Mário de Andrade e O Carro da Miséria: Um calamitoso Brasil

O poema O Carro da Miséria, de Mário de Andrade, será apresentado todas as segundas-feiras de agosto desde ontem no teatro da companhia do Feijão, no centro de São Paulo. É um experimento cênico-musical que reúne atrizes, cantoras e músicos em torno das angústias e esperanças desse “coração paulistano”, o Mário militante das causas do povo e do Brasil.

 

Por Railídia Carvalho

 Mário de Andrade: “Escondido e desnudo em O Carro da Miséria” Mário de Andrade: “Escondido e desnudo em O Carro da Miséria”

E os tempos nunca estiveram tão necessitados dessa militância. Não é coincidência recuperar atualmente, pós-golpe de 2016 e do governo de Michel Temer, o contexto de incertezas e frustrações que tanto afligiu Mário ao escrever, nos anos de 30, 32 e 43, esse poema “de fôlego”.

 

A contestação política e social da obra fez com que Mário exitasse publicar o poema, o que aconteceu apenas em 1945, após a morte dele, ocorrida naquele mesmo ano. “O Carro da Miséria” foi publicado junto com o livro “Lira Paulistana”.

 

Nos nossos dias, coube ao pianista paulista Lincoln Antonio “receber” Mário e reunir uma trupe (de mulheres em sua grande maioria) do canto, do batuque, da cena, da criação, das luzes para dialogar com O Carro da Miséria. O ator Pascoal da Conceição, Mário redivivo, faz participação especialíssima na temporada.

 

Lincoln que, há 20 anos se debruça com o grupo A Barca sobre parte da obra do escritor paulista, musicou abrasileiradamente O Carro da Miséria fazendo soar sambas, cocos, lundus, canções luso-brasileiras.

 

Em ensaio sobre o poema, Mário diz: “…botei coisas nele (no poema) que estou convencido, não tem absolutamente nenhuma interpretação possível.” Não é à toa que O Carro “alegórico” da Miséria desfila o caldeirão cultural brasileiro com seu “morubixaba caiuarí”, “viúvas restritas”, “tantos barcos” e “adeuses presentinhos”, “os nossos negros que fazem bilboquê”, “veteranos da rabolução de 30”.

 

Iniciado nas vanguardas europeias, Mário fez a transição para o Brasil profundo do povo massacrado, escravizado, humilhado e discriminado. Fez da expressão do povo negro, índio, mestiço brasileiro sua fonte de inspiração para uma visão de identidade nacional.

 

Também fez a própria revolução civilizacional como o primeiro secretário de cultura de São Paulo (de 1936 a 1938). Implementou programas de acesso amplo à cultura para as massas. Em O Carro da Miséria se escondeu e se desnudou. Estão lá angústias, frustrações e também a perspectiva de que “seríamos felizes na ausência deste calamitoso Brasil”.

 

73 anos após sua morte, Mário de Andrade vivo, idealista, socialista se mantém como inspiração para construírmos um Brasil para todos: “E ao vivermos nas terras do Morubixaba Caiuarí, Tudo será em comum…”

Compartilhar:

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*


17 + um =