A diferença entre os dois países não está no futebol, mas na forma como cada um escolheu administrar a riqueza do petróleo e construir o futuro de sua população.
A soberania de um país está muito além das quatro linhas de um gramado. O futebol pode unir uma nação, despertar paixões e simbolizar o orgulho de um povo, mas não define sua grandeza. Esta se revela na força de suas instituições, na liberdade de seu povo e na capacidade de construir o próprio destino. O gramado é palco de emoções; a soberania pertence à história, à democracia e à identidade de uma nação. O triste não é perder para a Noruega. O triste é perder para um país com pouco mais de cinco milhões de habitantes que, ao descobrir petróleo, decidiu transformar essa riqueza em um patrimônio permanente para seu povo.
A Noruega criou um fundo soberano que hoje administra cerca de US$ 2 trilhões — algo em torno de R$ 11 trilhões. Isso equivale, proporcionalmente, a quase R$ 2 milhões para cada cidadão norueguês. O país é, ainda, proprietário de aproximadamente 1,5% de todas as ações negociadas nas bolsas de valores do mundo.
Politicamente, o principal bloco é Centro-esquerda: liderado pelo Partido Trabalhista da Noruega, que defende o Estado de bem-estar e políticas sociais.
Lá, o petróleo financiou o futuro.
O Brasil também encontrou uma riqueza extraordinária no pré-sal. Poderíamos ter feito o mesmo. Poderíamos ter criado um patrimônio capaz de garantir educação de qualidade, cultura, saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento para gerações inteiras. Mas escolhemos outro caminho.
Na minha avaliação, uma parcela decisiva dessa responsabilidade recai sobre a extrema direita brasileira, o bolsonarismo e seus aliados no Centrão, que transformaram o Estado em instrumento de disputa política permanente, desmontaram políticas públicas estratégicas e priorizaram interesses imediatos em vez de um projeto nacional de longo prazo. A riqueza do pré-sal, que poderia representar independência econômica e justiça social, foi tratada como ativo de curto prazo e moeda de negociação política.
Figuras como Jair Bolsonaro e Sergio Moro, cada um à sua maneira, simbolizam esse período em que a política foi dominada pela destruição de projetos nacionais e pela incapacidade de construir alternativas para o futuro. Enquanto o debate público era consumido por guerras ideológicas, o Brasil deixava escapar uma oportunidade histórica de transformar riqueza natural em prosperidade permanente.
Nossos jogadores não devem nada aos da Noruega. A diferença nunca esteve no talento dos atletas. Ela está na qualidade das decisões tomadas por quem governou o país ou comanda o futebol mercantilista.
Sim, o futebol brasileiro também mudou. Há muito tempo deixou de ser apenas uma paixão popular para tornar-se um grande negócio. Clubes, direitos de transmissão, patrocinadores, plataformas de apostas e interesses financeiros passaram a ditar boa parte das regras do jogo. Mas nem isso explica a verdadeira derrota.
O que o Brasil precisa aprender com a Noruega não é como jogar futebol. É como governar um país. É entender que riquezas naturais pertencem à nação, e não aos interesses políticos de ocasião. É abandonar o negacionismo econômico, o populismo e o patrimonialismo que marcaram a extrema direita brasileira e voltar a pensar nas próximas gerações, e não nas próximas eleições.
A maior derrota do Brasil não aconteceu em campo. Ela aconteceu quando parte de sua classe política preferiu destruir o futuro a construí-lo.
O que o Brasil precisa aprender com a Noruega não é futebol. É responsabilidade com o dinheiro público, planejamento de longo prazo e vergonha na cara e chutar para bem longe essa direita entreguista e reacionária.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Escritor – Compositor
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