e à reflexão sobre o Brasil
Por Portal Brasil Cultura
RIO DE JANEIRO — O Brasil perdeu nesta terça-feira (22) um dos nomes mais marcantes de sua imprensa e de sua literatura. O jornalista, escritor e acadêmico Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual fazia parte desde 2015.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Zuenir construiu uma obra que aproximou jornalismo, literatura e interpretação da realidade brasileira. Repórter, editor, cronista e escritor, acompanhou diferentes períodos da história do país e transformou acontecimentos políticos, sociais e culturais em narrativas que ultrapassaram as páginas dos jornais.
Um olhar sobre o Brasil
Nascido em Além Paraíba (MG), em 1º de junho de 1931, Zuenir Ventura chegou ao jornalismo depois de experiências profissionais diversas e da formação em Letras Neolatinas. Sua carreira na imprensa começou nos anos 1950 e passou por veículos que marcaram a história do jornalismo brasileiro.
Ao longo da trajetória, trabalhou em publicações como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ e Visão. Também exerceu atividades como professor universitário e participou da formação de novas gerações de jornalistas.
Mais do que registrar acontecimentos, Zuenir se destacou pela capacidade de contextualizar personagens e fatos, buscando compreender as transformações da sociedade brasileira.
O livro que marcou uma geração
Entre suas obras mais conhecidas está “1968 — O ano que não terminou”, publicado em 1988. O livro revisita um dos períodos mais intensos da história política e cultural brasileira e tornou-se uma referência para compreender as tensões e transformações daquele momento.
Outra obra de destaque é “Cidade partida”, na qual o escritor voltou seu olhar para a violência e as desigualdades sociais do Rio de Janeiro. O livro consolidou sua atuação como autor de uma literatura de não ficção profundamente ligada à realidade brasileira.
Zuenir também escreveu sobre a trajetória de Chico Mendes, em trabalho que recebeu reconhecimento no jornalismo brasileiro.
Na Academia Brasileira de Letras
A relação de Zuenir com a literatura ganhou uma dimensão institucional quando ele foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014, sucedendo o escritor Ariano Suassuna na Cadeira nº 32. Tomou posse em março de 2015, recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli.
Em 2026, ao completar 95 anos, sua trajetória foi celebrada também com o documentário “Mestre Zu”, dirigido por Zelito Viana. O filme recupera momentos de sua carreira e reúne depoimentos de jornalistas, escritores e amigos que acompanharam sua trajetória.
Um legado que atravessa gerações
A importância de Zuenir Ventura não se restringiu aos livros ou às redações. Seu trabalho ajudou a consolidar uma tradição de jornalismo narrativo no Brasil, em que a reportagem busca não apenas informar, mas também revelar contextos, personagens e contradições.
Sua produção acompanhou acontecimentos decisivos do país e ajudou leitores de diferentes gerações a compreender períodos de profundas mudanças políticas e sociais.
A ABL informou que o velório será realizado na sede da instituição, no Rio de Janeiro, e que o sepultamento ocorrerá no mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista.
Com a morte de Zuenir Ventura, o jornalismo e a literatura brasileira perdem um de seus grandes cronistas. Fica uma obra construída ao longo de décadas e uma maneira particular de olhar para o país — com reportagem, memória, crítica e humanidade.
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