Como o sertanejo universitário e o “agrosertanejo” ameaçam a essência da cultura caipira
Durante décadas, a música caipira foi mais que entretenimento: foi memória, identidade e expressão direta da vida no campo. Nascida do encontro entre a viola portuguesa trazida pelos jesuítas, os ritmos indígenas como o cateretê e a contribuição africana, ela se consolidou como uma das mais autênticas manifestações da cultura brasileira. Cantada em duplas, com vozes em terças e acompanhada pela viola de dez cordas, narrava a lida com o gado, a saudade da terra, a fé e os desafios da vida rural.
Até meados do século XX, a música caipira era transmitida oralmente, de cantador para cantador, enraizada nas rodas simples do interior. Com a chegada da indústria fonográfica, nomes como Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho e Inezita Barroso ajudaram a registrar e difundir essa tradição. Ainda que houvesse transformações — como a introdução do acordeom, da harpa e posteriormente da guitarra — mantinha-se o vínculo com o campo e com a narrativa da experiência rural.
A partir dos anos 1960, o sertanejo romântico ampliou o foco temático, priorizando o amor idealizado e o sofrimento afetivo. Já não era a música estritamente da roça, mas ainda preservava elementos estruturais da tradição e certa densidade poética. Nos anos 1990, com o sucesso de duplas nas rádios e na televisão, o gênero passou a ocupar grandes palcos e a integrar definitivamente o mercado de massas.
O rompimento mais radical ocorre, porém, nos anos 2000, com o surgimento do chamado sertanejo universitário — e, mais recentemente, do “agrosertanejo”. A temática desloca-se da terra para a festa; da lida para a balada; da coletividade rural para o individualismo urbano. As letras passam a exaltar consumo, ostentação, poder aquisitivo e status social. A figura do boiadeiro cede lugar ao empresário do agronegócio; a simplicidade da viola é substituída por megaestruturas de palco, efeitos pirotécnicos e estratégias de marketing digital.
Sob a ótica da teoria da Indústria Cultural, proposta por Theodor Adorno, essa transformação não é neutra. A padronização das composições, a repetição de fórmulas melódicas e temáticas e a massificação via rádio, televisão e plataformas de streaming produzem músicas feitas para consumo rápido e reação previsível. O valor de uso — a expressão genuína de uma vivência — dá lugar ao valor de troca: a música como mercadoria altamente lucrativa.
O perigo para a verdadeira cultura caipira não está apenas na mudança estética, pois a cultura é, por natureza, dinâmica. O risco reside na substituição da memória pela mercadoria. Quando o “agro” se torna marca e espetáculo, esvazia-se a complexidade da vida rural real, com suas contradições, sofrimentos e saberes tradicionais. O campo vira cenário; a identidade, produto; a tradição, estratégia de mercado.
Assim, o sertanejo universitário e o agrosertanejo não representam apenas uma evolução do gênero, mas uma ressignificação que pode descaracterizar suas raízes. Preservar a música caipira não significa rejeitar o novo, mas reconhecer que há diferença entre transformação cultural orgânica e formatação industrial voltada exclusivamente ao consumo. Entre a viola na varanda e o palco recordista do Guinness, há mais que tecnologia: há uma mudança profunda no sentido da própria música.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor
Graduação em Direito
Pós Graduado
História do Brasil
Ciências Políticas

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