Filme de Carlos Pronzato estreia no centenário de Moura, resgatando sua trajetória marxista e sua crítica ao mito da democracia racial
O centenário de nascimento de Clóvis Moura ganha um marco audiovisual decisivo com o lançamento do documentário “Clóvis Moura – O Protagonismo Negro”, dirigido pelo documentarista argentino-brasileiro Carlos Pronzato. A obra, que estreia oficialmente neste domingo (1º), às 18h, no Sala de Arte Cinema do Museu, em Salvador, resgata a trajetória do sociólogo, historiador, militante comunista e referência do pensamento negro no Brasil — reconhecido por articular marxismo e análise racial em um corpo teórico que atravessa a história das lutas sociais brasileiras.
Antes disso, uma primeira exibição ocorre nesta sexta-feira (28), às 19h, na Cultne TV, o primeiro canal brasileiro dedicado integralmente à cultura negra.
Um pensador essencial para compreender a luta negra no Brasil
O filme percorre a vida e a obra de Moura, destacando sua contribuição fundamental para o entendimento da luta dos povos negros contra a escravidão e o racismo estrutural. Pioneiro em desmontar o mito da democracia racial, Moura reposicionou o negro como sujeito histórico e protagonista das resistências sociais, especialmente por meio de obras como ‘Rebeliões da Senzala’ e seus estudos sobre quilombos.
O documentário também enfatiza a militância política do intelectual, sua ligação histórica com o PCdoB, sua atuação no movimento negro e seu papel na crítica materialista das desigualdades brasileiras.
A perspectiva de Carlos Pronzato

Em entrevista Pronzato explica que a decisão de realizar o filme está diretamente ligada ao centenário do autor e à importância de resgatar uma figura ainda pouco conhecida no país — inclusive entre setores da esquerda.
“O motivo de fazer o documentário sobre o Clóvis Moura começa em 2024, eu estava em Portugal trabalhando sobre outros filmes e, em diálogo com o pessoal do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da UFAL, com quem fizemos o filme de Zumbi, começamos a falar de fazer esse filme. Não conseguimos os recursos para fazer o filme com a UFAL, e aí parti para uma produção de outro tipo, buscando apoios em sindicatos e outras entidades enquanto iniciava a pesquisa, procurando material pela internet, já que em Portugal não havia praticamente nada sobre Clóvis Moura, ninguém conhece. A partir daí juntei bastante material”, contou.
Sobre ser o ano do centenário, Pronzato explica que é justamente porque é isso. “Eu trabalho muito na questão do centenário (…) Acho que o momento em que a difusão é maior, o momento em que há grandes possibilidades de influenciar mais facilmente um público que não conhece a pessoa (…) E aí você vê se a sociedade, a cultura, a política reivindicam, tomam conta desse centenário, coisa que infelizmente não aconteceu aqui na Bahia, nas marchas dos movimentos negros. Não lembraram de Clóvis Moura, mas a gente lembrou.”
O diretor também relata seu espanto com o apagamento da figura de Moura na historiografia e até mesmo nos espaços militantes. “O que me surpreendeu sobre a trajetória é o nível de quebra de paradigma de Moura do que vinha sendo colocado (…) E outra foi o desconhecimento de Clóvis Moura no Brasil, inclusive com pessoas da militância de esquerda que não conhecem o Clóvis Moura, não sabiam da existência dele.”
Nordeste como território-chave
As filmagens passaram por cidades fundamentais para a formação de Moura — especialmente Amarante (sua cidade natal), Teresina, Juazeiro e universidades da Bahia e do Piauí. Para Pronzato, essa escolha não foi apenas logística, mas política e estética. “Ter ido a Amarante foi realmente fundamental (…) Respirar esse mesmo espaço em que ele nasceu e conseguir algumas referências, pessoas que o conheceram, também foi importante.”

O diretor também explica que filmar no Nordeste reforçou a coerência da narrativa, por ser ali que Moura iniciou sua formulação política e intelectual. “Acho que até diria que é essencial (…) um trabalho feito no Sul não tocaria muito. (…) Estivemos na UNEB, onde tenho um estudo bastante importante sobre a questão operária. (…) Geografia e trabalho pessoal situam o cenário geográfico dele e foram essenciais para entender sua trajetória.”
Entrevistados e estrutura do filme
O documentário reúne quase 30 vozes, entre pesquisadores, historiadores, educadores populares e figuras ligadas à militância negra e ao marxismo, como Petrônio Domingues, Fábio Nogueira, Kabengele Munanga, a deputada estadual Olívia Santana e Alexandre Reis.
Segundo Pronzato, “o que se buscou destacar sempre é justamente a questão da emergência do negro como sujeito histórico, que foi uma coisa bastante escondida e abafada durante todo o processo da historiografia brasileira.”
Um filme para inspirar ação política
Pronzato afirma que, embora seja uma obra de memória, o documentário está voltado para os desafios atuais da luta antirracista. “O que a gente sempre espera, como cineastas políticos, é que a gente saia do cinema com a cabeça cheia de coisas para pensar, para debater e para fazer. (…) Também se insere numa luta política atual, que é a luta antirracista. Isso é essencial.”
O diretor relaciona este trabalho ao conjunto de filmes que denunciam apagamentos e resgatam protagonistas históricos das lutas sociais. “A inserção desse filme nesse cinema de compromisso político é natural. (…) É uma ponta de um processo que passa por Zumbi dos Palmares, por Mestre Moa do Katendê, por Amílcar Cabral, por Nair Jane… É um filme para estar ombro a ombro junto com os lutadores sociais.”
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