Oscar vai para Parasita e Industria Americana, o horror econômico

Temas sociais e trabalhistas estão nas telas e suscitam reflexões sobre a crise econômica global e o mundo do trabalho.

No clima de temas sociais da cerimônia de premiação do Oscar de 2020, dois documentários pouco comentados chamam a atenção. The Social Dilemma tenta interpretar o papel das redes sociais e seus algoritmos na vida das pessoas. Coded Bias também fala desse tema; o documentário analisa os aplicativos com reconhecimento facial que costumam ser falhos e, em muitos casos, racistas.

Na disputa do Oscar, os documentários Democracia em vertigem, da brasileira Petra Costa — que escancarou ao mundo a vergonhosa trama do golpe do impeachment de 2016 contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, iniciada pelo submundo da política representado pela Operação Lava Jato —, e o vencedor Indústria Americana — sobre o cotidiano dos operários da fábrica da General Motors em Ohio que passou para as mãos de um milionário chinês — mostram o conceito de luta de classes.

Os filmes O irlandês e Parasita — este, o vencedor do Oscar — também enveredam por esse tema. A luta de classes não é nominada, mas facilmente perceptível. Especialmente em Indústria Americana e Parasita, os problemas econômicos que demarcam os mundos de ricos e pobres aparecem como ponto central. Eles ficam mais nítidos quando vistos com os dados recentemente divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Divisões domésticas

Em seu relatório anual, publicado em 21 de janeiro de 2020, a organização questiona “se a taxa de desemprego é a medida mais confiável do mau funcionamento do mercado de trabalho”. O emprego não é mais garantia de segurança pessoal e familiar e de perspectiva de futuro, pois a remuneração e os direitos têm piorado, afirma o documento.

Enquanto isso, diz a OIT, a riqueza está cada vez mais concentrada nas mãos de bancos, empresários e ricos em geral. Em 2004, 54% do PIB global eram distribuído para os trabalhadores. Em 2017, o montante diminuiu para 51%. A queda foi puxada pelas crises nas Américas, na Europa e na Ásia Central. Na América Latina e no Caribe a tendência é de piora, prevê a OIT. A situação é mais crítica para os jovens.

Já o Relatório Global de Riscos 2020 do Fórum Econômico Mundial prevê que este ano será de embates, divisões domésticas e internacionais e desaceleração econômica. Isso porque a turbulência geopolítica está levando a um mundo unilateral “instável”, de grandes rivalidades de poder.

Tigres asiáticos

O tema do filme Parasitas chama a atenção também para outro problema — a influência histórica da economia dos Estados Unidos na região asiática. Uma parte significativa dos problemas sociais da Coreia do Sul e de outros países asiáticos se deve a esse domínio. Mesmo o rico Japão enfrenta sérios problemas para se levantar, também por estar umbilicalmente ligado à economia norte-americana.

Os Estados Unidos exportam sua crise. A debacle de 1997-1998 foi o ponto mais crítico para os chamados tigres asiáticos, países que ostentavam um crédito monumental em títulos do Tesouro norte-americano — recursos que financiam os gigantescos déficits estadunidenses. Foi o repatriamento de uma parte dessas aplicações que provocou a “crise asiática”.

A região era tida como o paraíso de tigres que cresciam e afiavam as garras. Taiwan, Coréia do Sul, Cingapura e Hong Kong formavam as poderosas NIEs (Newly Industrialized Economies). Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas eram as maiores economias do grupo Asean (Associacion of the South-East Nations).

Mas a crise abateu os tigres, um a um. O furacão começou a girar na Tailândia, com os especuladores do “mercado” apostando contra o baht — a moeda local. Era a jugular da presa. Com um tigre caído, a insegurança se alastrou pela floresta. A crise ganhou proporções amazônicas quando os especuladores resolveram estender sua ação para o centro financeiro da Ásia, cercando o tigre que dominava aquelas paragens: Hong Kong e o seu dólar.

Aquelas economias se ergueram por meio de um alto endividamento externo — em grande parte pelo setor privado, com o aval dos governos. Assim, acabaram criando para si um problema insolúvel: capacidade industrial ociosa e montanhas de dívidas. O fluxo de empréstimos e investimentos estimulou o crescimento inicial, centrado nas exportações, e criou a armadilha que capturou os tigres.

Produção de alimentos

Já Indústria Americana, que levou o Oscar de melhor documentário, remete às relações de trabalho. Tema muito debatido, sobretudo após a incorporação de novas tecnologias e de novos métodos de organização do trabalho, ele ganha mais relevância na crise que fez o desemprego mundial explodir, como revela o relatório da OIT.

De fato, há uma revolução tecnológica em andamento. As projeções são de um admirável mundo novo em que as fábricas serão dominadas por robôs supervisionados por especialistas digitais. Os softwares também substituirão os trabalhadores na agricultura. Empresas especializadas em softwares agrícolas já estão fornecendo tecnologia que permite ao agricultor monitorar o meio-ambiente, coletar dados sobre mudanças meteorológicas, condições do solo e outras variáveis.

A revolução tecnológica em desenvolvimento e a biotecnologia prenunciam uma nova era de produção de alimentos dissociada da terra e do clima. A agricultura tradicional, centrada em grandes extensões de terra ao ar livre, deverá dar lugar à manipulação de moléculas no laboratório.

Homem em massa

Essa torrente tecnológica está deixando para trás o modelo preponderante de produção do século XX: o fordismo, que ultrapassa o limite da organização do trabalho e se constitui num modelo de desenvolvimento. Ele assentou suas bases na fórmula de que o Estado deve intervir na economia para garantir rendimentos mínimos aos trabalhadores.

O fordismo nasceu associado à ideia do consumo de massa e da elevação da produtividade. Numa época em que o capitalismo era pressionado por suas crises e ao mesmo tempo pelo projeto socialista, seu surgimento foi saudado em muitos setores da economia como o modelo de desenvolvimento capaz de equilibrar o aumento da produtividade com o crescimento do poder aquisitivo dos trabalhadores.

O fordismo na prática ajudou a selar o fim do capitalismo concorrencial do final do século XIX e inaugurou uma nova etapa das relações de trabalho. O trabalhador que até então detinha os conhecimentos técnicos e culturais do processo de trabalho cedeu sua capacidade para o processo de produção.

Antônio Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano, diz, no trabalho Americanismo e Fordismo, que ao implantar, em 1913, o seu sistema de produção e gestão na Ford Motor Company, em Highland Park, Detroit, Henry Ford deu início a um novo modo de vida. “Um novo tipo humano, em conformidade com o tipo de trabalho e de processo produtivo (…), uma mão-de-obra estável, um conjunto humano (o trabalho coletivo), (…) uma máquina que não deve desmontar nem avariar demasiadas vezes suas peças individuais”, diz ele. Ou seja, a produção em massa trazia também o “homem em massa”.

Relações públicas

A adulação com a qual o fordismo foi recebido passou a ser substituída por críticas ásperas. Até a imprensa liberal trocou os elogios efusivos com os quais saudava as ideias de Ford pela hostilidade. Em 1928, o jornal The New York Times descreveu Ford como “um industrial fascista — o Mussolini de Detroit”.

O homem milagroso começou a ser retratado como vilão. Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos, mostrou o operário esmagado pela linha de montagem. O fazedor de milagre também foi condenado por Aldous Huxley no livro Admirável Mundo Novo, publicado em 1931. Huxley imaginou um futuro tecnocrático, desencantador, no qual os homens eram embargados pela coerção e desnorteados por uma nova religião — o fordismo.

O conceituado economista norte-americano John Kenneth Galbraith diz que Ford foi o primeiro personagem a fazer amplo uso das relações públicas. “Ele foi o primeiro embromador”, diz o economista. Em 1960, o especialista em marketing Theodore Levitt escreveu em seu livro A miopia do marketing: “Nós habitualmente celebramos Ford pela razão errada: sua genialidade em produção. Sua real genialidade era em marketing.”

Algo ainda indefinido

Sobre a linha de montagem de Ford, Peter Drucker, espécie de oráculo da administração empresarial norte-americana, disse nos anos 1950 que “se de fato analisarmos essa chamada nova tecnologia, descobriremos que não se trata de ‘tecnologia’ alguma”. “Não é uma combinação de forças físicas. É um princípio de ordem social”, afirmou.

O que se vê no lugar do fordismo é algo ainda indefinido — o ponto central de Indústria Americana. A impressão é de transição para uma situação social mais brutal. Mercados restritos e “modernos” convivem com a miséria absoluta e global. É, enfim, uma situação que evolui rapidamente para novos paradigmas.

Talvez seja o caso de concordar com Viviane Forrester, que em seu livro O Horror Econômico afirma: “Vivemos em meio a um engodo magistral, um mundo desaparecido que teimamos em não reconhecer como tal e que certas políticas artificiais pretendem perpetuar. Milhões de destinos são destruídos, aniquilados por esse anacronismo causado por estratagemas renitentes, destinados a apresentar como imperecível nosso mais sagrado tabu: o trabalho.”

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