A iniciativa chega em um momento crucial onde a discussão sobre a qualidade e o alcance do nosso cinema foi reacendida por sucessos recentes e premiações internacionais
A memória do cinema brasileiro acaba de ganhar uma chance de sobrevivência contra a ditadura dos algoritmos. O lançamento da plataforma Tela Brasil pelo Governo Federal não é apenas mais uma opção no cardápio de quem procura o que assistir no sábado à noite, mas uma resposta tardia e necessária a um mercado que sempre tratou a nossa produção como cidadã de segunda classe. Enquanto as grandes empresas estrangeiras de streaming usam nossas telas para vender sucessos globais e escondem nossos filmes em categorias obscuras, a criação de uma janela pública e gratuita funciona como um ato de soberania cultural que devolve ao público o direito de se ver na tela sem pagar pedágio.
A iniciativa chega em um momento crucial onde a discussão sobre a qualidade e o alcance do nosso cinema foi reacendida por sucessos recentes e premiações internacionais. Existe uma ironia dolorosa no fato de que o brasileiro médio conhece mais sobre os subúrbios de Nova York do que sobre o sertão nordestino ou as periferias de suas próprias metrópoles, simplesmente porque o acesso a essas histórias sempre foi bloqueado por ingressos caros ou pela falta de interesse comercial dos grandes estúdios. O Tela Brasil rompe essa barreira ao colocar clássicos, documentários e ficções a um clique de distância, eliminando a desculpa financeira que por anos afastou a plateia de seus próprios criadores.
Essa medida também ataca de frente o preconceito histórico de que o cinema nacional é inferior ou resumido a apenas um gênero. Ao centralizar a produção em um catálogo curado e acessível, a plataforma expõe a diversidade técnica e narrativa que o mercado comercial ignora, provando que existe vida inteligente muito além das comédias de bilheteria fácil. A democratização do acesso não serve apenas para entreter, mas para educar o olhar de uma nova geração que poderá crescer consumindo sua própria cultura nas escolas e em casa, criando uma base de fãs que não depende da validação de Hollywood para valorizar o que é nosso.
A tecnologia, que tantas vezes serviu para homogeneizar o gosto mundial e apagar as diferenças regionais, agora é usada como ferramenta de resistência. Se o cinema é o espelho de uma nação, o Brasil finalmente decidiu limpar a poeira do seu reflexo e convidar a todos para olharem, gratuitamente, para quem realmente somos.
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