Pesquisa ICL-Ágora aponta um Brasil fraturado entre o desejo de ordem, o medo da injustiça e a fantasia da autonomia individual frente à precarização social
O Brasil que emerge da pesquisa A verdade sobre como pensam os brasileiros feita pelo Instituto Ágora, a pedido do Instituto Conhecimento Liberta, propõe olhar a sociedade através de seis grupos. O que os dados desenham é uma cartografia de fissuras profundas, em que a clássica luta de classes, embora desconsiderada pelo estudo e despojada de seu vocabulário tradicional, continua a organizar as dores e as escolhas de uma população atravessada pela precarização.
Aglutinados por valores morais e desejos
A orientação captada pela pesquisa revela um país que não está meramente dividido entre a direita e a esquerda, mas fragmentado em seis segmentos – agrupados basicamente por valores morais – que reagem de formas distintas ao colapso das instituições e à promessa de bem-estar.
No centro desse mapa, a figura da Direita de Ordem e Autoridade abocanha 30% do imaginário nacional, consolidando um bloco que enxerga na disciplina e no rigor penal a única saída para o caos. Mas logo ao lado, o Centro em Dúvida e Contradição, com seus 26%, revela a porção do país que habita uma zona cinzenta, em que o ceticismo com as elites convive com o que chama de “lulista moderado” em um equilíbrio instável, aguardando por uma narrativa que dê sentido à sua angústia material. Completando este mosaico, a Esquerda Urbana Progressista, com seus 15%, ostenta o maior capital cultural e escolaridade, defendendo pautas de diversidade com vigor, enquanto os Populares por Proteção e Ordem que representam 13% da amostra formam grupo que é o retrato mais fiel das contradições brasileiras: são cidadãos de baixa renda que dependem vitalmente do Estado social, mas que clamam pela mão pesada do Estado policial para lidar com o crime que lhes bate à porta. Na base da pirâmide, a Esquerda Popular Solidária responde por 11%, centrada no cuidado e no serviço público, enquanto a Direita Liberal Crítica, embora ruidosa no debate econômico, fecha o quadro como o menor segmento, com apenas 5% de adesão.
Para 26% dos brasileiros o sistema político está falido
A desilusão com a democracia também acende um alerta vermelho. Com 26% dos brasileiros classificando o sistema político como totalmente falido e passível de destruição, o terreno torna-se propício para aventuras autoritárias. A direita capturou a ideia de revolução em uma chave reacionária: 51% de seus apoiadores defendem rupturas radicais contra o que chamam de “esquema das elites”. Enquanto isso, a esquerda encontra-se na posição defensiva de guardiã das instituições, com 54% de seus eleitores pregando o respeito às regras democráticas.
O punitivismo
Essas tensões tornam-se nítidas quando o estudo aborda a questão da justiça. O país se revela dividido: 42% aceitam punir dez pessoas, mesmo que uma delas seja inocente, em nome da segurança coletiva. Entretanto, quando o cenário envolve a pena de morte, o punitivismo recua para 17% e a preocupação com o erro irreversível salta para 55%. Essa oscilação revela que a adesão à barbárie não é total; existe uma reserva de humanidade que emerge quando a violência estatal é levada ao limite máximo.
O mesmo ocorre no campo econômico, onde a ideologia do “patrão de si mesmo” parece ter vencido a batalha cultural. Com 43% dos brasileiros sonhando com o próprio negócio, o empreendedorismo é vendido como a única saída diante de um mercado de trabalho que oferece apenas a precarização. Na direita, esse sonho beira os 60%, enquanto na esquerda a defesa da estabilidade e do emprego público ainda resiste como o horizonte de 54% dos entrevistados na centro-esquerda.
O que a pesquisa ensina, portanto, é que o neoliberalismo conseguiu converter a insegurança em uma suposta ambição de autonomia, ocultando o fato de que o “microempreendedor” é, na maioria das vezes, um trabalhador despojado de direitos.
O estudo mostra que a indignação popular é movida por elementos concretos: a corrupção nas emendas parlamentares e os supersalários do Judiciário geram mais raiva do que temas morais como a inexistência de Deus ou a sexualidade de Jesus. Isso sugere que a moralidade religiosa, embora central para 35% que defendem a isenção tributária de igrejas, encontra um limite quando esbarra na ostentação descarada de líderes religiosos em iates e helicópteros, considerada um absurdo por 62% da população.
As premissas da pesquisa mostram um país sob pressão
Feito em novembro de 2025, o estudos ouviu 10 mil entrevistados e garante uma precisão de 1% de margem de erro. Apesar da robustez estatística, é preciso cautela ao tratar esses grupos como categorias estanques: a subjetividade política é um campo de batalha volátil, e agrupamentos por opinião podem ser alterados por eventos conjunturais. Além disso, existe um desvio natural entre a teoria e a prática; o brasileiro que se diz punitivista em uma sondagem pode, diante de uma crise real, revoltar-se contra o sistema se a injustiça atingir sua própria comunidade.
A lição final desta vasta pesquisa é que o brasileiro não é um bloco homogêneo nem está totalmente capturado pelo ódio; ele é um sujeito atravessado por ambiguidades. O que revela que quem deseja liderar este país terá de partir dessas contradições.
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