Fonoteca da Música Paranaense foi atingido por alagamento; entidade corre contra o tempo para evitar perdas irreversíveis
O forte temporal que atingiu Curitiba na última terça-feira (3) e provocou alagamentos em diversos pontos da cidade também trouxe consequências preocupantes para o patrimônio cultural do Paraná. Um storage situado na região da Marechal Floriano Peixoto, onde está guardada grande parte do acervo físico da Fonoteca da Música Paranaense, foi inundado, acendendo o alerta entre músicos, pesquisadores e instituições ligadas à preservação da memória cultural do Estado.
Formalizada como associação há pouco mais de um ano, a Fonoteca é responsável pela guarda de cerca de 400 mil itens reunidos ao longo de décadas pelo cientista político e pesquisador Manoel de Souza Neto e doados à entidade. O acervo inclui discos de vinil, fitas VHS raras, registros sonoros e audiovisuais, além de documentos, cartazes e materiais que fundamentaram centenas de pesquisas acadêmicas e a obra “A [des]Construção da Música Paranaense”, referência nacional na área dos estudos culturais.
O presidente da Fonoteca, Rodrigo Amaral, artista e articulador da cena musical local, relatou o momento de tensão vivido após o temporal. Em carta direcionada à comunidade cultural, ele afirmou que a entidade foi surpreendida por um aviso emergencial informando que o espaço de armazenamento havia sido tomado pela água.
Após a enchente, o local apresentava acúmulo de lama e umidade excessiva. Uma avaliação preliminar indicou que, apesar da gravidade da situação, a maior parte do acervo escapou do contato direto com a água. Segundo Amaral, um desnível no piso pode ter evitado danos mais amplos. Ainda assim, o risco permanece elevado. “A umidade e a proliferação de fungos representam uma ameaça silenciosa. Se não houver uma ação técnica rápida, o acervo pode ser comprometido ao longo do tempo”, alertou.
Parte do material, no entanto, não teve a mesma sorte. Dezenas de itens — entre fitas VHS, DVDs e discos de vinil, muitos deles considerados raros — sofreram danos diretos, colocando em risco registros únicos da história musical paranaense.
Consciência da materialidade
O episódio também provocou uma mudança de percepção sobre o acervo. Amaral relata que, até então, a memória preservada pela Fonoteca era vista de forma mais simbólica, já que muitos desses registros continuam vivos em palcos, gravações e relatos. Nos últimos meses, o foco da entidade estava voltado à ampliação do diálogo acadêmico, por meio de parcerias com a Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e com o Grupo de Trabalho Musics, coordenado pelo professor André Egg.
“O impacto foi profundo. Pela primeira vez senti o peso físico da história”, afirmou. “Ali estão registros de festivais, de trajetórias pessoais, de encontros que não podem ser reconstruídos caso se percam.”
A Fonoteca ressalta que não busca responsabilizar diretamente a empresa de storage, instituições parceiras ou colaboradores. Para a entidade, o episódio evidencia um problema mais amplo. “Trata-se de um descaso histórico com a memória coletiva. Preservar cultura no Brasil ainda é um exercício de resistência permanente”, avaliou Amaral.
Resposta emergencial e mobilização
Diante da situação, a Fonoteca iniciou uma série de ações emergenciais, que incluem a contratação de especialistas em conservação e restauro, medidas imediatas para controle de umidade e a articulação de recursos para viabilizar um espaço definitivo, adequado e climatizado para o acervo, com acesso público.
Mais do que conter os danos atuais, a entidade vê o episódio como um chamado para o futuro. “Esse material tem potencial para gerar novos livros, pesquisas, documentários e ações educativas. Preservá-lo é garantir que a história da música paranaense continue sendo contada”, destacou o presidente.
Ao final, a Fonoteca da Música Paranaense convoca a sociedade civil, o poder público e os agentes culturais a se mobilizarem em defesa desse patrimônio. “Não é uma causa individual. É uma responsabilidade coletiva. A música produzida no Paraná faz parte da nossa identidade e precisa ser protegida para as próximas gerações.”
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