Entre a fé, o poder e as histórias que a Igreja preferiu silenciar
Acordei hoje pensando nos tais apócrifos. A Bíblia é, indiscutivelmente, o livro mais influente da história da humanidade. Ao longo dos séculos, moldou civilizações, inspirou gerações e se firmou como um dos pilares centrais da fé cristã. Em suas páginas estão a experiência do sagrado, a memória do povo de Deus e ensinamentos que orientam a caminhada espiritual de milhões de pessoas em todo o mundo. No entanto, nem todos os escritos antigos associados à tradição judaico-cristã foram incorporados ao conjunto de textos reconhecidos como canônicos. Muitos ficaram à margem das Escrituras oficiais, apesar de terem circulado, influenciado comunidades e provocado reflexões profundas sobre fé, história e espiritualidade.
Esses livros que caminham pelas bordas da história sagrada, como quem observa a procissão da calçada, sabendo que também faz parte da festa — embora não tenha sido convidado para o altar.
Há livros que nascem condenados ao silêncio. Não porque sejam fracos, mal escritos ou desprovidos de fé, mas porque ousaram dizer o que o poder preferiu não ouvir. Assim são os apócrifos da Bíblia: textos chamados de “ocultos”, mas que talvez sejam apenas incômodos.
Escritos por mãos anônimas, em tempos de perseguição, dúvida e esperança, esses livros revelam um Deus mais humano, mais próximo, às vezes menos solene. Um Deus que ri, que se indigna, que conversa demais. Um Deus que não cabe bem na moldura dourada da ortodoxia.
Neles, Jesus fala mais. Maria pensa, sofre, questiona. Os apóstolos erram sem maquiagem. Não há milagre espetacular a cada parágrafo, mas há silêncio, medo e contradição — exatamente aquilo que a fé oficial aprendeu a esconder sob o tapete da certeza absoluta.
Os apócrifos não perderam espaço por falta de fé. Perderam porque a fé também é poder, e todo poder escolhe o que deve ser lembrado e o que precisa ser esquecido. O cânon não caiu do céu pronto e lacrado. Foi decidido em mesas, concílios e disputas onde a teologia caminhava de mãos dadas com a política.
Curioso é que esses textos rejeitados continuaram vivos. Circularam em segredo, inspiraram artistas, alimentaram heresias, sustentaram dúvidas. Sobreviveram como sobrevivem as boas perguntas: sem resposta definitiva.
Talvez os apócrifos nos incomodem porque nos lembram que a fé não nasceu organizada. Ela foi tropeçando, errando, escrevendo versões. Foi escrita por gente comum, com medo do fim do mundo e esperança no amanhã. Gente que acreditava — mas também duvidava. Como nós.
No fundo, os livros apócrifos são um espelho mal colocado diante da religião institucional. Eles nos perguntam, em voz baixa: quem decide o que é sagrado? E, principalmente, quem tem o direito de silenciar uma história?
Talvez por isso ainda valha a pena lê-los. Não para substituir a Bíblia, mas para compreender que a verdade, quando é viva, nunca cabe em um volume só.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor – Escritor
Formação em Direito
Pós-Graduado em História do Brasil
Ciências Políticas
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