Sessenta anos depois, clássico de Luiz Sergio Person retorna restaurado às telas e reacende debate sobre progresso, alienação e memória urbana
Quando São Paulo Sociedade Anônima estreou, em 1965, a cidade ainda acreditava no futuro. Havia fábricas novas na Via Anchieta, avenidas que pareciam largas o bastante para qualquer sonho e um discurso de progresso que prometia prosperidade a quem aceitasse girar na engrenagem.
Sessenta anos depois, o filme dirigido por Luiz Sergio Person retorna aos cinemas em versão restaurada em 4K, a partir de 26 de fevereiro, pela Sessão Vitrine Petrobras. A nova cópia teve première internacional no Il Cinema Ritrovato, na Itália — festival dedicado à preservação de clássicos filmados em película.
A restauração envolveu a Cinemateca Brasileira, a Cineteca di Bologna, a The Film Foundation e a Lauper Films, num raro esforço transnacional para devolver nitidez a um dos retratos mais contundentes da modernização brasileira.
Carlos, ou o homem engolido pela engrenagem
A trama acompanha Carlos, interpretado por Walmor Chagas, jovem funcionário da indústria automobilística. Ele tem emprego, casamento e perspectivas — tudo o que a São Paulo industrial dos anos 1960 vendia como sinônimo de ascensão. Ainda assim, sente um vazio que não se mede em salários.
Ao seu redor, nomes como Eva Wilma e Darlene Glória ajudam a compor um mosaico de afetos frágeis, ambições difusas e relações tensionadas por um modelo de sucesso material.
Person constrói a narrativa em fragmentos de memória, com narração introspectiva e estética influenciada pelo modernismo europeu. A cidade surge como personagem: ativa, promissora, mas também impessoal. Cresce por fora e esvazia por dentro. São aspectos estéticos que ainda tornam o filme relevante como narrativa cinematográfica de autor.
São Paulo simboliza a metrópole moderna, densa, anônima, com deslocamentos intensos e relações sociais precárias. Esse diagnóstico urbano segue atual em grandes centros brasileiros e globais, em face da gentrificação, da mobilidade caótica e do isolamento social.
Progresso e alienação: a crítica sob a superfície
O filme foi frequentemente associado ao Cinema Novo paulista, mas ocupa posição singular. Se parte da produção da época buscava uma leitura dialética e revolucionária do país, Person opta por algo mais incômodo: capturar o instante histórico sem oferecer saída.
Há corrupção empresarial, há conservadorismo social, há um casamento que não se ajusta ao novo tempo. Mas não há redenção. Apenas o fluxo — o retrato cru de uma modernização que transforma a cidade em sociedade anônima e o indivíduo em peça substituível.
O conflito entre realização pessoal e lógica produtivista — exigências do trabalho, pressão por sucesso, relações afetivas frágeis — permanece um tema central no mundo contemporâneo, marcado por burnout, precariedade emocional e buscas de sentido.
Esse olhar crítico levou o longa a representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, na 38ª edição da premiação, ainda que não tenha sido indicado. Desde então, permanece em listas de críticos como um dos títulos centrais da cinematografia nacional.
Restaurar é reabrir a conversa
O relançamento integra a Sessão Vitrine Petrobras, projeto da Vitrine Filmes dedicado à circulação de obras brasileiras no circuito comercial. A estratégia não é apenas celebrar uma efeméride, mas recolocar o filme em diálogo com novas gerações.
O contraste entre desenvolvimento material e empobrecimento das relações humanas é um debate que transcende épocas. Mesmo com avanços tecnológicos e maior riqueza agregada, muitas sociedades enfrentam desigualdade crescente, perda de coesão comunitária, conflitos entre produtividade e bem-estar.
A cópia em 4K devolve textura às ruas do centro, às casas de bairro, às fábricas recém-inauguradas. A imagem restaurada revela uma São Paulo que parecia segura de si — e, ao mesmo tempo, prenunciava o mal-estar urbano que se tornaria marca do país.
Narrativa que não envelhece
Rever São Paulo Sociedade Anônima hoje é constatar que a promessa do progresso continua ambígua. A mecanização do trabalho, a pressão por desempenho, a busca por status e o esvaziamento das relações seguem temas atuais.
A crítica à industrialização frenética e à mecanização do trabalho, no filme situada na indústria automobilística, ecoa hoje nas discussões sobre: automação e inteligência artificial; plataformas digitais e gig economy; precarização e fragmentação do trabalho.
A atualidade de São Paulo Sociedade Anônima está no seu olhar crítico sobre progresso, trabalho, cidade e identidade — questões que continuam a moldar a experiência humana no mundo pós-moderno. O filme não é apenas um documento de época; é uma obra que ajuda a pensar como vivemos, por quê e a que custo, ressoando com debates contemporâneos sobre economia, sociedade e subjetividade.
Se o passado não pode ser refeito, pode ser revisto. E, ao voltar às telas seis décadas depois, o filme de Person reafirma sua condição de documento histórico e obra estética viva — um espelho em preto e branco que ainda devolve, com precisão desconcertante, a imagem de um Brasil que insiste em se modernizar sem saber exatamente para onde vai.
A Sessão Vitrine Petrobras pode ser apreciada no Espaço Petrobras de Cinema (São Paulo), na Estação NET Rio (Rio de Janeiro), na Cinemateca Paulo Amorim (Porto Alegre) e no Cinema da Fundação (Recife).
Assista ao trailer do longa a seguir:
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