Não é sobre o rock: é sobre quem o poder escolhe valorizar

 

 

Na noite desta terça-feira (17), em Curitiba, recebe a audiência pública “Rock que move a Economia: Uma visão para o Paraná”, reunindo representantes da cultura, economia e setor público para discutir o impacto do gênero no desenvolvimento do estado. A iniciativa, liderada pelo deputado estadual Delegado Tito Barichello, propõe ampliar o debate sobre o rock como força da economia criativa.

É preciso deixar claro desde o início: o problema não é o rock. O rock é, sim, uma manifestação cultural relevante, com impacto econômico concreto, capaz de movimentar eventos, turismo, empregos e toda uma cadeia produtiva legítima.

O problema é outro — e mais profundo. O que se vê é a instrumentalização do rock como vitrine para negar, silenciar e desvalorizar outras expressões culturais. Não se trata de reconhecer um setor, mas de escolher quem merece reconhecimento.

Ao elevar o rock como símbolo de desenvolvimento econômico, enquanto sambistas, carnavalescos e blocos populares seguem sem espaço institucional, o poder público constrói uma narrativa seletiva. Uma narrativa que exclui justamente as manifestações culturais mais enraizadas na base da sociedade — aquelas que movimentam comunidades inteiras, geram renda direta e mantêm viva a identidade cultural brasileira.

Essa escolha não é neutra. Ela também dialoga com um processo histórico e simbólico de embranquecimento da cultura — uma tentativa de projetar uma imagem de cidade que apaga ou minimiza suas raízes populares e afrodescendentes.

Curitiba deve muito à população afrodescendente. Não apenas em termos históricos, mas na construção cotidiana de sua cultura, sua música, suas festas e sua economia informal. O samba, o carnaval e diversas manifestações culturais que nascem das periferias são expressões diretas dessa contribuição. Ainda assim, seguem sendo tratados como secundários ou invisíveis nas agendas institucionais.

É contraditório — e revelador — que justamente a capital do Sul do Brasil com uma das maiores porcentagens de população afrodescendente seja também um espaço onde essas expressões culturais encontram tão pouco reconhecimento oficial.

Esse apagamento não acontece por acaso. Ele se conecta a uma construção histórica mais ampla. Curitiba, como diversas cidades brasileiras, teve nos anos 1930 a presença do integralismo, movimento de extrema direita ligado a Plínio Salgado e à Ação Integralista Brasileira, inspirado em modelos europeus da época. Embora não tenha sido um fenômeno exclusivo da cidade, esse passado ajuda a entender como determinados ideais de identidade — mais homogêneos, mais excludentes — encontraram espaço em diferentes momentos.

Isso não significa afirmar uma continuidade direta ou organizada hoje. Não há evidências concretas de que exista uma estrutura política atual derivada desse movimento. Mas as disputas simbólicas permanecem, atualizadas em novas formas — inclusive na maneira como a cultura é selecionada, promovida ou ignorada.

A própria expressão “República de Curitiba”, popularizada durante a Operação Lava Jato, mostra como a cidade foi alçada a símbolo de determinados posicionamentos políticos e ideológicos. Esse imaginário também influencia quais narrativas ganham visibilidade — e quais são deixadas de lado.

Nesse contexto, o uso do rock como “motor da economia” ultrapassa a música. Ele passa a integrar uma construção de imagem: a de uma cidade que escolhe quais culturas quer exibir e quais prefere ocultar.

E os números — e a realidade das ruas — contam outra história. O samba, o carnaval e as manifestações populares movimentam uma cadeia produtiva ampla e descentralizada, envolvendo trabalhadores informais, artistas independentes, costureiras, técnicos, ambulantes e pequenos empreendedores. São, de fato, motores da economia — muitas vezes sem qualquer apoio institucional.

Ignorar isso não é apenas um erro de política pública. É uma escolha. E, quando essa escolha recai sistematicamente sobre manifestações associadas à cultura afro-brasileira, ela também revela um recorte racial que precisa ser enfrentado com honestidade.

Uma política cultural séria não pode ser seletiva. Não pode servir como ferramenta de afirmação ideológica disfarçada de debate econômico. Valorizar a cultura exige reconhecer sua diversidade, sua origem e, sobretudo, quem a constrói.

Se há espaço para discutir o impacto do rock — e deve haver — também precisa haver, com a mesma prioridade e estrutura, debates sobre o samba, o carnaval e todas as outras expressões que sustentam a economia cultural da cidade.

Caso contrário, o que se promove não é desenvolvimento cultural. É exclusão institucionalizada — com estética definida e memória seletiva e coisa da direita excludente.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

 

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