Drones, luzes e multidões: o espetáculo que lota a praia e esvazia o debate cultural

Verão Maior celebra recorde de público em show de Alok, enquanto modelo de entretenimento levanta questionamentos sobre diversidade cultural

O show do DJ Alok, realizado dentro da programação do Verão Maior, reuniu cerca de 338 mil pessoas e entrou para a lista dos grandes recordes de público no litoral do Paraná. Drones cortando o céu, jogos de luzes, som potente e uma estrutura digna de megaeventos internacionais transformaram a orla em um grande palco a céu aberto, celebrado pelo Governo do Estado como prova do sucesso do “maior verão do Brasil”.

Mas um público dessa dimensão não surge por acaso. Ele é resultado de um conjunto de fatores que se somam e se retroalimentam: marketing massivo, propaganda repetida à exaustão e a aposta no espetáculo visual como principal atrativo. Em muitos casos, a música deixa de ser o centro da experiência. O que atrai é o evento em si, o “acontecimento”, o lugar onde todos estão, o medo de ficar de fora.

Para grande parte do público, não se trata necessariamente de afinidade com o DJ ou com o gênero musical, mas da oportunidade de participar de algo grandioso, gratuito e amplamente divulgado. Drones, luzes e volume alto criam uma experiência sensorial imediata, de consumo fácil, que dispensa repertório, escuta atenta ou reflexão.

O problema surge quando esse modelo passa a ser apresentado como a principal — ou única — vitrine cultural. Ao investir pesado em megaespetáculos e tratá-los como sinônimo de cultura, o poder público acaba empurrando multidões para um formato que impressiona os olhos, mas pouco dialoga com a diversidade cultural, com os artistas locais e com as reais necessidades de quem vive longe do palco iluminado.

O recorde de público é um dado incontestável. O debate que fica é outro: que tipo de cultura está sendo promovida, para quem e a que custo social e simbólico.

Compartilhar:

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*