Em São Paulo e no Rio, títulos celebram Léa Garcia e Mestre Ciça; desfiles emocionam, decidem-se por décimos e reafirmam tradição e ousadia na avenida
A quarta-feira (17) de tarde com tensão no sambódromo paulistano. A cada nota lida, o silêncio era cortado por gritos e contas feitas às pressas. No último quesito, fantasia, a consagração: a Mocidade Alegre é a campeã do Grupo Especial de 2026.
Na Marquês de Sapucaí, a campeã é a Unidos do Viradouro. A Vermelha e Branca de Niterói conquistou seu quarto título com o enredo “Pra cima, Ciça!”, celebrando em vida o mestre de bateria Moacyr da Silva Pinto, de 69 anos.
Em São Paulo, houve a exaltação de uma atriz que desafiou o racismo estrutural; no Rio, a consagração em vida de um mestre que moldou gerações no batuque. Em comum, a precisão decidida por décimos e a capacidade do carnaval de transformar biografias em épicos coletivos.
“Malunga Léa”: rapsódia e resistência
Com 269,8 pontos — apenas um décimo à frente da Gaviões da Fiel (269,7) —, a Mocidade confirmou o favoritismo e conquistou seu 13º título, dois anos após o último, em 2024. A disputa foi acirrada até o fim: a liderança mudou no quarto quesito, e a decisão veio nos detalhes.
O enredo “Malunga Léa, Rapsódia de uma Deusa Negra” homenageou a atriz Léa Garcia, morta em 2023, aos 90 anos. Símbolo de resistência ao racismo no cinema e na TV, Léa foi celebrada em alas que revisitavam obras como Orfeu Negro, Xica da Silva e a novela A Escrava Isaura, cujo “lerê, lerê” ganhou releitura festiva no samba.
O último carro ofereceu à atriz um troféu “Oscarito” pelo conjunto de sua obra, estatueta do Festival de Gramado que ela receberia no dia de sua morte. Representada por Adriana Lessa, dourada como o troféu, Léa surgiu monumental, sob aplausos. Famosos como Thelminha e Fred Nicácio cruzaram a avenida.
Um dos pontos altos foi o carro de Iemanjá: 13 metros de altura e 10 mil litros de água compondo um mar cenográfico que cintilava sob as luzes. À frente da bateria, Mestre Sombra manteve o ritmo firme; a rainha Aline Oliveira, há 16 anos no posto, incendiou as arquibancadas ao balançar o bandeirão no recuo.
Houve tensão no cronômetro. A escola apertou o passo para não estourar o tempo: 1h05min05s de desfile — segundos antes do limite. Pequenos buracos na evolução custaram décimos, mas não o título.
Ranking do Grupo Especial – SP (2026)
- Mocidade Alegre – 269,8
- Gaviões da Fiel – 269,7
- Dragões da Real – 269,6
- Acadêmicos do Tatuapé – 269,5
- Barroca Zona Sul – 269,4
- Tom Maior – 269,4
- Estrela do Terceiro Milênio – 269,1
- Mocidade Unida da Mooca – 269,0
- Império de Casa Verde – 268,9
- Camisa Verde e Branco – 268,8
- Colorado do Brás – 268,7
- Vai-Vai – 268,6
- Rosas de Ouro – 268,4
- Águia de Ouro – 268,2
Rio: a Viradouro exalta Ciça em vida
O desfile da Viradouro, o terceiro da segunda-feira (16), combinou emoção e espetáculo. Ritmistas cruzaram a avenida às lágrimas; o Barreto voltou ao topo dois anos após o triunfo de 2024.
Logo na abertura, a surpresa: Ciça surgiu na comissão de frente em encenação que recontava sua infância no samba. O pequeno Moacyr foi vivido pelo menino Vitor Gabriel. Um leão, que simbolizava a Estácio de Sá — primeira escola do homenageado —, cruzou a cena.
Sem alarde, Ciça entrou disfarçado entre bailarinos. Tirou o paletó, revelou-se aos holofotes e, ao lado de sua versão mirim, riscou a pista como nos tempos de passista. Subiu então a um tripé em forma de apito que se transformava nos arcos da Apoteose. Ao fim, simulou passar mal — parte do roteiro — e deixou a Sapucaí de moto, escoltado, para reassumir a bateria na concentração.
Dobradinha e reencontro
A homenagem reuniu mestres de bateria de diversas escolas e o casal de mestre-sala e porta-bandeira Claudinho e Selminha, que desfilam pela Beija-Flor, foram destaques de um carro alegórico. Eles estiveram junto com mestre Ciça na Estácio de Sá, no carnaval que a escola venceu em 1992.
Houve ainda o retorno de Juliana Paes como rainha de bateria, 18 anos após sua última passagem. Em referência a 2007, os ritmistas voltaram a subir em um carro alegórico, recriando imagem histórica sob o comando de Ciça e Juliana. O carnavalesco Paulo Barros, que criou a alegoria à época, esteve na Sapucaí e atravessou a avenida emocionado.
Entre mares cenográficos e apitos monumentais, 2026 reafirmou que a avenida é também arquivo: guarda memórias, corrige ausências e, quando a sirene toca, escreve história.
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