Crônica de quem não nasceu em fevereiro, mas tem o Carnaval no coração
Essa sexta-feira começa mais um Carnaval. E não é exagero dizer: começa também uma outra forma de o Brasil existir.
Eu amo a quadra carnavalesca. Amo o calor que não é só do sol, mas da expectativa. Amo o ensaio que atravessa a noite, o improviso que vira tradição, o bloco que nasce pequeno numa mesa de bar e, de repente, arrasta uma multidão. Particularmente, amo os festejos de rua — essa democracia sem catracas, onde o crachá não vale nada e o que importa é saber sorrir e cantar.
A “festa da carne”, como diz a etimologia, é paixão e amor. Só entende quem sente. Quem já arrepiou com um surdo marcando o compasso do próprio peito sabe do que falo. Para aqueles que acham tudo uma grande besteira, azar o de vocês. Não é ofensa — é lamento. Porque vocês não sabem o que é se permitir viver a maior festa cultural brasileira com o corpo inteiro.
Sim, sempre fui sambista e carnavalesco fervoroso. E antes que perguntem: não, não nasci em fevereiro. Sou de setembro. Mas o Carnaval mora em mim como se fosse estação do ano fixa, dessas que não obedecem ao calendário. Há quem diga que a gente nasce predestinado a gostar de certas coisas. Eu nasci com o ouvido atento ao tamborim e ao samba.
E nem me venham com essa história de “pão e circo”. Esse argumento é o atalho intelectual de quem prefere o desprezo à compreensão. Carnaval é história. É arte. É homenagem. É Maé da Cuica, é Chocolate, é Homero Réboli e Glauco Souza Lobo. É ancestralidade desfilando em carros alegóricos que carregam mais história do que muito livro empoeirado. Não é apenas disputa de agremiações numa grande passeata festiva. Não é “um bando de bêbados nas ruas”, como repetem os desavisados — ou os que nunca pararam para escutar a letra de um samba-enredo. Eu compus tantos que perdi a conta no meu polegar.
O Carnaval é organização minuciosa e imaginação sem freio. É talento costurado em fantasias que brilham sob refletores e sob o sol das quatro da tarde. É luz, cores, magia e amor. É suor que escorre misturado com purpurina. É a costureira anônima que borda até de madrugada. É o compositor que sonha com o refrão perfeito. É o ritmista que ensaia o ano inteiro para que, na hora exata, o surdo faça bum — e no segundo bum eu já tenha chegado lá.
Chegado onde? Num lugar difícil de explicar. Um território invisível onde a tristeza tira folga e a esperança veste fantasia. Uma espécie de liberdade provisória que a música nos concede. Sim, é uma falsa sensação de liberdade — mas que verdade mais bonita existe do que essa que se sente no corpo? Durante aqueles dias, a vida parece caber num refrão.
E há também o lado concreto, que muitos fingem não ver: o dinheiro que circula, o comércio formal e informal que respira, a costureira que garante renda, o ambulante que sustenta a família, o hotel que lota, o taxista que agradece. Carnaval é cultura, mas também é economia pulsando no compasso do tambor.
Sobretudo, é celebração da nossa história afro-brasileira. É herança que resistiu, que sobreviveu, que transformou dor em ritmo e exclusão em espetáculo. Cada batuque carrega séculos. Cada samba conta um pedaço de quem somos. Não é pouca coisa.
Por isso, quando ouço o primeiro repique cortando o ar da sexta-feira, algo em mim desperta com a mesma urgência de sempre. Não importa a idade, não importa o cansaço do ano. Quando o surdo faz bum, no segundo bum já cheguei lá. Já estou no meio do povo, já estou sorrindo para desconhecidos, já estou cantando um samba que talvez nem saiba inteiro — mas que sinto como se tivesse composto.
Porque o Carnaval não se explica. Se vive.
E quem vive, entende.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor
Faça um comentário