No Mercado de Peixe, uma Aula sem Quadro

 

 

Quando a pergunta parece acusação, mas a resposta vira espelho

 

Ontem, no mercado de peixe aqui de Pontal do Paraná, entre o cheiro de mar, gelo derretendo e conversas atravessadas pelo barulho, fui surpreendido por algo raro: reconhecimento.
Uma pessoa se aproximou e perguntou, com certa curiosidade:

— Você é o Cláudio Ribeiro?

Respondi que sim. Como acontece nessas situações, a conversa começou tímida, mas logo ganhou corpo. Então veio a frase, dita com aquele tom que não é exatamente dúvida, é quase julgamento:

— Você é jornalista, compositor, escritor… e é socialista?

A palavra “socialista” caiu no chão do mercado como um peixe fora d’água. Não pelo peso dela, mas pelo modo como foi lançada — carregada de crítica, de medo aprendido, de conceitos mal explicados.

Respirei fundo e devolvi com perguntas, porque perguntas honestas costumam ser mais reveladoras que respostas prontas:

— Você é a favor de que todos tenham direito ao café da manhã?
— Você é a favor de que todos tenham direito a um almoço e um jantar todos os dias?
— Você é a favor de que todos tenham uma casa para morar?
— Você é a favor de educação para todos, saúde para todos, férias, descanso, dignidade?

A pessoa me olhava em silêncio. Não interrompi.

— Se a resposta for sim, sem saber você também é um socialista.

O espanto veio primeiro. Depois, a confusão. E, por fim, um silêncio que dizia mais do que qualquer discurso. Continuei, não para provocar, mas para esclarecer — porque cronistas também carregam o vício da explicação:

— Quem toma o seu carro, a sua casa, os seus direitos, não é o socialismo. É o capitalismo quando não tem limites, quando transforma tudo em mercadoria, inclusive o ser humano.

A pessoa baixou a cabeça. Não houve discussão. Não houve grito. Apenas aquele instante raro em que alguém percebe que talvez tenha sido enganado por palavras usadas fora do contexto, repetidas sem reflexão.

Antes de nos despedirmos, ainda disse, quase como um brinde invisível entre sardinha, postas de cação que fui comprar para fazer uma moqueca e camarão:

— Feliz Ano Novo aos que conhecem história, geopolítica e filosofia.

Saí do mercado com a certeza de que, às vezes, o debate mais profundo não acontece nas universidades, nem nos palanques, mas ali, no cotidiano simples, onde a vida real acontece. Entre o peixe fresco e as perguntas antigas, fica claro: entender o mundo não é questão de rótulo, é questão de consciência.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Compositor

 

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