Amigo.
De minha vida, confesso sei um pouco.
Na década de 60, passei a ser, sem saber, um jovem observado pelas entidades militares de informação. E isso era, na época, uma neurose coletiva e eu, com somente dezessete para dezoito anos, estava sendo monitorado. Estou aqui nesse texto, contando um pouco da minha história, estou com 77 anos, não sou mais jovem como penso que sou. Vamos lá, sou paulista do interior, meus pais eram mineiros e analfabetos. Logo com 8 anos, toda a família mudou-se para o norte do Paraná, Bela Vista do Paraíso- PR, onde fiz o primário e reprovei durante 2 anos. Descobri, descobri após adulto, que sempre fui disléxico.
Meu pai trabalhava como mecânico de máquina de beneficiamento de café, por isso acabou trabalhando em: Ibiporã, Londrina e Astorga. Como era muito problemático com minhas limitações no grupo escolar, acabei sendo aceito no seminário dos padres da congregação Sagrados Corações (espanhóis), em São José dos Pinhais. Onde fiquei durante três anos. Percebi que não tinha vocação para ser padre e fui morar numa pensão em Curitiba, Rua XV, 848, onde hoje é o Hotel Mabu.
Estudava no Colégio Tiradentes, praça do homem nu, ainda com as mesmas dificuldades para aprender. Fiz muitos amigos no seminário, e um deles já era “irmão”, ou seja, estava na faculdade fazendo Teologia, João Reberte Navarro. Foi quando me despertou pela aventura, eu já era um explorador, com uns amigos fazíamos excursões pela Serra do Mar (Pico Marumbi e outras montanhas-escotismo). Quando Navarro teve a ideia de fazer uma aventura de carona, pela América do Sul, Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai…
Solicitei dispensa do SESI, onde trabalhava como contínuo, e saímos de mochila, pegando carona até atingir nosso objetivo, o Oceano Pacifico e as montanhas nevadas. Chile! Assim fizemos, era final de maio de 1967, a ventura essa que era chegar em Puerto Montt, na terra do Fogo chilena. Durante toda a viagem, dormíamos nos postos de gasolina e até arrumamos outra carona em caminhões, automóveis e até longas caminhadas a pé. Quase três meses e um grande aprendizado.
Nossos contatos com outros mochileiros e pessoas que conhecemos nos caminhos, sempre com os assuntos políticos e a efervescência da época em todo o continente. O amigo Navarro, na sua posição de teólogo católico, facilitava a viagem, e sempre ficávamos em paróquias ou colégios católicos por onde passávamos. Depois de quase três meses de viagem, já estávamos cansados e resolvemos voltar para o Brasil, quando estávamos nas cordilheiras, em Las Cuevas, divisa do Chile com Argentina, após uma longa jornada a pé pelo caminho Los Caracoles, não me lembro bem o nome real. Chegamos à Cabala, ou seja, na aduana. Lá ficamos umas 4 horas, à espera de uma carona. Surgiu um caminhão pequeno e aceitou dar carona, mas isso para uma pessoa, Navarro estava com febre e não passava bem. Combinamos que iria somente o Navarro e marcamos o encontro na igreja matriz de Mendoza, já na Argentina. Pois bem, eu fiquei lá sozinho, foi quando, após oito horas, apareceu uma carona com um casal argentino que estava vindo do Chile. O homem era médico de nome Moacir Peres, me ofereceu carona e, após passar pela fiscalização com os guardas da fronteira, que me ajudaram a colocar a mochila no automóvel, que era um Citroën. Junto estava uma menina (filha) de uns sete anos. E, ao se despedir dos guardas, seguimos o caminho, me entregaram um potinho de iogurte, perceberam que eu estava com fome. Eles me avisaram que antes iriam passar num sítio, num lugar próximo a Puente del Inca, Plaza de Mulas que é um acampamento base do Aconcágua e está a 4300 metros de altitude. Tudo bem, eu estava de carona, só depois que percebi que esse encontro, para o Moacir, era uma peça importante na viagem e principalmente no local que estava indo. Eram uns ranchos, quatro, com alguns animais, havia umas bicicletas e uma moto que estava sem o tanque de gasolina e no lugar havia um garrafão de vinho amarrado, substituindo provavelmente o tanque de combustível.
Mas vamos ao assunto, havia vários homens, todos os jovens, e o casal desceu e entregou uma bolsa tipo mochila. Fiquei no carro até me chamarem para entrar no rancho e comer uns pêssegos (durazno), e lá fiquei aguardando um tempo e, como eu não falo o castelhano, entendia e o assunto era sobre os carabineiros que poderiam estar na região à procura de pessoas. O chefe do grupo, um rapaz moreno, alto e de cabelos longos, conversou comigo e fez algumas perguntas sobre Curitiba e como entrar no Brasil, pelo Paraguai em Foz ou no Mato Grosso. Lógico que eu disse que seria melhor pelo Paraná, Foz, pois eu tinha esperança de ir junto se fossem de carro, embora ficasse com receio da história deles, em saber que os carabineiros estavam na região procurando não sei o quê.
A conversa entre eles continuou e me deixaram de lado. Num determinado momento, o cara que me deu carona foi até o carro, agachou e tirou um embrulho debaixo do banco do carro. Percebi que era uma arma enrolada num pedaço de lona e, diante da situação, fiquei quieto, fingindo até que não havia visto nada. A história ali continuou durante um bom tempo, horas…, assunto lá resolvido entre eles, me chamaram para ir para o carro, pois eu estava sentado num banco de madeira num puxadinho do rancho onde tinha uma sombra e exposto a um vento gelado.
Entrei no carro e alguns rapazes vieram se despedir. O líder me agradeceu pela informação sobre a dirección do alojamento-edifício ASA de Curitiba, e saímos pela estradinha no meio do deserto. Após alguns quilômetros, o homem disse que era para que eu nunca fale desse encontro e os jovens ali do rancho estavam escondidos dos militares argentinos e o chefe era o Dr. Ernesto. Não me dei conta de quem era realmente, somente durante a viagem, pensando, foi que perguntei se o líder era o “Guevara”? O homem simplesmente me disse que o assunto deveria morrer ali e que era melhor para todos e que eu nunca em momento algum poderia comentar esse encontro e assim seguimos até Mendoza. Já na praça em frente a uma igreja, e lá estava o Navarro me aguardando. Agradeci ao argentino Moacir, e nos despedimos. Antes de sair, me entregou uma sacola de pêssegos (duraznos). Entrei com Navarro na casa paroquial, até o quarto que deveria ficar com o amigo. Tomei um banho, coisa que não fazia há uns dois dias, e o padre ofereceu um jantar com vinho após umas vinte horas sem comer.
A viagem para Curitiba demorou mais uns cinco dias, e quando chegamos a Foz do Iguaçu, conseguimos dinheiro com as irmãs da congregação no Paraguai. Pegamos um ônibus e chegamos a Curitiba. Voltei para a pensão da Dona Alice, onde morava antes da viagem. Dois dias depois, voltei a procurar emprego, era fim de inverno e ainda muito frio, quando apareceu numa manhã na pensão, um sargento e um cabo, num jipe do exército, me intimando e dizendo que deveria me levar para o quartel do Boqueirão.
Na realidade, eu não entendia muito o que estava acontecendo, mas percebi que, pelas atitudes dos milicos, era alguma coisa muito séria. Uma palavra me assustou, quando um dos soldados me perguntou se eu era subversivo e qualquer coisa sobre a Argentina. Chegando ao quartel, levaram-me para uma sala vazia, no segundo andar do prédio. Sozinho na sala ouvia gritos e barulho de vozes agressivas, dando ordem para não gritar. Fiquei com medo e, quando entrou um oficial na sala dando ordem para acompanhá-lo, fiquei sabendo depois que era o Capitão Carlos Alfredo Pellegrino, assistente do Coronel Waldemar Oswaldo Bianco, chefe do DOPS e DOI-CODI. Já na sala do Coronel, começou a fazer perguntas sobre o que fui fazer no Chile e quem encontrei na Argentina, se eu conhecia um argentino de nome Moacir Rodriguez. Diante da minha negativa, até porque o Moacir que conheci na Argentina era Peres e não Rodriguez, perguntou se eu conhecia alguém do exército em Curitiba, já que havia falado que eu era de Bela Vista do Paraíso, no norte do Paraná, antes de vir trabalhar em Curitiba e que havia estudado no Seminário dos Sagrados Corações em São José dos Pinhais.
Falei que conhecia o Major da Aeronáutica, Paulo Hesketh, que era do Círculo Militar, de onde eu fora sócio atleta. Na sequência, ele solicitou para ligar para o Círculo Militar. O Coronel Bianco saiu para falar ao telefone, que acredito ser com o Major Paulo.
Após uns quinze minutos, voltou já mais calmo e, como era quase noite, me dispensou com a exigência de voltar no dia seguinte sem falta, às nove horas da manhã. Saí do quartel do Boqueirão e estava com medo, pela primeira vez com medo. O trajeto até a pensão onde morava, fiz a pé, passei no bar do Sr. Euzébio e comi um pastel com um pingado. Não consegui dormir, e pensando no que seria no dia seguinte no quartel. Arrumei minhas coisas todas, alguns livros no canto do quarto e fui para o ponto de ônibus do Pinheirinho. Chegando ao ponto final, percorri um bom trecho até chegar à BR 116, na época ainda sem pavimentação.
Muitas caronas, eu já era craque nessa atividade, pois havia feito isso em vários países da América do Sul. Cheguei a Lajeado–RS, onde fui recebido pelo amigo irmão Navarro, que lá estava lecionando aos seminaristas menores. Contei para ele uma história sem revelar a verdade e expliquei a minha intenção de ir para Manaus, no Amazonas, onde tinha alguns amigos e que meu foco era estudar medicina. Na época, havia sido instalada em Manaus a Fundação da Universidade Federal do Amazonas, e para isso uma Faculdade de Medicina seria necessária para a oficialização como “Universidade Federal”. Logo, não havia muitos candidatos, muitos vestibulandos chamados na época de “excedentes” estavam se deslocando para o Inferno Verde, assim era chamado o Amazonas, que já era Zona Franca de Manaus. Demorei cinquenta dias para chegar a Manaus, antes passei pelo Rio de Janeiro RJ, Salvador BA, Recife PE, Belém PA. Nesses trajetos todos, peguei carona de: avião, caminhão, automóvel. Em Salvador, BA, fiquei na casa de um amigo que encontrei na estrada, Joel Pereira, e com sua ajuda fui até Recife num avião dos correios (CAN).
Em Recife, fiquei no bairro Casas Amarelas, na casa de uma empregada do tenente Wilson Brand (amigo de Curitiba). Passei três dias no porto tentando arrumar carona para Belém, PA, em algum cargueiro da Marinha Mercante, consegui no navio “San Miguel” e foi assim também de Belém até Manaus, AM, no navio “Ponta de Areia”. Cheguei a Manaus no final de julho de 1967.
Uma grande parte de todo esse tempo, vivi acuado. Durante mais de 40 anos, escondi o que havia acontecido nessa parte da minha vida, até mesmo da minha família. Em Manaus, morei em república com amigos estudantes: Erasto de Mello Juliano, Alexandre Kutassy, João Teixeira Filho, Edson Mila, Hildair Munin. Trabalhei como repórter do Jornal do Commercio (Diarios associados), onde fazia todo tipo de matéria que foram publicadas na agência Meridional, para todo o Brasil e exterior.
Cursei dois cursos de Arte cênica (Professor Wagner Mello e Eduardo Cabus) e me tornei durante 7 anos, professor do estado, lecionando no. Instituto de Educação do Amazonas, Instituto Benjamin Constant, Colégio Estadual de Manaus, e depois de um estágio na TV Cultura de São Paulo, me tornei diretor e produtor da TV Educativa do Amazonas. Quando fiz amizade com os Lucenas (Hamilton, Haroldo, Socorro Novo e Joaquim), Fernão, Inês, José Carlos e Nelson Mattos Aguiar. Os americanos Bob de Paula, Richard e Lilian, Prof. Paulo, Junior e Carmem. Entrei no sonho de cinema: Isac Amorim, Jonas Luiz. Descobri a televisão e a parceria com Edmar Costa e Jacó Luiz de Figueiredo, Jota O. Pereira, Adenauer Zanetti, Zezinho Correia, Adolfo Mardônio Rocha. Dirigi vários programas de televisão. Quem pintou a zebra, Girafa Total, Um milhão por uma canção, Brasil música e poesia. Noite de seresta e Gincana estudantil. Várias mulheres, Rita, Selma e Ceíta, filhos e músicas: com Jorge Touro Leal, Roberto Dibo, e muitas serenatas com Rinaldo Buzaglo e Wagner. Festivais com Joaquim Marinho, Anibal Beça, Edward Costa e Valderlaine Caldas, mas minha melhor parte ficou com “A menina e o Rio” com o Wandler Cunha, eternizada por Zeca Torres e Karina Aguiar. Teatro, Wagner Mello, Eduardo Cabus, Moacir Bezerra, Stanley Whibe e Nielson Menon “Os olhos de todos nós e O bom o mau e o sujo”, peças que me rendeu 6 horas na polícia federal com um delegado de nome Jaime Rabelo. Deixei amigos, mulheres, filhos. De motocicleta, viagem para Acre, Santa Cruz de la Sierra na Bolívia e em Rondônia junto Eros Torrinho, Vinicius Danin, Claudio e Ricardo Feitosa e a doce Laís Dias e coloquei no bolso de minha memória o “Outro Braço da Cruz”. Voltei para o sul, e ingressei na TV Globo no Rio de Janeiro. Em São Paulo ainda pela TV Globo, foi produtor do programa Moacir TV, com o Moacir Franco, com José de Paula Dantas, Leonardo Reis, Antonino Seabra e Mario Lucio Vaz. Participei de vários programas da (Globo) como: fantástico, 8 ou 800. Globotec e Coordenador de Departamento Comercial da TV Globo — SP-2 (Campinas-SP). Na TV Bandeirantes de São Paulo fui coordenador e diretor de vários programas e do departamento de eventos com Wilson Thomas, Ivan Magalhaes e Carlos Alberto Botinni. Na década de 80, ingressei no marketing político juntamente do Chico Santa Rita e participei de 19 campanhas e com 12 vitorias. Roberto Requião -PR (quatro eleições), Francisco Moraes e Souza (Mão Santa) -PI, Oscar Drakeford- PY, Amazonino Mendes-AM, Amir Lando- RO, Ratinho Junior-PR, Edgar Bueno-PR, Hermes Parcianello-PR, Lísias Thomé- PR, Leonaldo Paranhos-PR.
DRAMATURGIA:
Realizei como, roteirista e diretor de “A Saga – Da Terra Vermelha Brotou o Sangue” (1999–2016).
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- 16 capítulos (1h cada), mais de 5 mil participantes.
- Exibida na TV Brasil e em mais de 200 emissoras.
- Estimativa de 110 milhões de visualizações.
- Marco cultural e histórico do Paraná.
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PRÊMIOS E RECONHECIMENTOS:
- Medalha de Ouro – Prêmio Colunistas – (APA – Associação Paulista de Anunciantes – Oana – Publicidade –AM – 1992).
- Medalha de Ouro – Festival Guarnacê (São Luís/MA, 1990).
Moções de Honra e Aplauso:
- Câmara Municipal de Curitiba (2009).
- Assembleia Legislativa do Paraná (2013).
- Câmara Municipal de Toledo (2014).
- Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (2025).
- Destaque no Rio Content Market (2016) ao lado dos criadores de Game of Thrones e Sherlock.
MANAOOS ARISTIDES – 41 992071372
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