O cinema brasileiro começa a sair da vertigem

Filmes nacionais exibidos na 23ª Mostra de Tiradentes apontam para um 2020 com narrativas que tratam da esperança no futuro em meio ao caos. Tem realismo fantástico, paródia, afeto e sorrisos

 

por Joana Oliveira

Em uma época de incertezas na cultura, o cinema brasileiro vive um momento de efervescência criativa e de calorosa recepção do público. Se 2019 consagrou a distopia (para alguns, utopia) nordestina de Bacurau como fenômeno cultural e ficou marcado pela crise política retratada em Democracia em Vertigem, de Petra Costa —que agora concorre ao Oscar—, 2020 começa com uma safra de filmes que refletem a realidade do país para além do caos sociopolítico. É o que mostrou a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que acontece na cidade mineira de 24 de janeiro até este sábado. O evento, que inaugurou o calendário do audiovisual brasileiro, trouxe 113 filmes (entre curtas e longa-metragens), dentro do tema “A imaginação como potência”. São obras que projetam, na beira do abismo, realismo fantástico, sátiras, ambição estética e —por que não?— risadas.

 

“O que emerge na atual produção do país é o desejo de interpretar nossa experiência hoje, de projetar caminhos possíveis, de provocar imagens que nos remetam a uma perspectiva sobre o passado, tendo em vista não só um olhar original sobre as fraturas sociais e políticas, mas também uma superação destas num desejo de futuro”, explica o crítico Francis Vogner dos Reis, coordenador da Mostra Tiradentes.

 

 

 

Um dos longas que refletem esse momento é Pacarrete, do diretor Allan Deberton, que voltou seu olhar para sua pequena cidade natal, Russas, no interior do Ceará, para contar a história ingênua, engraçada e real de uma professora de balé (seu nome vem do francês pâquerette, que significa margarida) apaixonada por todas as artes e que brigava com a prefeitura para que seus projetos fossem realizados, o que nunca ocorreu. O filme é uma síntese do artista brasileiro, incompreendido pelo povo —Pacarrete era considerada louca— e subestimado pelo Governo, que não valoriza o poder da cultura. Apesar dos momentos tristes, é dessas obras às quais se assiste com um sorriso nos lábios durante uma hora e meia.

 

O alívio cômico também é a marca de Sofá, uma paródia tropical de Bruno Safadi que, apesar de ser cinema independente, é estrelado pelos globais Chay Suede e Ingrid Guimarães. A história, contada com imagens tingidas de diferentes cores que evocam estados emocionais, é a da ex-professora de escola pública Joana D’Arc e de Pharaó, um misto de bandido e herói, que circulam pelos escombros do Rio de Janeiro, convertido em cidade-ruína depois das remoções violentas que abriram espaço para as Olimpíadas, buscando uma reconciliação com um território usurpado. É humor em meio à destruição.

 

“2020 tem tudo para trazer uma produção muito heterogênea, com filmes que criam essas alegorias sobre o Brasil”, comenta a crítica Camila Vieira, uma das curadoras da Mostra. O ano passado já dava mostra de que os ventos começavam a soprar ares mais leves quando Pacarrete, visto como um patinho feio dentre as obras em competição, levou os principais prêmios do Festival de Gramado, incluindo melhor filme e direção.

 

Dentro do repertório heterogêneo, a surpresa é O Lodo, longa dirigido por Helvécio Ratton e baseado em um conto de Murilo Rubião, que leva para a tela um toque de realismo fantástico. Manfredo é um burocrata que sofre de depressão e procura um psiquiatra de métodos pouco ortodoxos para ajudá-lo. Com uma estética tradicional, o filme mergulha o espectador em uma espiral em que sonho e realidade, alucinação e espantos se misturam. Aqui, o cinema brasileiro coloca em segundo plano as crises nacionais e põe o foco na angústia e nos traumas do indivíduo.

 

A proposta de novos olhares também está presente em Sertânia, que conta a jornada de um cangaceiro com planos e cortes mergulhados no delírio do homem que agoniza. Filmado em preto e branco, com uma fotografia estourada —e impecável—, a obra de Geraldo Sarno é daquelas cuja beleza arrebata já na primeira cena. O filme é um retorno ao sertão que apresentam o cenário e o cangaço sob outra estética. Já não estão o chão rachado e o estonteante amarelo solar. Mas é possível sentir cada espinho de mandacaru na pele quando Antão Gavião rasteja na caatinga —e, com ele, a câmera—.

 

Em um exercício de vanguarda, Sertânia se constrói como um quebra-cabeça opaco, em uma narrativa não linear, um teatro moderno que faz lembrar Darren Aronofsky ou David Lynch. Em algumas cenas, a equipe de produção aparece ao fundo. É o ensaio do frenesi em que o protagonista mergulha, fazendo do espectador uma testemunha e cúmplice de sua via crucis.

 

 

 

Imaginário do afeto

Apesar das novas apostas estéticas e temáticas, os curadores da Mostra Tiradentes receberam muitas inscrições de filmes ainda mergulhados na ressaca dos acontecimentos dos últimos anos —perseguição contra liberdades, aumento do desemprego, instabilidade política— e que refletiam uma sensação geral de desesperança. Decidiram apostar, no entanto, no imaginário do afeto.

 

“Recebemos, principalmente nos curtas, muitos filmes de personagens enclausurados, tristes, sem enxergar nenhuma possibilidade de futuro ou saída do caos. E aí surgiram outras produções de grupos e coletivos com narrativas de opressões, mas apontando possibilidades de existência apesar disso. Optamos por selecionar esses filmes”, conta a curadora Camila Vieira.

 

Um dia com Jerusa, longa de estreia de Viviane Ferreira, é o melhor exemplo dessa aposta, já que está centrado na formação de laços afetivos a partir de uma ancestralidade compartilhada. O encontro se dá quando Silvia, uma jovem pesquisadora de mercado bate à porta da solitária Jerusa, que se prepara para a celebração do aniversário de 77 anos. Tendo como cenário o bairro do Bixiga, em São Paulo, o fluxo cotidiano das personagens é suspenso com o relato das reminiscências de Jerusa e as visões mediúnicas de Silvia de seu passado ancestral.

 

Daí surge o afeto, também presente no curta A Felicidade Delas, de Carol Rodrigues, que mostra corpos negros e lésbicos que pulsam, se encontram, se amam e se impõem aos perigos de existirem em uma sociedade que os quer excluídos. A brandura como reação à violência.

 

Para Camila Vieira, essa mudança de paradigma presente em muitas obras reflete o panorama do fazer cinema no Brasil. Ela coloca o pé no chão ao refletir sobre as ameaças que pairam sobre o setor —desde o corte de patrocínios e orçamentos até a eventual extinção da Ancine (Agência Nacional do Cinema). “Penso que não estamos mais na era Collor, quando também houve a extinção do Ministério da Cultura e da Embrafilme [empresa de economia mista estatal, produtora e distribuidora de filmes] e vivemos um momento sombrio de paralisação do cinema brasileiro. Hoje, o cinema é digital, o que dá uma possibilidade de realizadores fazerem seus filmes mesmo sem muito dinheiro. Quem sempre fez cinema, continuará fazendo.”

 

Um dos curtas da Mostra dá o tom do momento: Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham as estrelas.

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