Na era dos aplicativos que controlam entregadores e trabalhadores remotos, a sátira ao fordismo lançada em 1936 segue ecoando com força cruel
Em fevereiro de 1936, quando Tempos Modernos estreou nos cinemas, o mundo tentava respirar depois da Grande Depressão. Noventa anos depois, as máquinas continuam ligadas — talvez mais silenciosas, talvez mais digitais, mas não menos vorazes. Chaplin sabia: o ritmo imposto ao corpo humano pelo lucro não envelhece, apenas muda de forma. A linha de montagem que engole Carlitos ainda corre diante de nós, agora em telas de celular, trabalho por aplicativos, metas e algoritmos.
A cena é inesquecível: o operário, transformado em extensão da máquina, aperta parafusos com frenesi até que seu corpo se enrosca nas engrenagens, arrastado para o interior da besta mecânica. Chaplin não filmava ficção — registrava com precisão cirúrgica o pesadelo do fordismo, onde o trabalhador deixara de ser sujeito para virar parafuso humano numa linha de montagem insaciável.
A famosa cena não é exagero cômico: é síntese política. O capitalismo industrial não apenas explora — ele incorpora o trabalhador, tritura sua subjetividade e o devolve quebrado, quando devolve.
Nove décadas depois, basta observar um entregador de aplicativo correndo contra o tempo sob o olhar de um algoritmo invisível para ganhar um salário precário, sem qualquer proteção social, para perceber: a engrenagem apenas mudou de forma. O controle agora é digital, mas a alienação permanece idêntica.
Carlitos contra os parafusos do mundo
Chaplin veste Carlitos com macacão, chapéu-coco e um olhar perdido que diz mais do que qualquer discurso. Ali, o operário não é herói épico nem estatística: é gente. Gente esmagada pelo tempo cronometrado, pela repetição sem sentido, pela ordem que vem de cima e não admite erro.
Chaplin jamais permitiu que a tragédia calasse o riso. Enquanto Carlitos engolia por acidente uma chave de fenda e seus movimentos mecânicos se tornavam espasmos involuntários — “a doença dos parafusos”, como chamavam os operários reais da época —, o cinema explodia em gargalhadas. Era o gênio do criador: transformar a dor em comédia sem jamais banalizá-la.
Quando o patrão aparece num telão dentro do banheiro para fiscalizar até os momentos de privacidade do operário, rimos da absurda invasão — mas arrepiamo-nos ao lembrar que hoje carregamos esse mesmo patrão no bolso, na forma de apps que monitoram cada clique, cada pausa, cada batida cardíaca. Chaplin previu a vigilância digital com 90 anos de antecedência, usando apenas o poder da metáfora e do humor humanista.
A fome, a greve, a rua
Tempos Modernos não se passa só dentro da fábrica. O filme anda pela rua, encontra a fome, a repressão policial, as greves e o desemprego. Chaplin não romantiza a pobreza, mas a torna visível, humana, concreta. A miséria não é um cenário: é personagem.
A jovem órfã vivida por Paulette Goddard, companheira de Carlitos, encarna o sonho mínimo — comer, morar, viver com dignidade. Nada além disso. Nada menos.
No coração do filme, na cena mais comovente do cinema mudo tardio, Carlitos e a jovem órfã imaginam uma casinha de madeira à beira de uma estrada, com galinhas no quintal e pão quente na mesa. “Sonhar não custa nada”, sussurra ela. Mas custa — e quanto.
Chaplin sabia que o capitalismo não apenas explora o corpo do trabalhador, mas também rouba seu direito ao sonho. A sequência, filmada com uma doçura quase religiosa, torna-se revolucionária justamente por sua simplicidade: num mundo que transforma pessoas em engrenagens, sonhar com uma casa própria é um ato de resistência.
Hoje, quando milhões de jovens brasileiros desistem do sonho da casa própria diante de aluguéis impagáveis e especulação imobiliária, a cena de Chaplin ganha contornos de profecia trágica — e de urgente convite à esperança.
Um filme quase mudo para dizer tudo
Lançado quando o cinema falado já dominava Hollywood, Tempos Modernos é, em grande parte, mudo. Não por atraso técnico, mas por escolha estética e política. Chaplin desconfiava da palavra quando usada pelo poder — e apostava no gesto, no corpo, no riso.
Chaplin resistiu. Sabia que a voz do vagabundo precisava permanecer universal — sem sotaque, sem língua, apenas gesto puro. Quando Carlitos canta no cabaré a canção em gibberish (palavras inventadas que simulam italiano), ele não está apenas sendo engraçado: está afirmando que a humanidade transcende fronteiras linguísticas.
Curiosamente, as poucas vozes que se ouvem no filme vêm de máquinas, chefes, alto-falantes. O trabalhador não fala: é falado. A crítica não poderia ser mais atual.
Chaplin transformou a limitação técnica numa filosofia estética. O silêncio de Carlitos tornou-se mais eloquente que mil discursos — prova de que, diante da opressão, às vezes o melhor protesto é um olhar, um tropeço, um sorriso triste que diz tudo sem pronunciar uma sílaba.
Por que ainda dói
Noventa anos depois, o filme continua a doer porque o mundo insiste em parecer com ele. O controle do tempo, a obsessão pela produtividade, a precarização do trabalho, a promessa de eficiência que cobra saúde mental como preço. A fábrica virou escritório, call center, plataforma digital. A engrenagem agora é invisível — e por isso ainda mais difícil de enfrentar.
Chaplin entendeu cedo que o problema não era a máquina, mas quem manda nela.
Chaplin, o humanista radical
Charles Chaplin foi acusado, perseguido, exilado. Chamaram-no de ingênuo, subversivo, perigoso. Talvez fosse tudo isso. Tempos Modernos é obra de um artista que escolheu ficar ao lado dos derrotados sem pedir licença, usando o riso como arma e a ternura como método.
Chaplin nos deixou essa herança preciosa: rir da opressão sem jamais rir das vítimas. Transformar a crítica social numa dança. E lembrar, sempre, que por trás de cada parafuso apertado com desespero há um ser humano que merece, no mínimo, o direito de sonhar com uma casinha à beira da estrada — e talvez, quem sabe, com um futuro onde as máquinas sirvam aos homens, e não o contrário.
Ao final, Carlitos segue pela estrada, sem emprego fixo, sem garantias — mas não sem esperança. É pouco? É tudo.
Um aniversário que não pede nostalgia
Celebrar os 90 anos de Tempos Modernos não é exercício de nostalgia cinéfila. É lembrar que a denúncia continua válida, que a comédia segue sendo política e que o cinema, quando ousa, pode revelar verdades que relatórios escondem.
Enquanto houver gente sendo engolida pelas engrenagens do lucro, Chaplin continuará atual — e Tempos Modernos, perigosamente vivo.
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