100 anos de Amácio Mazzaropi

O ator, diretor e produtor de cinema Amácio Mazzaropi completaria 100 anos nesta segunda (9/4). Nascido em São Paulo, em 9 de abril de 1912, o maior ícone de massas do cinema brasileiro arrastou multidões às salas de exibição e imortalizou a figura do jeca, o caipira destrambelhado e esperto, quase sempre em choque com a modernidade.

Para Paulo Duarte, autor do livro “Mazzaropi – Uma Antologia de Risos”, os filmes do ator e diretor emulam um tempo de inocência ao mesmo tempo em que registram a transição para o tipo de mundo no qual convivemos hoje nas grandes cidades. “Na tela, ele já mostrava o conflito do homem do campo chegando à cidade e se deparando com a tecnologia e as novas modas. E ele foi muito esperto: pegou a figura do jeca criada no teatro pelo Genésio Arruda (1898-1967) e a adaptou ao tipo de espectador que procurava seus filmes, justamente as pessoas que vinham do interior e estavam construindo o país”, aponta Duarte. “Esse público se identificava fortemente com aquela figura. Foi uma sacada muito consciente que posicionou Mazzaropi dentro de um contexto histórico”.

De fato, o próprio Mazzaropi, em entrevista à revista Veja em 1970, respondia assim à pergunta sobre o que ele oferecia ao público: “Distração em forma de otimismo. Eu represento os personagens da vida real. Não importa se um motorista de praça, um torcedor de futebol ou um padre. É tudo gente que vive o dia-a-dia ao lado da minha plateia”.

“Hoje, se alguém desejar estudar o enorme movimento migratório campo-cidade, advindo da industrialização da capital paulista, e como isso influenciou nestes dois grandes grupos sociais paulistas – o caipira do interior e o burguês da capital -, esse alguém necessariamente terá de estudar Mazzaropi”, afirma o crítico Celso Sabadin, que prepara um documentário em celebração ao centenário do comediante, morto em 1981, aos 69 anos, de câncer na medula óssea.

O resultado desse diálogo é que Mazzaropi enriqueceu fazendo cinema. Paulo Duarte, na verdade, frisa: “Ele não ficou milionário, ele ficou bilionário”. Celso Sabadin complementa: “Quando ele foi convidado para trabalhar na Cia. Cinematográfica Vera Cruz (vindo de uma carreira no rádio e na TV), ele tinha 39 anos e já estava rico. O cinema só o tornou mais rico ainda”.

Nem tinha como ser diferente. Nenhum dos 33 filmes que Mazzaropi protagonizou foi fracasso comercial, e a maioria deles – como “Candinho” (1954), “Chico Fumaça” (1956), “Jeca Tatu” (1960), “O Lamparina” (1964), “O Corintiano” (1967) e “Jeca contra o Capeta” (1976) – levava de três a seis milhões de espectadores às salas em todo o país. Esperto com os negócios, Mazzaropi passou a ser seu próprio produtor de 1958 em diante. Com isso, ficava com os lucros dos filmes, conseguiu fundar os próprios estúdios e criou uma indústria autossustentável.

Invariavelmente, estreava um novo título sempre no dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, e ia pessoalmente apresentar algumas das sessões, conversando com o público e contando piadas no palco. “Ele foi a prova de que era possível fazer cinema de mercado no país”, afirma Celso Sabadin. É bom lembrar que essa indústria montada por Mazzaropi não contava com ajuda da TV (como aconteceria com filmes da Xuxa e dos Trapalhões algum tempo depois) e vinha num momento posterior aos debacles de estúdios como Cinédia, nos anos 1930, Atlântida, nos 1940, e da Vera Cruz, nos 1950.

Para manter esse império, Mazzaropi precisava ser rigoroso nos bastidores. Quando passou a gerir seus filmes por conta própria, Mazzaropi criou uma fiscalização particular nas portas das salas de cinema para controlar o faturamento das bilheterias e evitar fraudes ou desvios. A ação diz muito do tipo de profissional que era o produtor, diretor e ator Mazzaropi. “Ele fazia os negócios com pulso firme e não admitia antiprofissionalismo e amadorismo”, diz Paulo Duarte. “Desligadas as câmeras, o Mazzaropi era sério, econômico, de poucos amigos, introspectivo e com um ótimo faro comercial”, completa Sabadin.

Por seu cinema extremamente popular, muitas vezes ingênuo, outras machista e conservador e sempre formatado do mesmo jeito, sem avanços ou evoluções, Amacio Mazzaropi não teve uma boa relação com a crítica brasileira. “Se um crítico viesse a mim fazer uma crítica construtiva, mostrar uma forma melhor de eu ajudar o público, eu aceitaria e o receberia de braços abertos. Mas em momento nenhum aceitaria que ele tentasse mudar minha forma de fazer fitas”, disse, categórico, em 1970.

A cobrança por uma “crítica construtiva” era estapafúrdia da parte de Mazzaropi, mas a sua mágoa tinha alguma razão de ser. Alguns textos sobre ele eram bastante violentos. “Bitolado, fora de época, ausente de tudo que se passa ao seu redor, a Mazzaropi interessa apenas explorar e fomentar o gosto equívoco, não possuindo o cinema, para ele, qualquer implicação cultural”, escreveu Ignácio de Loyola no jornal Última Hora em 1965.

Sobre “Jecão, um Fofoqueiro no Céu”, Orlando Fassoni registrou na Folha de S.Paulo em 1977: “Um monumento em primarismo, mau-gosto e falta de sensibilidade, pecados que, creditados a ele, podem ser também levados à conta de seu inseparável colaborador, Pio Zamuner, a eminência parda do Jeca que o cinema brasileiro já teve e hoje não tem mais. Mazzaropi acabou”.

Por mais que parecesse não se importar com as pedradas, o ator, produtor e diretor se ressentia abertamente do que achava ser falta de traquejo com suas produções. Dizia que a crítica brasileira era formada por “aqueles intelectuais” que somente davam atenção aos trabalhos do Cinema Novo e não se preocupavam com a formação de plateias ou o gosto do espectador em geral. “Não vou trair esse público só para que a crítica fale bem de mim”.

Aos jornalistas e repórteres, era igualmente avesso: “Esse pessoal só quer saber se eu estou rico, se ganho muito dinheiro com cinema. Ninguém pergunta nada sobre o meu trabalho”.

Dentro dessa verdadeira guerra, uma das declarações de Mazzaropi foi profética: “Pois é, falam mal de mim. Só quero ver quando eu morrer. Daí, vão fazer festivais com os meus filmes, e tem gente que é capaz até de falar que eu fui um gênio. Quer saber? Deixa pra lá … Quando eu morrer, isso já não terá nenhuma importância”.

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